Enviados especiais à Madeira

“Eles querem um governo que seja contra as empresas, contra a iniciativa privada, um governo que quer acabar com a zona franca da Madei…” Pum! Silêncio. O olhar de todos quantos estavam a assistir ao comício do PSD-Madeira esta noite, no centro de Loreto, na Calheta, levantou-se e fixou-se automaticamente no palco. O antes acelerado Miguel Albuquerque estava agora parado, a olhar confuso para o microfone que ainda segurava na mão direita. A banda que estava no palco para assegurar as despesas musicais do comício tentou preencher o silêncio de imediato mas os instrumentos, com exceção da bateria, não respondiam. O som tinha rebentado a meio da intervenção do presidente do governo regional.

Rapidamente, os nervosos membros da JSD iam cantando hinos da campanha e procuravam um dos seus megafones para não deixar que o silêncio se prolongasse por muito mais tempo. Quando o encontraram, estenderam-no em direção ao palco, mas Miguel Albuquerque já estava a dar corpo ao improviso, gritando o resto da frase. Sem sucesso. Ninguém o ouvia. Assim que vislumbrou o megafone pegou nele, encostou-o à boca e tentou aligeirar o ambiente. “É isto que acontece se eles [socialistas, comunistas e bloquistas] forem para o governo regional: acaba-se de vez a bateria”. As cerca de cem pessoas presentes aplaudiam e riam-se. “Agora tenho de estar aqui de megafone…”, lamentou. Por esta altura já o técnico de som fazia piscinas desenfreado entre a mesa e a parte lateral do palco para tentar solucionar o problema.

Depois do imprevisto, Miguel Albuquerque manteve o tom e o conteúdo da intervenção que por aquela altura já levava mais de cinco minutos. “Não podemos acreditar nos embustes nem nas aldrabices dos socialistas”, disse ao belo estilo jardinista. “Aquele cavalheiro sorridente ao serviço de António Costa já disse que se pode vir entender com os comunistas e com os comunistas radicais, mesmo perdendo”, alertava. A estratégia é a mesma que se usa pelas paragens socialistas: diabolizar o adversário para justificar o apelo ao voto, como se de uma inevitabilidade se tratasse.

No dia em que uma sondagem da Universidade Católica para a RTP coloca o PSD a vencer, mas sem a maioria absoluta de sempre, deixando ainda no ar a hipótese de haver uma maioria de esquerda no parlamento regional, Miguel Albuquerque optou por passar uma mensagem de confiança, embora cautelosa: “Ao PSD não basta ganhar. Precisamos de ter uma votação expressiva“, pediu.

A tática do atual Presidente do governo regional era a de colar a imagem de medo do desconhecido ao PS e às forças que estão disponíveis para o apoiar no Governo. “Estou aqui, de megafone na mão, numa espécie de homenagem que lhes faço, a eles que querem andar com o país para trás e que querem ser como a Venezuela”, ironizou, arrancando palmas e até um uivo de uma sexagenária que aplaudia a uma velocidade invejável.

Depois de atacar o PS e o “cavalheiro sorridente”, Paulo Cafôfo, tinha chegado a altura de dizer o que é que o PSD tem que o PS não pode oferecer. “É preciso lembrar como é que a Madeira era antes de ter autonomia. Para vir do Funchal à Calheta demorava quatro horas e isto era se não rebentasse um pneu, porque não havia condições nos transportes. Aí demorava umas sete ou oito horas”, recordou. “Quem é que se lembra de quando havia 55% de analfabetos? Não queremos andar para trás”, afirmou, falando para o segmento mais velho da plateia que a espaços ia dizendo “é verdade”.

Já na reta final, novas tiradas para animar os apoiantes. “Não acreditem na banha da cobra dos socialistas. Eles nem uma sandes de queijo sabem fazer: enganam-se na receita”.

Terminado o discurso, apareceu finalmente junto ao palco um transpirado técnico de som, com o microfone funcional. O som tinha voltado, mas o comício estava terminado. Bandeiras ao alto, braços estendidos a acabar no tradicional “v” social-democrata, enquanto a banda ia tocando a música que se tornou popular nos anos de campanha jardinista: “Quem é que haverá/Quem é que não acha/Que o PSD/Põe a Madeira em marcha?“, cantava-se. A música é a mesma, mas os tempos de Jardim já lá vão e, a julgar pelas sondagens, nunca tanta gente achou o contrário. Pela primeira vez em 43 anos, o PSD pode ficar sem maioria absoluta na ilha e não está completamente afastado o cenário de perder o governo regional para uma maioria de esquerda. A dúvida pairará até às eleições.