Uma, duas, três. Na terceira presença consecutiva na Final Four da Liga dos Campeões de futsal, o Sporting cruzava pela terceira vez com o Inter Movistar, considerado por muitos a melhor equipa europeia e que conta também, entre a constelação de estrelas, com o seis vezes melhor do mundo, Ricardinho. O histórico, esse, era tudo menos favorável para os leões, que perderam as duas últimas finais de forma expressiva diante dos espanhóis, em Almaty e Saragoça. E essa condição de outsider mantinha-se neste reencontro, apesar de reforços de peso como Guitta, Leo ou a grande revelação da época, Erick. No entanto, a realidade deste duelo ibérico podia ter sido bem diferente do que viria a acontecer esta sexta-feira no Cazaquistão.

No seguimento da segunda derrota seguida com o conjunto de Madrid (com uma oposição mais conseguida mas ainda assim sem argumentos para superar o Inter), o Sporting projetou um novo caminho para alcançar o título que lhe faltava – o Benfica, que ganhou em 2010 no então Pavilhão Atlântico, é o único conjunto português com um troféu europeu no futsal. E foi essa noite de 22 de abril que começou esse “esboço” com uma ideia bem vincada: além da contratação de quatro a cinco jogadores, os leões tinham de “atacar” Ricardinho para assegurarem o melhor do mundo e, em paralelo, tirarem a principal referência aos espanhóis. As negociações avançaram, o ala admitiu a probabilidade de 70% de deixar o clube mas tudo acabaria por cair por terra no seguimento da instabilidade institucional dos verde e brancos. Esta sexta-feira, em Almaty, a história foi escrita ainda com o capitão da Seleção Nacional no lado contrário: o Sporting, com uma exibição em muitos momentos a roçar a perfeição, alcançou uma surpreendente vitória na meia-final por 5-3, esperando agora pelo vencedor do jogo entre Kairat e Barcelona.

Sem a limitação que tem no plano interno com os cinco estrangeiros, Nuno Dias conseguiu fazer outra gestão da equipa e foram os leões a beneficiarem da primeira boa oportunidade, com Guitta a explorar o jogo direto e Cavinato a desviar de cabeça para a primeira defesa apertada de Jesús Navarro (que teve de receber assistência após embater no poste). As zonas de pressão mais altas do Sporting iam conseguindo bloquear a construção do Inter, em determinados momentos surpreendido com a estratégia, mas a primeira saída com mais qualidade em superioridade por pouco não resultou em golo, com Ricardinho, em boa posição, a acertar no poste da baliza leonina num daqueles lances que raramente costuma falhar (5′).

Faltava o golo para abrir mais o jogo e acabou por surgir em dose dupla… em menos de dez segundos (6′): o Inter inaugurou o marcador num lance infeliz de Pedro Cary, a desviar para a própria baliza um remate de Humberto após trabalho individual; o Sporting respondeu logo na reposição com Deo a aproveitar o espaço oferecido pela defesa espanhola para rematar rasteiro e bater Jesús Navarro. Aquilo que poderia ter sido um golpe anímico para os leões acabou por transformar-se numa redobrada motivação para o conjunto de Nuno Dias, que foi capaz de equilibrar sempre a partida e ter tantas ou mais chances para visar a baliza do que os espanhóis, com destaque para a intervenção por instinto de Navarro a remate de Leo e para um lance onde Dieguinho acabou por desviar um tiro de Cavinato que parecia encaminhar-se para a baliza.

O intervalo chegou com a igualdade a um golo, que premiava a maior intensidade e agressividade dos leões no primeiro tempo contra uma equipa espanhola abaixo da qualidade normal (e com razões de queixa aos 14′, quando Gadeia ficou a pedir o cartão vermelho a Guitta por ter cortado um lance fora da área com a mão antes do choque que deixou o brasileiro lesionado), o que deixava o conjunto português a sonhar com a possibilidade de causar uma surpresa que ficou perto de concretizar-se quando Merlim, isolado perante Jesús Navarro, atirou ao poste com o espanhol a tocar ainda na bola (23′). Não foi aí, foi no minuto seguinte, com Dieguinho a aproveitar um canto batido pelo italo-brasileiro para desviar na área para o 2-1.

Em vantagem, o Sporting continuou a jogar de forma organizada, evitando ao máximo o erro que permitisse saídas em transição do adversário, teve mais duas boas aproximações à baliza do Inter em jogadas onde os espanhóis continuaram a ser demasiado passivos no plano defensivo e beneficiou de uma oportunidade soberana para aumentar a vantagem no seguimento da expulsão de Elisandro por agressão a Cardinal (e respetiva inferioridade numérica nesse período), aproveitada por Dieguinho para bisar no jogo, numa recarga depois de um corte incompleto de Ortíz na área após remate de Merlim na área (30′).

A sete minutos do final e privado do principal pivô para afundar as defesas contrárias, Jesús Velasco, arriscou o 5×4 com Bebé como guarda-redes avançado e o encontro passou a resumir-se ao ataque organizado do Inter e às tentativas verde e brancas de surpreender com remates de baliza a baliza. Guitta, internacional brasileiro contratado esta temporada ao Corinthians que já estava em excelente plano, tornou-se a figura do encontro, com uma série de intervenções que foi mantendo a vantagem do Sporting no encontro até ao final, reforçada com o hat-trick de Dieguinho a quatro minutos do final. Bebé, quase na resposta, ainda reduziu mas os leões voltaram a estabilizar e houve mais dois golos dentro do último minuto, por Cardinal e Gadeia.

De referir que esta é a quarta vez que o Sporting chega à final da prova europeia de futsal (e terceira consecutiva), procurando ainda o primeiro triunfo de sempre na prova depois das derrotas com os italianos do Montesilvano (5-2 em 2011) e com os espanhóis do Inter (7-0 em 2017 e 5-2 em 2018). Curiosamente, os leões disputaram a primeira decisão também no Cazaquistão, numa Final Four que contou ainda com a presença do Kairat e do Benfica.