Não há um gene único que determine se uma pessoa é homossexual, mas essa orientação pode ser ligeiramente influenciada por alguns traços genéticos espalhados ao longo da cadeia de ADN. É esta a sugestão de um estudo publicado esta quinta-feira na Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Após estudar a informação genética de 470 mil pessoas, os cientistas concluíram que o “gene gay” não existe, mas que “o comportamento sexual entre pessoas do mesmo sexo é influenciado por uma complexa mistura de influências genéticas e ambientais”.

Já se sabia que a preferência sexual das pessoas é influenciada pelas suas características genéticas, mas não se sabia que genes eram importantes. O que este estudo vem acrescentar é que há cinco traços genéticos “mais significativamente” associados à homossexualidade. Há ainda milhares de outros que também parecem estar envolvidos na expressão dessa orientação sexual, muitos deles relacionados com “as vias biológicas para as hormonas sexuais e para o olfato”. Mas não há um gene que, por si só, determine a homossexualidade.

Segundo Andrea Gana, autora principal do estudo, esta identificação “fornece uma melhor perceção dos fundamentos biológicos do comportamento homossexual”.

Para entender porquê é preciso compreender a estrutura do ADN, que é um conjunto de moléculas com as instruções genéticas que fazem de nós magros ou gordos, loiros ou morenos, entre outras características. Essa cadeia de ADN é feita de quatro tipos de moléculas: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina (C). A adenina liga-se sempre com a timina e a guanina liga-se sempre com a citosina. No total, há três mil milhões destas moléculas na cadeia de ADN.

O que este estudo sugere é que há cinco locais do genoma humano em que uma alteração numa dessas moléculas parece influenciar ligeiramente a possibilidade de alguém ter uma predisposição natural para desenvolver uma afinidade sexual com alguém do mesmo sexo — mesmo que não seja homossexual.

Até 25% dos fatores que influenciam a preferência sexual vêm da genética

No entanto, essas descobertas “também enfatizam a importância de resistir a conclusões simplistas”, alerta a cientista. É que “as variantes genéticas de uma pessoa não preveem significativamente se elas tenderão a envolver-se num comportamento sexual com pessoas do mesmo sexo” e “têm apenas pequenos efeitos” que “estão longe de serem preditivos”, explicam os cientistas. Andrea Gana estima que 8% a 25% dos fatores que influenciam a preferência sexual surgem de contribuições genéticas.

Neste estudo só foi encontrado 1% desses fatores. Na verdade, os efeitos deles são tão ligeiros que alguém com essas mesmas variantes genéticas pode nunca sentir-se atraído por alguém do mesmo sexo. Ou seja, mesmo que se se sequenciasse a informação genética de um bebé e se encontrassem essas variantes, isso “nunca pode ser usado para prever as preferências sexuais” dele quando crescer. Mais: nem todos os homossexuais exibem esses traços genéticas. Ou seja, a orientação sexual pode ser influenciada pelos genes, mas não determinada por eles.

Segundo Andrea Gana, é preciso saber mais sobre o funcionamento do ADN para chegar a conclusões mais definitivas: “Existe uma longa história de utilização indevida de resultados genéticos para fins sociais”, lamenta ela no relatório científico. Aliás, a cientista sublinha no documento que, mesmo sugerindo que a homossexualidade pode estar sugerida ao longo da informação genética dos indivíduos, “usar estes resultados para uma previsão, intervenção ou uma suposta ‘cura’ é completamente e incondicionalmente impossível”.

É assim, em primeiro lugar, por motivos éticos. Até agora, a edição genética tem sido desenvolvida apenas para intervir nos locais da cadeia de ADN que estão danificados, o que resulta em doenças hereditárias como a fibrose cística ou a miocardiopatia hipertrófica. Ora, a homossexualidade não é uma doença nem uma característica que seja geneticamente transmissível de geração em geração. Portanto, seria eticamente condenável alterá-la nessa condição.

De resto, mesmo que a tecnologia de edição genética possa, em teoria, mudar outras características dos indivíduos, os investigadores torcem o nariz a essa ideia. É que este tipo de tecnologias pode permitir, por exemplo, modificar pessoas como se estivéssemos perante um catálogo. Mais: mesmo ignorando as questões éticas, os cientistas ainda não sabem por completo como funciona o genoma humano, nem como se regula, para entrar por esse caminho. Neste momento, não se consegue sequer fazer alterações a doenças determinadas por mais do que um gene.

Além disso, não seria possível alterar a orientação sexual de uma pessoa da mesma forma que se alteraria a cor dos olhos dela ou o comprimento do cabelo. A atração sexual por pessoas do mesmo sexo não é apenas biologicamente influenciada: é uma característica social e comportamental. Mesmo olhando exclusivamente para dentro dos genes, “embora tenham sido encontrados locais genéticos específicos associados ao comportamento entre pessoas do mesmo sexo, os efeitos são tão pequenos que as características genéticas não podem ser usadas com certeza para prever o comportamento homossexual de um indivíduo”.

As reações da comunidade científica

Este não é o primeiro estudo sobre a influência genética na sexualidade assinado por Andrea Gana, investigadora do Broad Institute, um centro de investigações biomédicas do Massachusetts Institute of Technology (MIT), da Universidade de Harvard e de cinco hospitais universitários também de Harvard. No ano passado, a cientista também já tinha publicado um estudo que revelava quatro variantes nos genes números sete, 11, 12 e 15 que estavam “fortemente associadas” com um “comportamento não heterossexual”.

Agora, após ter estudado os resultados mais exaustivamente, Andrea Gana encontrou mais um desses traços. E concluiu que não há nenhum gene entre os 23 pares de cromossomas humanos que, sozinho, determine se alguém é ou não homossexual.

De resto, a busca por sinais genéticos que justifiquem a sexualidade das pessoas tem dividido a comunidade científica desde 1993, quando o cientista Dean Hamer sugeriu que a homossexualidade estava prevista no cromossoma X.

Em comentário ao estudo, Traude Beilharz, investigadora principal no Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade de Monash, concorda que “a pesquisa genómica nos ajuda a entender como a informação genética se relaciona com o bem-estar e a doença”, mas que “além da variação da sequência de DNA relatada aqui, cada genoma humano é decorado com uma camada de variação epigenética que reflete as nossas exposições ambientais“.

A epigenética estuda as mudanças no funcionamento de um gene que não são causadas por alterações na sequência de DNA mas sim por influência externa — como do ambiente social em que se vive ou das características climáticas, por exemplo. “Ao contrário do DNA, que é estável e quase idêntico em cada célula do nosso corpo, esse revestimento epigenético pode diferir entre os tipos de células e mudar ao longo do tempo. A complexidade que isso traz significa que estamos muito longe de entender como a variação genómica influencia o comportamento“, conclui.

Greg Neely, professor associado do Centro Charles Perkins da Universidade de Sidney, sublinha que “este estudo mostra que a preferência sexual não é uma dimensão única e a atração pelo mesmo sexo não está inversamente relacionada à atração pelo sexo oposto, defendendo uma compreensão social mais subtil da orientação sexual que também inclui bissexualidade e assexualidade”.

Mas aponta uma crítica aos investigadores: “O estudo baseia-se principalmente em dados de pessoas com entre 40 e 70 anos de idade no Reino Unido. A preferência pelo mesmo sexo pode estar sub-representada por causa da pressão social que se vivia antigamente”. Isso é importante, tendo em conta que os próprios autores do estudo indicam que o comportamento sexual também depende do ambiente social em que os indivíduos estão envolvidos.