O explorador aquático norte-americano que fez o mergulho mais profundo de sempre, no Fosso das Marianas, encontrou a 10,927 metros de profundidade um saco de plástico e papéis de rebuçados, noticia a BBC.

Victor Vescovo desceu no submersível “The Limiting Factor” ao fundo da Depressão Challenger, o mais profundo fosso do mundo. Numa viagem de 11 quilómetros e que durou quatro horas, Vescovo realizou o maior mergulho da História. O anterior recorde tinha sido fixado pelo realizador James Cameron também no Fosso das Marianas, quando, em 2012, desceu a uma profundidade de quase 11 quilómetros.

“Penso que o humano tem uma tendência natural para atingir extremos. Há uma parte fantástica da nossa natureza que nos faz testar os nossos limites. É impossível descrever o quão entusiasmados estamos por termos alcançado este recorde”, disse à CNN o explorador de 53 anos.

Na expedição, que decorreu no dia 1 de maio, Vescovo e a sua equipa fizeram no total cinco mergulhos, em 12 horas. Foram também lançados no terreno meios robóticos para explorar o local. “Vi coisas muito interessantes no fundo”, disse o norte-americano no fim do mergulho.

Na depressão, a equipa crê ter descoberto quatro novas espécies de crustáceos, semelhantes a camarões. Foram ainda vistos pepinos-do-mar e formações rochosas “de cores vibrantes”, que podem ser depósitos químicos. Contudo, o sucesso da expedição ficou manchado pela descoberta de lixo humano. A poluição chegou, literalmente, ao mais fundo local da Terra. A equipa recuperou um saco de plástico e invólucros de rebuçados. Os animais vão agora ser testados por cientistas para averiguar se têm no seu sistema microplásticos, um problema cada vez mais comum para as espécies dos oceanos.

A equipa crê ter descoberto quatro novas espécies de crustáceos

A expedição faz parte de uma missão intitulada Five Deeps, cujo objetivo é realizar mapas detalhados dos cinco mais profundos locais dos oceanos. De facto, a equipa já realizou missões na Fossa de Puerto Rico e na South Sandwich Trench, ambas no Oceano Atlântico, e na Fossa de Java, no Oceano Índico. A missão vai agora navegar, em agosto, na nunca explorada Molly Deep, no Oceano Ártico. “Até agora, já completámos cerca de 150.000 quilómetros quadrados de base oceânica. E ainda só vamos a meio. Quando concluídos, os mapas serão disponibilizados online para serem utilizados por qualquer pessoa”, disse Alan Jamieson, cientista chefe da expedição.

Esta foi a terceira vez que o Homem “nadou” na Fossa das Marianas. A primeira expedição aconteceu em 1960 e foi realizada pelos oceanógrafos Don Walsh e Jacques Piccard, no submersível “Bathyscaphe Trieste“. E, no dia em que Victor bateu o recorde, estava na superfície a assistir ao mergulho nada mais nada menos do que Don Walsh.

O explorador (à direita) foi saudado à superfície por Don Walsh (à esquerda), o primeiro homem a mergulhar na Fossa das Marianas

“Saúdo o Victor Vescovo e a sua fantástica equipa pela exploração histórica do Fosso das Marianas. Há seis décadas, eu e Jacques Piccard fomos os primeiros a visitar o local mais fundo dos oceanos. Agora, é uma honra ser convidado para participar nesta expedição a um local da minha juventude”, declarou Walsh.

O submersível em que o explorador mergulhou tem 4,6 metros de comprimento e 3,7 metros de altura e foi construído pela empresa norte-americana “Triton Submarines”. Tem capacidade para duas pessoas e é capaz de suportar a pressão que o mais profundo local do oceano oferece: 1,000 bars, equivalente a 50 aviões empilhados em cima de uma pessoa. Para além de operar sob altas pressões, o submersível tem ainda de trabalhar com pouca ou nenhuma luminosidade e sob temperaturas gélidas. “Este submarino, em conjunto com a sua equipa de expedição extraordinariamente talentosa, elevaram a tecnologia marinha para um nível totalmente novo e ridiculamente alto”, disse Vescovo.

As condições na Depressão também dificultaram a captura de imagens. A expedição está a ser acompanhada pela Atlantic Productions, para a realização de um documentário para o Discovery Channel. O diretor de conteúdos da produtora, Anthony Geffen, refere que filmar neste ambiente foi o trabalho mais difícil em que esteve envolvido. “Tivemos de desenvolver novos sistemas e suportes para montar no interior do habitáculo do Victor e filmar todos os seus mergulhos”, explicou.

A expedição foi financiada pelo próprio Victor Vescovo. O americano, que trabalha na área das finanças, já fez também escalada. Desta vez, desceu a uma profundidade superior à altura do Evereste.

“Sinceramente, no fim, relaxei, refastelei-me no cockpit, desfrutei da vista e comi uma boa sanduíche de atum, enquanto flutuava no local mais fundo da Terra”. Foi um momento muito feliz e pacífico para mim. E depois voltei à superfície”, recordou Victor Vescovo.

Depois de completada a missão, a equipa pretende oferecer o submersível a instituições científicas, no final do ano, para que investigadores possam continuar a utilizá-lo. Hoje, as fossas oceânicas tornaram-se uma das últimas fronteiras do planeta. Outrora remotas, estes “desertos marítimos” enchem-se agora de vida.