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Um restaurante sem caixote do lixo? Sim, é dos Kitchen Dates e vai abrir em Lisboa

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Os Kitchen Dates começaram como página de Instagram em 2016 – agora abrem as portas de um espaço em nome próprio. Já arrancou o crowdfunding para o projeto a favor de um mundo sustentável.

Cerca de 3 anos depois do arranque, o novo espaço dos Kitchen Dates está em processo de construção: não gostam de lhe chamar restaurante, mas sim a nova casa © DR

Autor
  • Maria Espírito Santo
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Tarte de batata doce roxa e alfarroba, tarte de caramelo de amêndoa ou cheesecake de forno: são tentações para gulosos que servem para abrir o apetite para esta conversa. É sobre pratos coloridos e sabores surpreendentes e também sobre saúde e sustentabilidade. Os responsáveis são os Kitchen Dates: página de Instagram, gastronomia inovadora, movimento por um mundo melhor – e, em breve, restaurante em nome próprio. Vai abrir no bairro de Telheiras, em Lisboa, e terá só produtos locais, de origem biológica e com muita atenção à pegada ambiental.

Os mentores, Rui Catalão e Maria Antunes, fazem assim crescer a ideia, que começou como brincadeira em 2016, ao abrir o primeiro restaurante sem caixote do lixo – leu bem. O conceito base é bastante simples: evitar o desperdício. Quer dizer que todos os pratos e produtos são feitos de raiz, da manteiga ao vinagre, e tudo o que é feito é comido, reutilizado ou vai direto para o compostor: “Em 24 horas transforma qualquer tipo de matéria orgânica em composto” explica Rui.

Há fitas no chão, pinturas nas paredes e muitas ideias que é preciso pôr em andamento até à abertura, em setembro. O novo espaço dos Kitchen Dates está em processo de construção: não gostam de lhe chamar restaurante, mas sim a nova casa: “Não nos revemos porque aquilo que fazemos é proporcionar experiências gastronómicas”, diz Maria. Experiências essas que até hoje se serviram na sua própria sala de jantar, primeiro em Amesterdão e depois em Campo de Ourique, Lisboa. Agora a dupla dá o salto e as boas-vindas a uma nova sala.

No início, o pão

Esta aventura começa a mais de dois mil quilómetros, na capital holandesa. Estávamos em 2015 e Maria trabalhava para uma companhia aérea, Rui para uma agência de gestão desportiva. Por esta altura ainda não eram vegan: comiam carne, peixe e muitos alimentos processados. Até que começaram a fazer perguntas. “Porque é que o pão tem dez ingredientes? Porque é que tem açúcar? E aí começámos a questionar outros rótulos: das bolachas, de tudo o que era processado”, explicam. Aos poucos, eliminaram esses produtos da alimentação – depois deixaram a carne vermelha e logo de seguida a branca, mais tarde o peixe.

“Porque é que o pão tem dez ingredientes? Porque é que tem açúcar?” As primeiras perguntas deram lugar a muitas outras © DR

De repente tinham diante de si um desafio – cozinhar sem os produtos a que estavam habituados já há uma vida. A vontade de inovar, de criar, começou a invadir-lhes o dia-a-dia: sempre que chegavam a casa, o ponto de encontro era na bancada da cozinha para testar novos ingredientes ou receitas. Um processo divertido que nem sempre correu bem contam, entre risos: como aquela fez em que fizeram uma sopa só de aipo de bola, que lhes deixou a barriga às voltas.

Não se deixaram intimidar, portanto. Foram criando refeições variadas e coloridas que surpreendiam amigos e familiares. “O que é essa coisa vegana que estás a comer?” era uma das muitas perguntas que surgia. Foi em modo de resposta à curiosidade que decidiram criar uma conta de Instagram, o Kitchen Dates (algo como encontros na cozinha), em outubro de 2016, onde registavam as experiências gastronómicas. Daí a promoverem brunches com estranhos, na sua casa foi um passo – foi um casal amigos que deu a ideia e Maria e Rui, introvertidos de gema, decidiram arriscar em tom de desafio. Correu tão bem que as refeições não paravam de crescer, estavam sempre a acrescentar novos lugares.

