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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Sebastião Bugalho: "A única ideia que Centeno tem para o País é ele próprio"

Sebastião Bugalho acredita que um entendimento de fundo entre PS e PSD seria o "sonho de Ventura". Diz que Centeno "não tem uma única ideia". E que Moedas tem "pergaminhos" para responder a Passos.

O porta-voz do PSD acredita que um entendimento de médio-longo prazo entre PS e PSD — como defenderam ex-ministros e também Francisco Assis — seria o “sonho de André Ventura”. Numa edição especial do programa Vichyssoise no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Sebastião Bugalho considerou esses notáveis “bem-intencionados”, mas adverte que o tempo político não pode ser olhado como antes e que essa opção só ajudaria o Chega.

Sobre as críticas de Mário Centeno à política financeira do Governo, que equiparou ao Executivo de José Sócrates, Bugalho diz que o exercício já foi desementido ponto por ponto. Acusa ainda o antigo ministro das Finanças de “não ter uma única ideia para o País.” Ou pior: a “única ideia é ele próprio“.

O vice-presidente e porta-voz do PSD diz que a honestidade de Passos Coelho o leva a concluir que não tem ambições de governar o País. Legitima, no entanto, o tom das críticas do presidente da câmara de Lisboa ao antigo primeiro-ministro: “Carlos Moedas tem pergaminhos para responder e para usar os termos que entender com Pedro Passos Coelho.”

A entrevista a Sebastião Bugalho, que aqui antecipamos, será emitida amanhã no programa Vichyssoise, da Rádio Observador, que como habitual vai para o ar às quintas-feiras.

Entendimento PS-PSD. “Uma ambiência de Bloco Central seria o sonho de André Ventura”

Defendeu que, com o compromisso constitucional entre PS e PSD, também devia existir uma garantia do lado dos socialistas enquanto durasse esse processo. Ou seja, o Orçamento do próximo ano também estaria incluído uma vez que o processo de revisão constitucional ainda decorria. O facto do Presidente da República ter uma leitura de que o chumbo do Orçamento não significa automaticamente uma dissolução não faz cair por terra esse argumento?
Não creio que os dois argumentos se auto anulem ou entrem em confronto. Quando lancei essa questão, só para ficar claro, não falei nem em orçamentos nem em legislaturas. O único ponto era, sendo essa a exigência final do PS, porque era a que faltava o presidente do PSD corresponder, o PS exigiu ao PSD um compromisso constitucional para que a revisão não se fizesse apenas com o Chega ou que votasse favoravelmente um projeto que ultrapassasse os limites materiais da Constituição. Isso foi o que o PS nos pediu. A minha pergunta era muito simples: se acedermos, e acedemos a esse compromisso, se é para levar a sério, se o PS ao nos pedir um compromisso constitucional está disponível para viabilizar o compromisso que ele próprio pediu.

E parece ter alguma hipótese de sucesso?
Numa entrevista ao Observador, um elemento do Secretariado Nacional do PS, próximo de José Luíz Carneiro, que é André Moz Caldas,  não pareceu que a resposta do PS fosse exatamente de rejeição. Percebi a resposta do PS. É entendível o que dizem, que é, não passamos um cheque em branco. Mas, a AD não pediu um, vamos é comportarnos de forma leal enquanto decorrer a revisão constitucional, que é o que o PS nos pediu e que obviamente também pedimos. Não fiquei desapontado com a resposta do PS. Em relação ao que disse o Presidente da República no discurso do 5 de Outubro, parece-me que é o raciocínio natural de um Presidente que não é imediatista e quer guardar para si a máxima margem de manobra possível para gerir qualquer eventual crise política, evitando ao máximo essa ocasião.

O Presidente da República é um aliado do Governo no objetivo de cumprir a legislatura até ao fim?
O PSD não olha para a função presidencial na expectativa de aliados nem no receio de adversários. Conhecendo a persona pública, até já antiga, do Presidente da República só é aliado de uma coisa neste momento: da estabilidade, e nesse sentido coincidimos nesse interesse.

"O PSD não olha para a função presidencial na expectativa de aliados nem no receio de adversários. Conhecendo a persona pública, até já antiga, do Presidente da República só é aliado de uma coisa neste momento: da estabilidade, e nesse sentido coincidimos nesse interesse."

