No dia 18 de dezembro de 2018, a cúpula do Manchester United decidiu colocar um ponto final na especulação e despedir José Mourinho, cuja manutenção em Old Trafford estava ameaçada, questionada e condenada quase desde o início da temporada. A ideia de que o treinador português iria tirar um tempo para descansar, reformular ideias e projetos e adiar o regresso ao trabalho para a época seguinte, aquela que está prestes a começar, parecia um dado adquirido: na altura, há sete meses, a perspetiva geral era a de que Mourinho, neste verão, estaria a preparar o próximo ano com um qualquer clube das principais ligas europeias.

Em janeiro, no seguimento da saída de Rui Vitória do comando técnico do Benfica — e depois de uma porta deixada quase escancarada durante uma entrevista de Luís Filipe Vieira a Cristina Ferreira –, o técnico foi associado aos encarnados e dado como a opção predileta da cúpula do clube da Luz para o futuro. O negócio não aconteceu, Bruno Lage foi a solução de recurso que se tornou a chave do sucesso e Mourinho continuou sem clube. De lá para cá, uma proposta milionária proveniente da China colocou a imprensa internacional a apontar a liga chinesa como o próximo passo do treinador português: mas nada se materializou. Sete meses depois de ser despedido do Manchester United, Mourinho continua sem treinar e está de férias em Setúbal no final de julho pela primeira vez em 20 anos. Mas garante que está pronto para regressar às grandes decisões.

Numa entrevista à Sky Sports, que se deslocou à terra natal do treinador para passar um dia com ele, Mourinho explicou que não está “feliz o suficiente” para poder aproveitar o tempo livre que tem tido e confessa que tem “saudades do futebol”. “Esta é basicamente a primeira vez que tenho tempo para pensar, a primeira vez que estou em Setúbal no final de julho ou no início de agosto em mais de 20 anos. Tenho tempo para pensar, para repensar, para analisar e o que sinto é mesmo que o Zé está cheio de fogo! Os meus amigos dizem-me para aproveitar o meu tempo, aproveitar julho, aproveitar agosto, aproveitar o que nunca tinha tido. Mas, honestamente, não consigo. Não estou feliz o suficiente para aproveitar. Tenho saudades do meu futebol, tenho o fogo, tenho um compromisso comigo mesmo, com as pessoas que gostam de mim, com tantos fãs que tenho à volta do mundo, tantas pessoas que inspirei”, atira o treinador de 56 anos.

Mourinho explica ainda o porquê de ter recusado a possibilidade de um regresso a Portugal e ao Benfica e ainda uma ida para a China e garante que “o mais difícil” é mesmo “dizer não”. “Eu tinha de trabalhar porque dentro de mim tenho sempre esse impulso de querer trabalhar. Se tenho uma oportunidade, quero dizer que sim. Dizer não é muito, muito, muito, muito difícil. Disse que não porque não era o nível de desafio que quero. Com todo o respeito pelas possibilidades que tive e pelos clubes envolvidos, quero ter o direito de escolher quem é ‘Mourinhista’, quem é fã. Os ‘Mourinhistas’ querem-me onde eu pertenço, por isso, por agora, não é uma questão de aceitar todas as ofertas. Tenho de ser paciente e esperar pela oportunidade certa e a oportunidade certa será aquela que é do mesmo tamanho e do mesmo nível que eu sou enquanto treinador”, afirma o técnico, cujo último título conquistado remonta já a 2017, uma Liga Europa com o Manchester United, clarificando que o objetivo é treinar novamente uma equipa das cinco principais ligas europeias.

“O Zé tem de ser o Zé e o Zé até ao último dia, mas eu ainda não olho para o último dia porque o meu próximo passo vai ser como um começo! Não sinto que seja apenas mais um ano em acumulação com todos os anos que já trabalhei, todos os títulos que ganhei. Isso é história, isso é o museu! O meu futuro vai começar no meu próximo passo”, acrescenta Mourinho, que volta a não descartar a possibilidade de treinar uma seleção nacional nos próximos anos — mesmo que não seja a portuguesa. “Pode acontecer [treinar uma seleção]. Mas uma seleção nacional? Um jogo por mês? Muito escritório. Sem relvado. Sem jogos. Esperar dois anos por um Europeu, esperar dois anos por um Mundial…não. Ainda não! Mas um dia, talvez, Portugal ou outra equipa qualquer. Se for Portugal, ficaria muito orgulhoso”, sentencia o treinador. Por agora, o futuro passa por um clube. E um que seja “do mesmo tamanho e do mesmo nível” de José Mourinho.