Uma equipa de investigadores do Centro de Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) tem vindo, ao longo dos últimos quatro anos, a participar numa expedição internacional no Oceano Ártico que acompanha as alterações nos diferentes ecossistemas.

Foi em 2016 que a equipa de investigação do CIIMAR, centro da Universidade do Porto sediado em Matosinhos, participou, pela primeira vez, no programa internacional de monitorização do Ártico liderado pelo Instituto Polar Norueguês (NPI) – o MOSJ — Environmental Monitoring of Svalbard and Jan Mayen — que decorre há cerca de 20 anos.

Desde então, várias têm sido as “alterações” observadas pela equipa de investigadores. Se algumas se têm vindo a tornar percetíveis a “olho nu”, como o degelo dos glaciares ou o aumento das temperaturas, outras “nem tanto”, como é o caso das várias comunidades biológicas que coabitam nas profundezas do oceano.

“Temos vindo a assistir a uma perda do glaciar [Kongsfjorden] anual, que é visível. Quando estamos a amostrar, estão sempre a cair blocos de gelo e estamos sempre a assistir a mini ‘tsunamis’. Isto não se vai recuperar”, afirmou, em entrevista à Lusa, Catarina Magalhães, a líder da equipa do CIIMAR no âmbito deste programa.

Há cerca de duas semanas, a equipa da área da microbiologia do CIIMAR embarcou na expedição que, à semelhança das edições anteriores do programa, decorre na época de verão e permanece na zona marginal do gelo do Ártico e da área de Kongsfjorden.

“Este programa decorre todos os anos em estações de amostragem fixas [13 no seu total], para que seja possível criar uma base de dados sólida a uma escala temporal alargada”, explicou a investigadora, adiantando que só desta forma será possível descrever e estudar as “alterações” analisadas.

Além do degelo dos glaciares e da diminuição da placa de gelo do Ártico, os investigadores têm também vindo a observar uma “redistribuição das espécies”, que, inevitavelmente se verifica nos diferentes níveis tróficos da cadeia alimentar.

“Espécies que existiam em determinada altura deixaram de existir e começam a existir novas espécies”, afirmou a investigadora, acrescentando, contudo, ainda não serem “bem conhecidos” os processos que motivaram esta redistribuição.

“Os glaciares desta zona da Gronelândia têm vindo a derreter, portanto, está a haver uma entrada bastante acentuada de água doce no Oceano Ártico. É natural que a existir uma alteração da salinidade e da temperatura, algumas comunidades não consigam viver nestas condições”, frisou.

No entanto, e apesar do “aceleramento das alterações climáticas”, nem Catarina Magalhães, nem os restantes investigadores conseguem, para já, desvendar as consequências desta reorganização biológica.

À Lusa, a responsável explicou ainda que os dados obtidos e recolhidos nas diferentes expedições, nomeadamente a sequenciação do genoma das comunidades microbianas (tarefa desenvolvida pelo CIIMAR), estão disponíveis em arquivos internacionais e que podem ser consultados por outros grupos científicos. “Há questões científicas que não se colocam agora, mas que podem surgir daqui a alguns anos, e estes dados podem ajudar a responder a essas questões, daí a sua importância”, salientou.

Catarina Magalhães admitiu também que o CIIMAR tenciona continuar a participar nestas expedições e a contribuir para a criação de uma base de dados de informação biológica a uma escala temporal alargada.