Houve um manifesto de empresários e ex-ministros que pediam acordos de médio e longo prazo entre PS e PSD que fossem até para lá da duração das legislaturas. No Sofá do Parlamento, da Rádio Observador, Francisco Assis disse que “PS e PSD têm a obrigação histórica de promover entendimentos de fundo”. O PSD estaria disponível para um entendimento de fundo com o PS em troca de uma estabilidade até ao fim da legislatura
Entendo as boas intenções dos proponentes desse modelo e tenho imenso respeito pelo Francisco Assis, mas julgo que quando queremos projetar um ciclo político com estabilidade, nesta legislatura ou na próxima, temos de olhar para o sistema político como ele é, não como foi. Parece-me que a maioria dos bem-intencionados proponentes de um acordo de regime entre o PSD e o PS ainda encaram o sistema político como ele era. Infelizmente ou felizmente os sistemas políticos não são algo que nós possamos rebobinar como antigamente os VHSs e muitas vezes quando tentamos travar a mudança do sistema político ou até reverter à força as mudanças que estão a ocorrer, corremos o risco de as acelerar.

E esse é um receio porque tornava o Chega a única alternativa e ainda iria ajudar o partido a crescer, é isso?
Esse é um dos receios que tenho, mas como digo, com respeito pelos proponentes, porque acho que a intenção é positiva, que é a estabilidade, e nesse sentido coincidimos.

E isso justifica o risco de ir planando entre a direita e a esquerda, como diz Luís Montenegro?
Não, porque julgo que o Governo é mais parecido com um porta-aviões do que com um parapente. Mas, sem querer subscrever a alegoria, não temos uma estratégia de não ter um parceiro preferencial numa ideia de não dependermos de ninguém para fortalecermos o outro. É assim desde o início dos governos de Luís Montenegro. Não é uma questão de dissimulação, não é uma questão tática, de isto dá mais jeito com este, isto dá mais jeito com aquele, não é por isso que temos essa opção. O PSD está convencido, e até agora ainda não me cruzei com nenhum dado que corrija isso, que esta é a forma mais responsável de preservar o sistema político. Se houvesse uma ambiência de bloco central, seria o sonho de André Ventura, porque faria campanha contra todo o sistema aliado em conjunto, como aliás tenta fazer mesmo quando não estamos aliados. André Ventura já faz essa campanha sem essa ocorrência, imagina se ocorresse de facto. O comportamento mais responsável diante de um sistema político que está obviamente a mudar, é olhar para a mudança de frente e projetar um horizonte de estabilidade onde seja possível reformar, tendo pontos com todos para não depender de nenhum e identifico-me integralmente com essa estratégia.

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Teme que o Chega e o PS, na especialidade do Orçamento do Estado, acabem por desvirtuar o documento e colocar em causa o rigor das contas públicas?
Temer seria um termo forte. Confiamos nas palavras de responsabilidade que até agora a direcção do PS foi transmitindo nesse aspecto.

Confia mais no PS do que no Chega.
Nesse caso não é uma questão de confiança, é de registo histórico e memória. Até agora a liderança de José Luís Carneiro, no que diz respeito a palavras de responsabilidade com impacto orçamental, cumpriram com o que se tinham comprometido previamente. Se o PS cumprir com a intenção, já verbalizada, de não apresentar propostas que desvirtuem as contas públicas e que tenham um impacto orçamental que pudesse afetar ou prejudicar o superávit que este Governo espera ter e que vai ter, parece-me que essa possibilidade já foi desmentida pelos próprios. Mas, é algo que esperamos que o PS cumpra.

"Até agora a liderança de José Luís Carneiro, no que diz respeito a palavras de responsabilidade com impacto orçamental, cumpriram com o que se tinham comprometido previamente"

“A única ideia Centeno tem para o País é ele próprio”

