Atalanta é uma personagem da mitologia grega. Normalmente encarada com um paralelo menos importante da deusa Artemis, é associada ao desporto e à disponibilidade física: segundo a lenda, o pai de Atalanta só queria filhos, não filhas, por isso abandonou a recém-nascida no topo de uma montanha, onde esta sobreviveu alimentada por uma ursa. Tornou-se caçadora, matava centauros e é descrita como uma lutadora forte e rápida. Normalmente, representa a força das mulheres e é sempre colocada ao lado das deusas Hera, Atena e Nike enquanto exemplos maiores da influência do sexo feminino na mitologia grega. Em Itália, bem perto da Grécia, Atalanta é bem mais do que uma personagem mitológica. Em Itália, principalmente esta segunda-feira, Atalanta é sinónimo de algo que nunca tinha sido feito.

A Atalanta, o clube da região de Bérgamo, inspirou-se na história para dar nome à equipa que nasceu em 1907 e fez história este domingo. Ao vencer o Sassuolo por 3-1 na última jornada da Liga italiana, o conjunto orientado por Gian Piero Gasperini garantiu o terceiro lugar e a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões da próxima temporada — algo que nunca tinha alcançado. Em conjunto com o Inter Milão (que também carimbou a ida à Champions este domingo), a Atalanta juntou-se à Juventus e ao Nápoles na liga milionária e venceu a batalha com o AC Milan e a Roma que durou a época inteira e terminou com a queda dos rossoneri e dos giallorossi para a Liga Europa.

Em 2011, há apenas oito anos, o clube estava na Serie B, o segundo escalão do futebol italiano. Ainda assim, a ida da Atalanta à Liga dos Campeões não é propriamente uma surpresa se olharmos para as últimas duas campanhas da equipa do norte de Itália, ambas já com Gasperini ao comando. Em 2016/17, o primeiro ano do treinador em Bérgamo, a Atalanta terminou o Campeonato numa sensacional quarta posição e celebrou o regresso ao futebol europeu 26 anos depois, caindo nos 16 avos de final com o Borussia Dortmund. Na temporada passada, o clube fechou a época em sétimo, garantindo a ida ao playoff de apuramento para a Liga Europa — onde caiu com o Copenhaga, algo que Gasperini considerou “uma bênção”, já que a ausência de objetivos europeus obrigou os jogadores a concentrarem-se nos objetivos internos. Objetivos esses que só não foram cumpridos na totalidade porque a equipa falhou a conquista da Taça de Itália, perdendo na final com a Lazio depois de ter eliminado a Juventus nos quartos de final e a Fiorentina nas meias-finais.

A Atalanta terminou o Campeonato no terceiro lugar e enquanto melhor ataque da tabela, já que fechou a temporada com 77 golos marcados. Um número elevado para a realidade do futebol italiano e que, segundo Fabio Capello, é justificado por um fator contra-natura mas simples de elaborar: a Atalanta não joga o futebol típico da realidade italiana. Capello, que treinou o AC Milan, a Roma, a Juventus, o Real Madrid e ainda a seleção inglesa, explicou à Gazzetta dello Sport que a equipa de Gasperini não só lidera em golos marcados como também no número de toques dentro das áreas adversárias, algo que deixa em claro a superioridade no que toca à percentagem de posse de bola e também a eficácia da recuperação de bolas em zonas avançadas do terreno. Capello destacou ainda a ausência de receio dos jogadores da Atalanta em partir para o um-para-um e a vontade de assumir o risco e a recompensa do mesmo — comparando depois o conjunto italiano à entusiasmante formação do Ajax que chegou às meias-finais da Liga dos Campeões, num paralelismo entre o futebol italiano e o holandês que poucas vezes terá sido feito na história do futebol. Mas essa forma de jogar, o risco pouco calculado que raramente se vê em Itália, está em tudo relacionada com Gian Piero Gasperini.

Gian Piero Gasperini é o treinador da Atalanta desde junho de 2016

O treinador de 61 anos — que o presidente da Atalanta garante que vai continuar em Bérgamo na próxima temporada — explicou em novembro que esse método surgiu “por instinto” enquanto orientava o Génova e preparava um jogo contra a Juventus. “Até aí, ter superioridade numérica na defesa era um dogma. Mas eu tinha o Burdisso, um marcador muito forte. Deixei-o a ele e ao De Maio contra o Tevez e o Llorente. Fizeram um jogo fantástico e eu ganhei um homem extra que podia entregar a manobras táticas. Valeu a pena o risco. Os defesas da Atalanta que hoje vemos a atacar constantemente nasceram dessa intuição”, contou Gasperini à Gazzetta.

Intuições e mitologia à parte, a verdade é que a Atalanta é a equipa sensação da temporada italiana que agora terminou e vai estar na Liga dos Campeões no próximo ano — feito que se torna particularmente relevante se tivermos em conta que a equipa de Bérgamo tem o 14.º maior orçamento da Serie A (só quatro clubes têm menos dinheiro disponível). Atualmente a jogar em casa fora de portas, já que o Stadio Atleti Azzurri d’Italia está a sofrer obras de remodelação, a Atalanta vai olhar com bons olhos para o encaixe financeiro da liga milionária. Até porque a história, aquilo que fica nos livros, nas fotografias e na memória, essa já está feita.