“Aos 17, ganhei o meu primeiro Grand Slam e sabia que havia mais em mim. De facto, estava de tal forma certa que quando arrumei a minha vida e deixei a casa do meu pai para ir viver com a minha irmã Venus, disse-lhe que podia ficar com o meu troféu do US Open. Não te preocupes, garanti. Vou ganhar outro para a minha casa. Isso é que era confiança. E acabei por ganhar o US Open não uma nem duas mas seis vezes mais.

Desde aquela vitória em 1999, ganhei 23 títulos do Grand Slam, em 39 Grand Slams no total, e inúmeras medalhas de ouro. Andei a perguntar o que me mantinha motivada para jogar ténis. Para mim, a resposta é simples: eu adoro este desporto. Quando estou a fazer discursos, digo sempre como é importante amar o que se faz. Se não for assim, tenta encontrar algo que fale por ti. Segue a tua paixão. Mas claro, há alturas onde amar o ténis é difícil (…)”.

O artigo de opinião publicado esta semana por Serena Williams na revista Harper’s Bazaar tinha um arranque mais generalista antes de entrar no assunto a que mais parágrafos dedicou: a polémica final do último US Open frente a Naomi Osaka, que ficou marcada pela altercação verbal que teve com o árbitro português Carlos Ramos. A americana não mais esqueceu esse dia. Depois de ganhar o Open da Austrália, foi mãe, teve complicações pós parto incluindo um início de embolia pulmonar, demorou até voltar a agarrar na raqueta, recuperou a forma, voltou a finais do Grand Slam mas é esse momento que continua marcado, mesmo numa parte final da carreira em que está apenas a um Major de igualar o registo de Margaret Court.

“Senti-me derrotada e desrespeitada pelo desporto que amo, aquele ao qual dediquei a minha vida, aquele que a minha família mudou. Não porque nele fôssemos bem-vindos, mas porque não conseguimos parar de ganhar. Depois do US Open, voltei a casa na Flórida. Todas as noites, sempre que tentava dormir, as questões não resolvidas passavam pela minha mente em loop: como é que me podes ter tirado um jogo numa final do Grand Slam? A sério, como é que podes tirar um jogo a alguém em qualquer altura, em qualquer torneio? (…) Porque é que não posso expressar as minhas frustrações como toda a gente? Se eu fosse um homem, estaria nesta situação? O que me torna diferente? Ser mulher?”, comentou, antes de admitir que procurou um psicólogo para encontrar respostas e que ligou a Naomi Osaka a pedir desculpa por lhe ter retirado os holofotes.

Cerca de dez meses depois desse episódio, Serena Williams concluiu da melhor forma duas semanas ao melhor nível com a presença na final de Wimbledon. Este era o momento da americana. Mas o ténis não é propriamente um desporto que se jogue sozinho. A americana, de 37 anos, acusou a pressão, cometeu inúmeros erros não forçados e fez o encontro menos conseguido desta edição. Ainda assim, o grande mérito deste encontro decisivo pertenceu à romena Simona Halep. A mesma que afastou antigas campeãs, eliminou a grande surpresa da competição e fechou com chave de ouro frente a Serena com duplo 6-2.

Depois de já ter afastado Viktoria Azarenka, vencedora do Open da Austrália em 2012 e 2013, e Cori Gauff, americana de 15 anos que foi a grande surpresa do torneio ao chegar à segunda semana do torneio após derrotar jogadoras como Venus Williams (a sua grande referência a par de Serena), Halep não deu hipóteses a Elena Svitolina nas meias-finais e coroou duas semanas de sonho com um triunfo sem hipóteses frente a Serena Williams, que se começou a desenhar num 4-0 no primeiro jogo e que ficou quase “carimbado” depois de ter alcançado o break no segundo set que fez o 3-2, tornando-se a quarta jogadora diferente a ganhar Wimbledon nos últimos quatro anos depois de Serena Williams (2016), Garbiñe Muguruza (2017) e Angelique Kerber (2018).

Depois de ter ganho Roland Garros em 2018, Simona Halep, fã de Justine Henin e inspirada por Roger Federer, não passou da quarta ronda em nenhum dos três Grand Slams que se seguiram (Wimbledon, US Open e Open da Austrália), caiu nos quartos do torneio francês este ano e conquistou agora o segundo Grand Slam da carreira. “Era o sonho da minha mãe. Ela sempre disse que se quisesse ser alguém no ténis teria de jogar a final de Wimbledon. Hoje, esse dia chegou”, comentou no final a romena que, em várias entrevistas, revelou sempre a admiração pela família e pelo esforço que fizeram para lhe darem as melhores condições.