O antigo ministro das Finanças, Mário Centeno, publicou um artigo de opinião no jornal Público em que diz que Luís Montenegro está com as contas públicas descontroladas e até já superou os registos de José Sócrates. O diabo pode chegar com a AD no governo?
Vou medir as palavras, porque não tenho nada pessoal contra Mário Centeno e tenho lido as entrevistas, porque são essencialmente políticas e, sendo alguém que gosta de política, tenho alguma curiosidade. Mas, esse artigo já foi desmentido de ponta a ponta por economistas com a mesma preparação académica e a mesma carreira de sucesso que o próprio Mário Centeno. O facto de esconder os anos que não lhe convém que apareçam nesse artigo para sustentar a sua tese política de que, de forma quase cómica, as contas públicas de Luís Montenegro, que vai para o terceiro orçamento seguido com excedente, se assemelhariam de forma alguma às de José Sócrates, que foi secretário-geral do partido sobre o qual Mário Centeno foi ministro das Finanças. Reparem que os anos de 2010 e 2011 não estão presentes nesse artigo, anos de governação de José Sócrates, não os menciona, porquê? De 2020 a 2023, que foram anos obviamente de grande choque de despesa devido à pandemia, também não aparecem nesse artigo, porque era um governo do qual Mário Centeno fez parte. Parece-me um artigo politicamente habilidoso que merece ser denunciado. António Nogueira Leite praticamente polígrafa ponta a ponta esse artigo e recomendo que tomem nota disso, porque me parece que Mário Centeno assinou um artigo de opinião político, não uma tese ou um ensaio como economista que é.

Com ambições ou a posicionar-se?
É uma opção dele, mas deve ser julgado por isso e deve ser avaliado com base nessa opção.

Mas acha que tem uma ambição?
Tem de lhe perguntar. Já veio dizer que não. Convide-o para uma entrevista e pergunte-lhe. Mário Centeno parece-me um saudosista de um tempo que não existiu. Numa entrevista ao Jornal Negócios e à Antena 1, Mário Centeno dizia que ao contrário dos últimos 10 anos em que o crescimento foi feito com investimento e exportações, hoje em dia voltámos ao consumo. Bem, isto é extraordinário, porque Mário Centeno foi o autor do cenário macroeconómico, quando António Costa foi candidato a primeiro-ministro pela primeira vez, que defendia o consumo como motor da economia para essa campanha eleitoral. Podem ir ver essa conferência de imprensa em que elevava o consumo como um grande fator diferenciador do programa económico da altura de Passos Coelho e Paulo Portas. Acho extraordinário que o deixem dizer estas coisas sem contraditório. 2015 não foi assim há tanto tempo. Lendo o que Mário Centeno vem dizendo, não tem uma única ideia para o país, que é uma coisa extraordinária para alguém que foi governador do Banco de Portugal, ministro ou presidente do Eurogrupo.

Isso poderá significar que não ambiciona propriamente nenhum lugar. 
Mas não precisamos de querer lugares para ter ideias para o país. Os eleitores e os cidadãos também têm ideias para o país e não precisam de querer coisas. Podemos ser aposentados respeitáveis e dar o nosso contributo para o país. Não sou um crítico da autoestima, pelo contrário, pratico bastante, mas parece-me extraordinário que alguém que foi ministro das Finanças, Governador do Banco de Portugal e presidente do Eurogrupo, tenha tido ambições também no Banco Central Europeu e no FMI, aparentemente goradas, que a única ideia que tem para o país é ele próprio.

Deixa-me ir à questão ainda do custo de vida, que também foi tema aqui de debate no Parlamento Europeu. O Governo anunciou a descida de IRS e o bónus para os pensionistas. Não ficam a faltar medidas mais direcionadas para a população que não é abrangida?
A mim parece-me que, dentro daqueles que têm um salário mais reduzido e um rendimento menos favorecido em Portugal, que os 1300 milhões de alívios para combustíveis que o Governo já investiu em ajudas, que obviamente também englobam quem tem esse rendimento mais reduzido e tem que usar o automóvel. Depois, tanto o apoio à botija solidária como o apoio às IPSS foi reforçado da parte do Governo. Portanto, não se pode dizer que os mais favorecidos foram deixados sem nada. Isso não é verdade, se contabilizarmos os apoios.

Mas a questão da subsidiação direta fica excluída?
O complemento solidário para idosos também foi reforçado, mas deixa-me dizer uma coisa: há uma razão para o Governo não poder apoiar toda a gente de uma vez só e há uma razão para o Governo estar a fazer um esforço para equilibrar ao máximo a consciência social com a responsabilidade orçamental: é que não sabemos quando é que a crise vai acabar. Não sabemos quando é que vai acabar nem sequer se se vai agravar ou não contra a nossa vontade. Portanto, nesse sentido, eu confio, e acho que o Governo merece a confiança, da gestão deste equilíbrio, e obviamente que é um Governo que está focado em não deixar ninguém para trás. A consciência social é uma das marcas deste Governo. Em crise ou não em crise.

