“Somente Alá merece ser adorado. E que a paz e as bênçãos estejam com o nosso profeta Maomé.” Um jihadista de joelhos, à sombra de uma árvore, tenta iniciar assim a sua declaração de lealdade ao Estado Islâmico (EI), quando é repetidamente interrompido pelo chilrear de um pássaro. O barulho distrai-o e faz com que, apesar da importância do tema, esqueça as palavras que tem de enunciar. Acaba mesmo por tirar uma folha do bolso da camisa, para ler o texto correto. “Tem calma”, diz-lhe um dos presentes.

Podia ser a cena de um filme ou até de um sketch humorístico mas trata-se de um vídeo verdadeiro de membros do Estado Islâmico — o jihadista em causa, ao que tudo indica, é Abu Muhammad al-Adeni. E a sua divulgação ganha particular relevância porque, segundo garante a investigadora de Oxford Elisabeth Kendall, foi a produtora da Al-Qaeda, a Hidayah Media Productions, que partilhou o vídeo. Intitulado “A realidade de Hollywood do grupo de Al-Baghdadi”, tem como objetivo descredibilizar o grupo terrorista rival.

Kendall partilhou o vídeo na sua conta de Twitter e explicou os pormenores: a gravação original, que data de setembro de 2017, terá provavelmente sido encontrada pela Al-Qaeda este verão, quando o grupo se apropriou do campo do EI em Qayfa, no Iémen. “Uma das coisas mais interessantes para mim nisto é o facto de a Al-Qaeda ser capaz de fazer uma contra-narrativa melhor do que nós, ao utilizar o humor e o gozo de uma forma muito inteligente”, declarou a investigadora de Árabe ao Independent.

O caso ganha particular relevância tendo em conta que os dois grupos estão numa “disputa mortal por território, recrutas e influência no Iémen”, relembra o The Telegraph. Ambas as organizações terroristas estão no país, atualmente mergulhado numa guerra civil que já matou milhares, tentando aproveitar o caos provocado pelo conflito entre os rebeldes houthis e a Arábia Saudita.

A atividade de Al-Qaeda e EI na região é evidente: só no início deste mês, a Al-Qaeda atacou um campo de uma força militar treinada pelos Emirados Árabes Unidos (aliados da Arábia Saudita), matando 20 pessoas; no mesmo dia, o EI reivindicou um ataque a uma esquadra da polícia em Aden que matou 11 pessoas.

Na mesma altura, o Departamento de Estado norte-americano alertou para o renascimento da Al-Qaeda, ameaçada como principal força terrorista islâmica pelo crescimento do EI nos últimos anos. “A Al-Qaeda tem sido estratégica e paciente ao longo destes anos”, resumiu o coordenador de contraterrorismo da organização, Nathan Sales, de acordo com a Bloomberg. “Deixou que o EI absorvesse o impacto dos esforços mundiais de contraterrorismo enquanto se reconstituía pacientemente. Aquilo que vemos hoje em dia é uma Al-Qaeda forte como sempre foi.” De tal forma que utiliza todas as armas disponíveis, inclusive o humor, para atacar o grupo rival.