“A primeira coisa que faço quando chego a um clube novo é ser eu, não ser mais do que isso. A minha ética de trabalho é sempre a mesma. Se o dono de uma empresa chega e começa a refilar com toda a gente, as pessoas nunca o verão como um líder. Vão dizer: ‘Este é o chefe, mas não me trata bem’. Deves ser humilde, aprender que não sabes tudo. Se fores assim, captas coisinhas que te fazem melhorar como atleta. Adaptei-me perfeitamente na Juve. Viram que não sou um charlatão. É o Cristiano e é assim porque se cuida. Uma coisa é falar, outra é fazer. Porque é que ganhei cinco Bolas de Ouro e cinco Champions?”.

Em entrevista à revista Icon do El País, que sai para as bancas este fim de semana, Cristiano Ronaldo fala um pouco de tudo. Do Real Madrid no passado e no presente, da impossibilidade de algum dia representar o Barcelona. Da hipótese de poder um dia ser treinador, da necessidade constante que sente em provar algo. Numa perspetiva mais lata, da forma como encara a vida ou dos (poucos) amigos próximos que faz no “mundo difícil” que é o futebol. Sobre a Juventus, a citação supracitada resume da melhor maneira a primeira temporada em Turim: a eliminação nos quartos da Champions frente ao Ajax será sempre um marco negativo mas, a título pessoal, conseguiu uma boa adaptação numa nova etapa aos 33 anos (agora 34) e contribuiu de forma decisiva para a vitória na Serie A e na Supertaça. Ainda assim, havia um objetivo tangível para as últimas quatro jornadas.

Depois de uma primeira fase onde foi clara a sua tentativa de habituação não só à forma de jogar do conjunto de Massimiliano Allegri mas também à maneira como as defesas transalpinas se estruturam, Ronaldo começou a marcar, bateu alguns recordes do clube e da Serie A e chegou a liderar a corrida pelo prémio de melhor marcador do Campeonato. Depois, com o título quase ganho e devidamente combinado com a equipa técnica da Vecchia Signora, foi sendo poupado em alguns compromissos (além da lesão muscular contraída na Seleção Nacional com a Sérvia, em março) para aparecer na Liga dos Campeões – como apareceu, com hat-trick ao Atl. Madrid, um golo em Amesterdão e mais um em Turim frente ao Ajax. Pelo meio, Fabio Quagliarella continuou a a brilhar na Sampdória (vai nos 23), Piatek não perdeu o instinto depois da transferência do Génova para o AC Milan e Zapata manteve-se como grande revelação da Atalanta (ambos com 21). Ronaldo, desde meio de fevereiro, marcou apenas no último sábado, no empate da Juve em Milão com o Inter. E, com isso, partia com um atraso de três golos nessa corrida.

O dérbi com o Torino trazia boas memórias ao português, que tinha apontado o único golo do encontro da primeira volta no Estádio Olímpico. Em termos de importância, os visitantes partiam com mais a perder ou ganhar, consoante o resultado – no seguimento de uma temporada muito bem conseguida, o conjunto de Walter Mazzarri continua na luta por um lugar europeu e, no limite, na Liga dos Campeões, tamanha é a luta muito à justa por dois lugares entre Inter, Atalanta, Roma, Torino, AC Milan e Lazio. No entanto, dérbi é dérbi e um triunfo neste tipo de jogos tem sempre um gosto especial. Pelo menos, deveria ser assim; no final, percebeu-se que é como se a época da Juventus tivesse terminado no dia em que se sagrou campeã.

Com um número de ausências que quase dava para fazer outro “onze” (e a dar luta ao que entrou esta noite, com Alex Sandro, Rugani, Khedira, Emre Can, Betancur, Caviglia, Douglas Costa, Dybala e Mandzukic), os bianconeri tiveram uma primeira parte muito apagada onde beneficiaram apenas de três boas oportunidades, com dois remates de fora da área de Cristiano Ronaldo (um deles a sair muito perto) e uma bola de Matuidi na cara de Sirigu após assistência do português, com grande defesa do guardião contrário. Da parte do Torino, Belotti surgiu sempre como ameaça para Bonucci e Chiellini mas foi Lukic a conseguir inaugurar o marcador aos 18′, no seguimento de um lançamento lateral de João Cancelo para Pjanic onde o bósnio acabou por cair no choque com o sérvio e permitiu o remate em jeito sem hipóteses para Szczesny.

Ronaldo subiu bem mais alto do que Brener após cruzamento de Spinazzola e marcou assim o 21.º golo na Serie A (Tullio M. Puglia/Getty Images)

No segundo tempo, Spinazzola ainda teve uma tentativa ao lado em posição privilegiada mas o rendimento da Juventus não melhorou e Ronaldo continuou demasiado sozinho na frente, sem possibilidade de criar os desequilíbrios posicionais que dessem para pelo menos chegar ao empate a não ser na sequência de um canto em que não chegou da melhor forma à bola e cabeceou desenquadrado com a baliza. Pelo menos até ter tempo e espaço – quando isso aconteceu deu logo golo, com o avançado quase a parar no ar após cruzamento de Spinazzola da esquerda para cabecear e fazer o 1-1 a seis minutos do final. Curiosamente, este foi o 100.º golo oficial por clubes apontado pelo capitão da Seleção Nacional na carreira.

Num jogo marcado por estarmos em vésperas de chegar ao 70 anos da tragédia de Superga que vitimou toda a equipa dos toros, o Torino voltou a ser Grande mas houve um jogador ainda maior que evitou o triunfo visitante no dérbi e consequente aproximação aos lugares cimeiros da classificação, nomeadamente o quarto e último com acesso à Liga dos Campeões.