Podem vir aí mais medidas, então, mais para a frente?
O Governo já o assumiu. Mas essas medidas só serão possíveis se tivermos margem orçamental para isso. Por isso é que as contas certas, nomeadamente até ao final deste ano, são tão importantes. É para preservarmos essa margem, para virmos a ajudar quem mais precisa, caso a crise se agrave contra a nossa vontade.

"O Governo já assumiu [vir a tomar novas medidas sobre o custo de vida]. Mas essas medidas só serão possíveis se tivermos margem orçamental para isso"

Luís Montenegro disse no discurso que fez aqui no Parlamento Europeu que não queria fazer um concurso de pedinchice. Mas, ao mesmo tempo, também pediu que não houvesse um corte de fundos da coesão para não perder essa competitividade. Isto não é contraditório?
Está-me a perguntar, no fundo, se não é paradoxal nós estarmos disponíveis para a competitividade, portanto para um quadro mais moderno e virado para o futuro.

Ou querer mais fundos e dizer que não se está a pedir.
Aí a questão é que fundos é que nós queremos e como é que os queremos obter e que critérios é que defendemos para os fundos do próximo quadro. Essa é que é a questão interessante, fundamental, essa é que é, aliás, a grande divergência dentro deste Parlamento e dentro do Conselho. Mas eu percebo perfeitamente a sua questão. A sua questão é se não é paradoxal, assim, à primeira vista, o primeiro-ministro de Portugal estar a dizer que está disponível para os fundos virados para o futuro, que são concorrenciais, que são disputáveis entre Estados, empresas, regiões e municípios, e ao mesmo tempo tenta preservar a coesão. Não é paradoxal por uma razão simples: nós só conseguimos estabilidade política dentro dos Estados-membros e dentro da União Europeia para fazer essa transição para os quadros financeiros se conseguirmos fazer a transição gradualmente. Portanto, é necessário preservar paulatinamente a coesão, ao mesmo tempo que nos transformamos em Estados mais disponíveis e mais competitivos para os fundos competitivos.

"Em 2020, sem Trump na Casa Branca, sem guerra na Ucrânia ou conflito no Médio Oriente, o orçamento da União foi 1.13% do PIB Europeu. Em 2026, a Comissão propõe que seja 1.15%."

Não pode haver uma rutura grande.
Não haver uma rutura que pode ter consequências negativas para os governos e negativas também para a Europa. Porque se de repente a insatisfação fosse tal que os Governos passavam a ser eurocéticos, aí é que não havia orçamento comunitário nenhum nem fundos para ninguém. Agora, há um problema em Portugal com a questão dos fundos. Porque os fundos ou são olhados como um sorvedouro ou são olhados como se fossem as razões dos nossos males. É um discurso manifestamente desinformado, seja de qual dos lados da trincheira insistem em disparar as duas balas que são mentirosas. Portugal tem uma grande oportunidade enquanto país. E eu recuso-me, recuso-me, não vou ser cúmplice do crime político, que seria desperdiçar e até ignorar essa oportunidade, enquanto país, enquanto economia, enquanto geração que quer mais da Europa, mas também quer mais de Portugal nesta Europa.  Em 2020, sem Trump na Casa Branca, sem guerra na Ucrânia ou conflito no Médio Oriente, o orçamento da União foi 1.13% do PIB Europeu. Em 2026, a Comissão propõe que seja 1.15%. Ninguém entenderia que, com mais prioridades, tivéssemos menos pujança financeira. A coesão, na proposta da Comissão, que será convertida em planos nacionais e regionais, mas fundamentalmente passa de 68% para 45% para toda a Europa, não é só para nós. A competitividade dispara de 16% para 30%. O que é que isto quer dizer, para os seus ouvintes perceberem, para os seus leitores perceberem? Quer dizer que nós vamos ter 400 mil milhões de euros de fundos europeus concorrenciais. Ou seja, não nos estão garantidos, não vão para o nosso envelope nacional, mas estão lá para nós os irmos ganhar, estão lá para nós os irmos conquistar, estão lá para nós irmos conquistar.

