É o ponto final naquele que foi considerado o julgamento do século: Joaquin ‘El Chapo’ Guzmán foi esta quarta-feira condenado a pena de prisão perpétua e mais 30 anos de prisão, depois de meses de audiências e mais de 50 testemunhas ouvidas no Tribunal Federal de Brooklyn. O narcotraficante mais poderoso desde a morte de Pablo Escobar, em 1993, tinha sido considerado culpado em fevereiro de todos os dez crimes de que estava acusado, entre tráfico de droga, uso de armas, corrupção e lavagem de dinheiro. Agora, passará o resto da vida numa prisão de alta segurança nos Estados Unidos, sem possibilidade de liberdade condicional.

A condenação prevê ainda que os bens de ‘El Chapo’ na ordem dos 12,6 mil milhões de dólares (cerca de 11,1 mil milhões de euros) sejam confiscados, sendo este também o valor que o narcotraficante terá de pagar de multa aos Estados Unidos e que representa quantidade total de cocaína, marijuana e heroína que Guzmán traficou multiplicada pelo preço médio dessas drogas.

Antes de conhecer a sentença, ‘El Chapo’ falou durante cerca de 15 minutos e acusou o tribunal de ter tido um julgamento injusto e “manchado” pela má conduta do jurados. “Foi-me negado um julgamento justo quando todo o mundo estava a ver“, disse. Recorde-se que, em março deste ano, a defesa do mexicano pediu um novo julgamento alegando que houve uma conduta imprópria do júri ao ler notícias sobre o caso durante o julgamento — uma ação que o juiz considerou que seria desaconselhável neste caso — e que, por isso, estariam a negar um julgamento justo a Guzmán.

Uma vez que o governo vai mandar-me para uma prisão onde o meu nome nunca mais vai ser ouvido novamente, aproveito esta oportunidade para dizer: não houve justiça aqui”, acusou.

O narcotraficante aproveitou para denunciar às más condições das prisões norte-americanas e revelou que terá sofrido “tortura psicológica, emocional e mental” enquanto esteve detido. Descreveu-se, aliás, como uma vítima das “condições mais desumanas” que presenciou ao longo da sua vida. “Para dormir, tive de usar tampões feitos de papel higiénico nos ouvidos. Foi uma falta de respeito e de dignidade humana”.

A sentença foi lida no tribunal em Nova Iorque e já era esperado que o destino de Guzmán tivesse este desfecho, uma vez que no dia em que foi considerado culpado, um comunicado publicado no site do departamento de Justiça do governo norte-americano referia que ‘El Chapo’ enfrentaria uma pena obrigatória de prisão perpétua sem possibilidade de sair em liberdade condicional.

‘El Chapo’ já esteve preso em prisões de alta segurança no México por duas vezes, mas nas duas conseguiu fugir, tanto com a ajuda de autoridades que foram subornadas como com o auxílio dos membros do seu cartel. O narcotraficante foi capturado em janeiro de 2016, na sequência de um mandado de captura internacional. Foi extraditado, um ano mais tarde, para ser julgado nos Estados Unidos. Nessa altura, os procuradores norte-americanos comprometeram-se a não sentenciar ‘El Chapo’ à pena de morte, uma condição exigida pelo México para que o narcotraficante pudesse ser extraditado.

Agora, o mexicano deverá ficar naquela que é considerada a prisão mais segura dos Estados Unidos e onde estão alguns dos criminosos mais perigosos do país: a United States Penitenciary Administrative Maximum Facility, também conhecida como “ADX Florence”, no Colorado.

Segundo a acusação do tribunal Federal de Brooklyn, Guzmán esteve envolvido em crimes de tráfico de droga, violência de cartel, lavagem de dinheiro, corrupção e posse de armas, mas tinha também criado uma sofisticada rede de comunicação para não ser apanhado pelas autoridades. O seu julgamento começou no dia 5 de novembro do ano passado e, quatro dias por semana, Nova Iorque foi-se habituando a um aparato de segurança fora do normal sempre que o narcotraficante saía da prisão para a sala de audiências. Nas várias sessões, as testemunhas foram relatando as estratégias, caminhos e segredos do negócio do tráfico de droga entre o México e os Estados Unidos que liderou durante anos.

Em comunicado, o departamento da Justiça norte-americana refere que “o julgamento revelou os métodos que Guzmán Loera e a sua organização utilizavam para transportar os carregamentos de droga para os Estados Unidos, incluindo barcos de pesca, submarinos, aviões, comboios com compartimentos secretos e túneis subterrâneos transnacionais”.

De acordo com a acusação, existe uma “montanha de provas” contra o ex-líder do cartel de Sinaloa. Os 12 jurados deste caso — sobre os quais, por razões de segurança, nada se sabe, além de serem oito mulheres e quatro homens — percorreram uma lista com 53 linhas na qual, para cada um dos casos descritos pela acusação, foi preenchida uma das seguintes opções: “Culpado”, “Inocente”, “Provado”, “Não Provado”, “Sim” ou “Não”. Depois começou a deliberação, que terminou com o veredito de “Culpado”. Agora foi anunciada a sentença, com a medida da pena.

“O dia do acerto de contas com Guzmán Loera finalmente chegou. Nunca mais ele vai envenenar o nosso país, ou ganhar milhões enquanto vidas de inocentes são perdidas. Não podemos desfazer a violência, a miséria e a devastação infligidas a inúmeros indivíduos e comunidades como resultado da venda de toneladas de drogas ilegais da sua organização há mais de duas décadas, mas podemos garantir que ele vai passar cada minuto na prisão ”, afirmou um procurador norte-americano no comunicado enviado esta quarta-feira.

Joaquin Guzmán, de 62 anos, foi acusado de ter dirigido, entre 1989 e 2014, o cartel de Sinaloa, que enviou para os Estados Unidos mais de 154 toneladas de cocaína e grandes quantidades de heroína, metanfetaminas e marijuana, avaliadas em mais de 14 mil milhões de dólares (cerca de 12 mil milhões de euros).