O ministro das Finanças tem confiança suficiente no “trabalho muito rigoroso” e “cheio de sucesso” que foi feito para poder dizer que Portugal está, neste momento, “bastante mais preparado do que estava em 2008” para uma eventual crise económica e que “a banca europeia e a banca portuguesa estão mais preparadas do que a banca de outros países e de outras regiões do mundo”. Numa entrevista dada esta sexta-feira à RTP3, Mário Centeno não quis “exorbitar o otimismo” e avisa: “Temos de ser cautelosos”.

Não quero exorbitar o otimismo: quero que tenhamos confiança no trajeto que fizemos, mas que reconheçamos as dificuldades que a qualquer momento se colocam a uma economia muito aberta como a portuguesa”, pediu Mário Centeno numa alusão aos receios de uma recessão económica por influência da Alemanha.

O presidente do Eurogrupo reconhece, contudo, que “temos de ser cautelosos”. “Não podemos correr o risco de voltar a algo que, felizmente e pela primeira vez em 2015 não tivemos: só neste século, não houve uma legislatura que se iniciou em que não houve nenhum aumento de impostos depois de ter anunciado precisamente o contrário”, apontou, acrescentando:

As descidas de impostos estavam quase na sua totalidade previstas no programa do PS. Pelo contrário, não houve subidas de impostos em termos líquidos“.

Mário Centeno admitiu, “mesmo sendo ministro das Finanças”, que Portugal tem uma carga fiscal “que é elevada e tem de ser reduzida”. “Mas não pode acontecer essa redução à custa das gerações futuras”, defendeu.

“Uma das razões para estar confiante em Portugal face ao futuro é que nós [o Governo] não estamos a impor nenhum custo adicional com o Orçamento de Estado de 2019 e com os orçamentos futuros, porque temos um orçamento equilibrado. E os impostos de hoje servem para pagar as despesas de hoje”, apontou.

O ministro disse ainda que vai manter as metas do défice previstas: “As metas e os números que temos observado ao longo de 2019 são compatíveis com essas metas. Estou confiante que as metas deste ano vão ser cumpridas”.

E o futuro? Costa é que decide, mas Centeno está sem “apetite”

“É uma decisão que está por tomar”. Foi assim que Mário Centeno respondeu quando foi questionado pela primeira vez sobre o seu futuro. Questionado então se tinha “apetite para o fazer”, o ministro respondeu: “Se usar a expressão apetite, facilita a minha resposta” — confirmando, por insistência da jornalista, que é negativa.

Contudo, Centeno fez questão de clarificar logo de seguida “que não se é ministro por apetite”. Questionado novamente, Mário Centeno foi mais enigmático:

Nessa altura veremos qual é o resultado eleitoral, qual é a decisão do senhor primeiro-ministro e se o apetite chega ou não chega”

Confrontado com as declarações da líder do Bloco de Esquerda, que sugeriu esta quinta-feira em entrevista à TVI que o défice real é bem maior do que os números históricos apresentados pelo Governo, Mário Centeno afirmou não fazer “a menor ideia a que é que Catarina Martins se refere”. “Mas não faço mesmo”, insistiu, acrescentando: “Trabalhámos [Mário Centeno e Catarina Martins] muito de perto na legislatura, na preparação dos grandes momentos orçamentais. E máscaras e coisas irreais posso garantir que não é algo que exista nas contas portuguesas“.

“As contas portuguesas trouxeram credibilidade à política economia e orçamental no exterior. Trouxeram a confiança ao portugueses, aos trabalhadores e às empresas”, concluiu.

Catarina Martins: “O Bloco de Esquerda quer contas certas”

O ministro das Finanças disse que “o investimento em Portugal hoje é quase o dobro do que se atingiu durante a crise” e adiantou que nos próximos três ou quatro anos “investimento público vai crescer sempre acima de 10% ou 15%“, falando mesmo de uma “quase duplicação do investimento publico”. Mário Centeno adiantou ainda que está previsto na próxima legislatura um “aumento dos salários da Função Pública em 2020” que poderá custar aos cofres públicos mais de “500 milhões de euros.”

Mário Centeno, que também é presidente do Eurogrupo — grupo informal que reúne os ministros das Finanças da Zona Euro —, sabe que a saída do Reino Unido da União Europeia é, por enquanto, uma preocupação e uma pedra no sapato face às “incertezas” que gera. “O Brexit é um tema que nos deve preocupar. Estamos todos, quer Portugal quer a Europa, a trabalhar para que a solução que se vier a encontrar seja aquela que minimize os danos que este momento de incertezas já se está a colocar”, garantiu o ministro das Finanças.