Mas nós temos menos condições que muitos outros Estados-membros para os conseguir.
É exatamente assim. Mas há formas criativas, novas, de resolver esse problema. Várias. É possível fazer coligações entre municípios e empresas portuguesas, é possível aproveitar por exemplo o modelo, e aqui tenho que fazer um elogio ao professor Costa e Silva, das agendas mobilizadoras do PRR e fazer coligações mobilizadoras entre pólos de conhecimento, setor privado, entidades públicas como CCDRs e câmaras municipais dentro de Portugal para ir buscar esses 400 mil milhões de euros e esses fundos de futuro onde há investigação, tecnologia, inteligência artificial, competitividade, e depois é possível fazer outra coisa. Tem razão quando diz que há Estados-membros europeus que têm muito mais facilidade em ir buscar esses fundos porque têm mais escala, mais empresas, mais capital humano e mais capital financeiro, mais capacidade de investimento, por isso é que 80% do horizonte da Europa foi para a França, para a Itália, para a Espanha, para a Holanda e para a Alemanha. Exatamente como diz, 80% do quadro em vigor. Como é que nós podemos criativamente, e o primeiro-ministro defende isso, e o ministro da Coesão está a fazer isso, está a promover isso, porquê que nós não fazemos coligações entre os outros países que são parecidos connosco e nos juntamos a eles para coligações mobilizadoras para esses fundos concorrenciais? Isso não só é possível como é desejável. Já existe a majoração em alguns fundos, por exemplo, do horizonte da Europa, a majoração dos fundos em candidaturas de consórcios que tenham regiões ultraperiféricas. Isto é, se uma candidatura a um fundo tiver uma região ultraperiférica, das nossas regiões autónomas, não ganha automaticamente direito a esse fundo, mas ganha mais orçamento por ter uma região ultraperiférica. Porquê que nós não defendemos uma majoração idêntica para os consórcios que tenham universidades, postos de conhecimento, empresas ou regiões dos países da coesão? Este é um debate que vale a pena ter, e o primeiro-ministro está disponível não só a tê-lo como a liderá-lo no Conselho Europeu.

Acerca desta liderança, um dos eurodeputados do Partido Socialista, neste caso o Bruno Gonçalves, disse no debate que por esta altura, na negociação o anterior quadro, António Costa já tinha reunido com 17 primeiros-ministros, visitado capitais europeias, reu
nido com os principais líderes europeus, enquanto Montenegro chegou tarde. Isto é verdade?
Vocês são jornalistas, se é verdade ou não, se é um facto ou não, podem poligrafar a afirmação. Certamente que o Governo de Portugal está disponível para transmitir o número de reuniões que o primeiro-ministro já teve. Eu acho que é uma narrativa distante da realidade.

Não está a ser menos eficiente do que foi o António Costa?
Nós só vamos saber isso quando virmos o resultado por final. Isto seria muito irónico.

Mas o contexto também é mais adverso.
Isto seria muito irónico. Eu, aliás, espero que não se esqueça da pergunta que me está a fazer para depois a fazer. Seria muito irónico que Portugal conseguisse um resultado melhor em 2026, ou no final de 2026, início de 2027, conseguisse um resultado melhor neste quadro financeiro que está a negociar agora, do que em 2020, em que, alegadamente, segundo o deputado que citou, tínhamos feito tanto para termos menos. Mas eu sobre as negociações que estão a decorrer e sobre o que vamos ter ou não, não  quero fazer previsões. Mas espero que não se esqueça da pergunta que me fez para depois a fazer aqui em direto. Porque este quadro é muito difícil de negociar por causa da instabilidade política que os governos europeus estão a viver, em que os frugais obviamente têm posições mais assertivas porque têm instabilidade nos seus próprios países. Nós compreendemos isso. Nós percebemos isso. Mas foi o Luís Montenegro que tomou a iniciativa e que conseguiu o apoio do presidente de França e do primeiro-ministro espanhol, do ainda primeiro-ministro espanhol, para uma carta conjunta a defender as regiões ultraperiféricas, nomeadamente explicando que há uma importância geopolítica e geostratégica nos Açores e na Madeira hoje que não havia em 2020. E essa carta foi assinada antes da presidência irlandesa apresentar a sua caixa de negociação. Foi o Luís Montenegro que se juntou aos amigos da Coesão justamente para a defender, com 14 chefes de governo e chefes de Estado da Coesão. Portanto, quer dizer, a ideia de que não estamos a fazer nada, eu posso lhe dizer com um sorriso: vamos ver o resultado final.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Costa merece o apoio transversal das famílias políticas europeias”

Parece que acredita que na eleição em Espanha do líder do Partido Popular e numa eventual saída de Pedro Sánchez…
Acredito que vai perder, sim. Acredito e espero que ele perca.

