Cristiano Ronaldo está na ribalta do futebol e da atualidade internacional há mais de 15 anos. Desde 2003, ano em que chegou ao Manchester United enquanto pedido expresso de Alex Ferguson e foi apresentado no relvado de Old Trafford ao lado do brasileiro Kléberson, o jogador português é um dos temas favoritos dos jornais desportivos, dos generalistas e dos tabloides. Cristiano é transversal ao tipo de informação e ao tipo de público alvo. Até porque a persona confiante e aparentemente sem receios ou arrependimentos que criou é também transversal a todos os planos, situações e ocasiões.

O avançado português deu recentemente a primeira entrevista a um meio de comunicação espanhol desde que saiu do Real Madrid. Na conversa com a revista Icon do El País, o objetivo era publicitar a clínica de transplantes capilares que Cristiano Ronaldo inaugurou recentemente na capital espanhola – mas claro que quando um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos se disponibiliza para dar uma entrevista, é quase impossível restringir a conversa a marketing, publicidade e problemas capilares. Na entrevista, que é o tema de capa da edição de maio da revista, o próprio jornalista assume que as perguntas que fez foram previamente aprovadas pela equipa de comunicação que acompanha Cristiano Ronaldo; mas também assume que conseguiu desviar o rumo da conversa num determinado ponto. O objetivo final, confessa o entrevistador, era conseguir declarações sobre a acusação de violação feita pela norte-americana Kathryn Mayorga ou sobre os problemas do jogador com o Fisco espanhol – de dois pontos fulcrais, só conseguiu um.

Referindo-se a si mesmo na terceira pessoa várias vezes ao longo da entrevista, Cristiano começa por explicar que é “mais fácil escolher um clube do que escolher um negócio” e que às vezes se cansa de “ter de provar todos os anos” que é “muito bom”. “É difícil. Tens o que tens por contar com essa pressão adicional de ter que demonstrar algo às pessoas, não só a ti. A todas as pessoas que estão à tua volta. A tua família, a tua mãe, o teu filho…’Cris, tens de ganhar amanhã’. Isso torna-te mais ativo. Tens sempre de treinar, mas chega um momento em que dizes: ‘Olha, deixa-me…'”, confessa o avançado da Juventus, que se tornou esta temporada o primeiro jogador de sempre a tornar-se campeão nas três principais Ligas europeias, Inglaterra, Espanha e Itália.

Sobre se ainda desfruta do futebol, a resposta é ambígua: sim, mas não como antigamente. “Vejo o futebol como uma missão: ir para o campo, ganhar, tornar-me melhor. Esses momentos em que ia para o campo a pensar ‘vou driblar!’…sou honesto, esses momentos já não os tenho. Há uma pressão adicional. As pessoas estão sempre a julgar. ‘Está acabado. Tem 33, 34, 35 anos, devia reformar-se’. E eu quero surpreender toda a gente. Aqui continua o bicho”, afirma Cristiano, que acredita que o público o vê “como uma pessoa que nunca pode ter um problema, nunca pode estar triste, nunca pode ter preocupações”. “As pessoas identificam a falta de problemas com o êxito e o dinheiro. ‘Como é que ele pode estar triste se tem milhões?'”, acrescenta o jogador português.

Cristiano deixou Madrid em julho do ano passado mas decidiu abrir o novo negócio na capital espanhola

“A primeira coisa que faço quando chego a um clube novo é ser eu, não ser mais do que isso. A minha ética de trabalho é sempre a mesma. Se o dono de uma empresa chega e começa a refilar com toda a gente, as pessoas nunca o verão como um líder. Vão dizer: ‘Este é o meu chefe, mas não me trata bem’. Deves ser humilde, aprender que não sabes tudo. Se fores assim, captas coisinhas que te fazem melhorar como atleta. Adaptei-me perfeitamente na Juve. Viram que não sou um charlatão. É o Cristiano e é assim porque se cuida. Uma coisa é falar, outra coisa é fazer. Porque é que ganhei cinco Bolas de Ouro e cinco Champions?”, questiona Ronaldo, para depois explicar porque é que decidiu abrir o novo negócio em Madrid, a cidade que acabou de deixar, e não em Turim, a cidade onde acabou de chegar.

“A minha família é daqui, nasceram aqui, estive nove anos nesta cidade. Muitos momentos que vivi aqui não se podem apagar. Continuei aquilo que tinha planeado porque Madrid me deu muito, como é que o posso esquecer? Os espanhóis trataram-me bem. Quero dar-lhes postos de trabalho, independentemente de ter tido os problemas que tive com o Fisco. Sigo com a cabeça erguida, sei que as pessoas gostam de mim, sabem que dei muito ao clube e que o clube também me deu muito. Na rua dizem-me: ‘Cris, volta para casa, esta casa é sempre tua’. Gosto muito de ouvir isso”, que rejeita ainda uma eventual ida para o Barcelona na reta final da carreira porque “lá não gostam muito do Cristiano”. “O Barcelona não é para mim”, garante o jogador.

Cristiano revela ainda que “não descarta” a carreira de treinador, que desfruta do dinheiro que tem de forma aberta e sem receios porque é “algo natural” e que fez amigos no futebol mas é “um mundo difícil”. “É como se perguntares a uma modelo se tem muitas amigas modelos. Pode dizer-te que sim, mas na realidade muito poucas vezes estará em casa a jantar com as amigas modelos”, indica o avançado da Juventus, que termina a conversa a clarificar a forma descomplicada com que encara a vida. “Quando algo acontece, não posso ir para casa chorar. Se há um problema, vamos tentar procurar uma solução. Só não há solução para a morte”, atira Cristiano Ronaldo, o jogador que anda há mais de 15 anos nas bocas do mundo e que mantém a mesma personalidade desde o primeiro dia.