Jokha Alharthi, autora de Celestial Bodies, é a vencedora do Booker International 2019, prémio criado para incentivar a publicação e leitura de ficção de qualidade traduzida para língua inglesa. O anúncio foi feito esta terça-feira à noite na Roundhouse, em Camden Town, Londres, pela presidente do júri deste ano, a historiadora Bettany Hughes.

Esta é a primeira vez que um livro escrito em língua árabe vence o galardão. Alharthi é a primeira escritora originária do Sultanato de Omã a ser traduzida para inglês. “É uma grande honra”, afirmou a autora durante a cerimónia desta terça-feira.

Traduzido pela académica Marilyn Booth, que receberá metade do prémio, e publicado pela editora Sandstone Press, Celestial Bodies conta a história de três irmãs que vivem na aldeia omanense de al-Awafi — Mayya, que se casa com um pretendente oriundo de uma família rica depois de um desgosto de amor; Asma, que casa por dever; e Khawla, que espera por um homem que emigrou para o Canadá.

“Somos capazes de nos conhecer melhor em lugares estranhos e novos”

Bettany Hughes descreveu Celestial Bodies como um livro que “capta tanto o coração como a cabeça, que é subtil, lírico, profundo”, que transporta o leitor para “novas órbitas de experiência”. “Com uma arte delicada, evoca as forças que nos contêm e aquelas que nos libertam. Há uma linha deste trabalho que parece captar o espírito deste prémio e do próprio internacionalismo. Essa linha é: ‘Somos capazes de nos conhecer melhor em lugares estranhos e novos’.”

A presidente do júri do Booker Prize International já tinha chamado a atenção, durante a divulgação da shortlist em abril, para a importância da literatura estrangeira e a sua capacidade de ligar diferentes pontos do mundo e dar a conhecer diferentes realidades. Os outros jurados da edição deste ano foram Pankaj Mishra,Elnathan John, Maureen Freely e Angie Hobbs.

No Twitter, são várias as mensagens de parabéns para a escritora e à Sandstorm Press. Entre aqueles que admitiram ter gostado muito do romance, está a primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, que não deixou passar em branco o facto de a editora de Celestial Bodies ser escocesa.

Além de Celestial Bodies, estavam nomeados para o Booker Prize International deste ano romances escritos na sua maioria por mulheres e publicados por editoras independentes. O único homem a chegar a lista de seis finalistas foi o colombiano Juan Gabriel Vásquez, com The Shape Of The Ruins. Além desta obra, estavam nomeadas The Years, da francesa Annie Ernau, The Pine Islands, da alemã Marion Poschmann, Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead, da polaca Olga Tokarczuk, e The Remainder, da chilena Alia Trabucco Zeran.

No ano passado, o prémio — no valor de 50 mil libras, que serão divididas de forma igual pelo autor e tradutor — foi atribuído a Olga Tokarczuk pelo romance Flighs, publicado no Reino Unido pela Fitzcarraldo Editions e traduzido para o inglês por Jennifer Croft. Tokarczuk foi a primeira polaca a vencer o galardão. O livro está publicado em português pela Cavalo de Ferro.

Dos prémios atribuídos anualmente pela The Booker Prize Foundation, faltam ainda conhecer-se os nomeados para o Booker Prize, o prémio de ficção em língua inglesa. A longlist será anunciada a 24 de julho e a shorlist a 3 de setembro. O finalista será anunciado a 14 de outubro durante uma cerimónia no Guildhal, em Londres. Em 2019, a vencedora foi Anna Burns, autora de Milkman (em breve publicado em Portugal pela Porto Editora). Foi a primeira vez que um escritor da Irlanda do Norte recebeu o mais importante galardão de literatura em inglês.

Este ano marca também o 50º aniversário da entrega do primeiro Booker Prize (criado um ano antes, em 1968, pela Booker MacConnell Ltd., uma empresa que comercializava açúcar, rum e maquinaria usada na exploração mineira) a P.H. Newby, autor que, apesar da popularidade que tinha, acabou por cair no esquecimento. O romance que lhe valeu o galardão, Something to Answer For, é um dos poucos do escritor inglês disponível no mercado britânico.