… Isso não pode colocar a reeleição de António Costa como presidente do Conselho Europeu em perigo?
Da parte do PPE e da parte daquilo que já foi veiculado pelo chefe de Governo português, não.

Independentemente do resultado em Espanha? O resultado em Espanha não terá o mínimo impacto nesta matéria?
A equipa e o triângulo institucional da presidente da Comissão, presidente do Conselho e da Alta Representante para a Política Externa é funcional, tem produzido resultados e merece o apoio transversal das famílias políticas europeias e europeístas deste Parlamento.

Foi um dos impulsionadores de uma resposta europeia à crise da Habitação. Não é pouco prudente, tendo em conta as vezes que o Chega já falhou à 25.ª hora, um acordo numa matéria como a leia do arrendamento com o partido de André Ventura?
Não, porque a reforma é nossa. Confio na reforma e é uma reforma equilibrada.

Para ser viabilizada precisará receber apoio do Chega.
A reforma protege todos aqueles que têm 65 anos ou mais ou uma incapacidade igual ou superior a 60%. Este é o Governo que, em apoios diretos às rendas, já apoiou em dois anos e meio mais do dobro do que o governo do PS tinha apoiado em oito anos e meio. Podem poligrafar esta frase à vontade. Do ponto de vista da Habitação, nós não só temos trabalho feito (mais de 120 mil jovens apoiados, mais de 30 mil casas construídas e 40 mil até o final do ano), como não aceitamos lições de ninguém.

O ponto é a confiança que depositam no Chega.
Se as intermitências e os estados de alma do partido que refere afetassem o índice reformista deste Governo, nós não o tínhamos. Não podemos fazer isso, porque isso seria uma vitória para o Chega.

Mas pode parecer estranho ter o líder parlamentar a chamar aldrabão a André Ventura e depois a confiar em André Ventura para mudanças destas.
As descrições da paisagem política ou parlamentar e os adjetivos deixo para os comentadores.

Foi o Hugo Soares que fez essa descrição.
A necessidade de reformar não é diminuída consoante o vocabulário parlamentar. Isso não é assim. Dou um exemplo: a reforma estrutural da imigração não teria sido possível sem o Chega. O PS era contra. Tínhamos que a aprovar com o interlocutor que nos sobrava. E o tráfico humano caiu para metade por causa dessas reformas. No dia em que desistíssemos de governar porque não gostamos do dicionário do Chega ou dos dados de alma do Chega, ou das intermitências negociais do Chega, quem é que ganhava mais com isso ? Quem é que ganhava mais com o PSD a abdicar dos seus interlocutores parlamentares ? Era o Chega. Porque o objetivo de um partido de protesto é que não se consiga reformar. E o objetivo do PS também é esse, coincidentemente: que o governo minoritário do PSD também não consiga governar para virem eles governarem a seguir. Não vou fazer favores nem ao PS, nem ao Chega, só porque eles agem de forma que não gosto ou dizem coisas nas quais não me revejo. Não vou fazer isso.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Moedas tem pergaminhos para responder e usar os termos que entender com Passos”

Carlos Moedas disse que “para Passos Coelho é mais fácil falar do que fazer”. Concorda com o tom desta afirmação ?
Carlos Moedas trabalhou de perto com Pedro Passos Coelho. Teve uma proximidade política que eu nunca tive, num panorama muito exigente com uma intervenção externa no país. Carlos Moedas tem pergaminhos para responder e para usar os termos que entender com Pedro Passos Coelho. Não vou ser eu a avaliar as declarações do Carlos Moedas, que é meu colega como vice-presidente do PSD e foi meu mandatário nas eleições europeias. É uma pessoa que eu estimo e não me vou estar aqui a colocar numa posição em que avalio o tom das declarações de alguém que só merece o meu respeito e amizade.