Entretanto, deu-se o regresso a Portugal. Foi o clima, a ausência de luz e a falta de uma rede social sólida que os desencantou de Amesterdão. Ainda pensaram em dar uma volta ao mundo ou talvez ir para África, mas acabaram por regressar à terra natal onde achavam que só voltariam quando estivessem reformados.

Em junho de 2017, o Kitchen Dates mudou de país, mas não de conceito: em Campo de Ourique continuaram a promover brunches demorados que convidavam desconhecidos a reunir-se em redor de uma mesa recheada. “E a partir daí a coisa explodiu de uma maneira que não esperávamos”, adianta Rui. “Publicávamos os eventos e havia vezes que ao fim de três minutos já estava tudo cheio.” Cada vez mais pessoas de diferentes pontos do país – do Porto a Leiria ou Lagos – se deslocavam de propósito para provar as receitas e conhecer o conceito.  E pelo menos uma pessoa em cada brunch ou jantar perguntava: “Quando é que abrem um restaurante?”

Prioridade ao sustentável

De um lado um esquisito – durante anos Rui não tocou em leguminosas e torcia o nariz aos vegetais – do outro, uma cética que rejeitava as sobremesas por serem demasiado doces ou que se queixava à mãe porque o jantar tinha muita gordura ou sal. O resultado da junção já é história, um projeto com muitos fãs e seguidores (cerca de 16 mil no Instagram). Multiplicaram as refeições, começaram a vender produtos próprios e a participar em eventos, a fazer serviços de catering ou consultoria.

Em Amesterdão familiarizaram-se com nomes como rutabaga, ruibarbo, ou pastinaca, que deram vida a novas receitas © DR

Apesar de terem frequentado alguns workshops – Maria fez um curso de macrobiótica e Rui experimentou outro de fazer pão – muito do que hoje fazem parte da experiência, pesquisa e intuição. E dos passeios no mercado de produtos frescos, em Amesterdão, claro.  Foi lá que se familiarizaram com a rutabaga, o ruibarbo, a pastinaca, os vários tipos de cogumelos ou o tupinambo. São nomes estranhos, para muitos, que geram curiosidade e conversas nos eventos que promovem: uma dinâmica de convivência que se orgulham de criar à volta dos pratos.

Rui e Maria mantêm a curiosidade pelos novos produtos, mas com uma preocupação pela sustentabilidade cada vez mais vincada. Para a dupla é fundamental conhecer a origem da matéria-prima para garantir a frescura e qualidade – conhecem e já visitaram quem lhes fornece as batatas, cenouras ou cebolas, contam – mas também para assegurar uma redução da pegada ecológica. Se já encontraram um fornecedor sustentável de trigo de barbela ou de pimenta rosa, ainda lhes falta achar um parceiro para o centeio, a aveia, o caju ou as especiarias, como a canela. Esperam que esta nova casa leve a um passa-palavra ainda mais eficaz, que os conduza a estes fornecedores portugueses que tanto procuram. Criar um restaurante amigo do ambiente está a ser no mínimo desafiador: para já ponderam eliminar alguns ingredientes porque pura e simplesmente não encontram as alternativas ideais.

Uma brincadeira que se tornou um caso sério de popularidade. Rui Catalão e Maria Antunes ensaiam agora um novo passo © DR

Nesta nova casa estão garantidos os habituais brunches (ao sábado e domingo) e também um ou dois jantares por semana ambos servidos na longa mesa que deverá sentar cerca de 20 pessoas. Terão, ainda, um dia aberto, a sexta-feira, para que quem por ali passa possa experimentar alguns petiscos e em cinco ou seis dias da semana estará aberta a despensa, zona onde terão alguns dos seus produtos para venda – como o semi-curado de amêndoa ou as manteigas de frutos secos.

Planeiam abrir portas em setembro deste ano, mas até lá há um crowdfunding que promete ajudar a financiar o projeto e a juntar toda a gente num movimento a favor da sustentabilidade. O objetivo é atingir os 10 mil euros – um valor que ajudará ao arranque da nova aventura. Até 12 de julho é possível apoiar o projeto com diferentes valores que vão dos 10 aos 1300€: quem ajuda tem direito a uma recompensa que pode ser um cabaz com produtos da dupla, direito a ter o seu nome inscrito nas paredes da nova casa ou até um evento privado (para o valor mais alto). Querem que todos se juntem à causa – e se sintam parte desta família de bons garfos.

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