Teme que este estudo de Pedro Passos Coelho seja um programa de governo alternativo?
Encaro qualquer estudo vindo da sociedade civil, especialmente de ex-governantes, que têm conhecimento técnico, executivo e político dos dossiês que importam ao país, sempre com enorme interesse. Não o olho como um bicho de sete cabeças. Acho que é um contributo natural de alguém que teve funções políticas e que assume que está fora da política, que não tem ambições políticas.

Acredita na literalidade das palavras de Passos Coelho como acredita na literalidade das palavras de Mário Centeno? Ambos dizem que não têm qualquer ambição futura.
Não. Seria incapaz de colocar no mesmo patamar público Pedro Passos Coelho e Mário Centeno. E acho que isso é compreensível: Pedro Passos Coelho foi primeiro-ministro e presidente do meu partido.

Vai arrancar ainda este mês a Comissão de Inquérito aos casos que envolvem Luís Neves. Se se chegar à conclusão de que existiram falhas éticas ou de procedimento, Luís Montenegro deve substituir o ministro?
Sobre a composição do Executivo não me pronuncio. Sou porta-voz do PSD. Mas posso partilhar convosco essa impressão: quanto mais conheço e interajo com quem foi ou é primeiro-ministro, mais percebo que a escolha da equipa governamental é algo absolutamente pessoal. É uma responsabilidade que não deve ser confundida com nenhuma outra.

Mas os governos necessitam, naturalmente, de algum refrescamento.
Pode ser que sim, pode ser que não. Só uma pessoa é que sabe realmente o momento e a dimensão dessa necessidade: o primeiro-ministro.

Não é necessária uma remodelação neste momento?
Não estou a fugir à questão. Obviamente não vou sortear nomes convosco. Já não sou comentador. A escolha de uma equipa governamental é algo que responsabiliza diretamente e até legalmente o primeiro-ministro. Então é uma responsabilidade dele. Não me vou colocar na posição de comentar. Desculpem a resposta ser desinteressante.

Na sequência de uma remodelação governamental, se for convidado, poderá fazer esse caminho de outros eurodeputados deputados e integrar o Governo?
Os meus ex-colegas tiveram a sorte de receber esse convite ao fim de 15 anos de mandato, eu só tenho dois.

Conseguia dizer que não, Luís Montenegro, se ele o convidasse para ir para o Governo?
A situação, o cenário, a situação, a circunstância nunca me foi colocada, nunca tive sequer uma conversa vaga ou lateral sobre esse tema.

Mas teria dificuldades em dizer que não, Luís Montenegro?
A questão não é sobre esse tema. Está a ver?

Tem dificuldade em dizer-lhe que não a tudo?
O que lhe estou a dizer é que eu estou satisfeito com o meu mandato. Fui eleito para este mandato e tenciono cumprir este mandato. Nunca tive uma conversa, nem com o Luís Montenegro, nem com alguém da liderança atual, sobre essa possibilidade. A composição de uma equipa governamental, na minha perspetiva, tem de dizer respeito somente ao primeiro-ministro. Eu sou feliz no Parlamento Europeu, sou feliz nas minhas funções, sou muito jovem, acho que tive responsabilidades muito cedo, fui cabeça de lista com 28 anos, sou vice-presidente e porta-voz com 30. A direcção do partido com o Luís Montenegro está desgovernamentalizada, portanto, o poder de fogo da Comissão Política Nacional e permanente tem uma série de quadros novos que não estão no Governo, portanto, acho que fui convocado para uma missão…

Não tem a ambição de fazer parte de um Executivo.
Eu fui convocado para esta missão, que é ser vice-presidente e porta-voz. Não é uma missão fácil, é exigente, obviamente é uma responsabilidade que me orgulho, é um gesto de confiança de que me orgulho, mas eu estou absolutamente focado na missão para a qual fui convocado e não contemplo nem pondero nenhuma outra.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Carneiro e Ventura são obstinados como Napoleão”

Vamos agora à fase do Carne ou Peixe, em que tem de escolher uma de duas opções. Preferia ser ministro Adjunto do primeiro-ministro Carlos Moedas ou do primeiro-ministro Passos Coelho?
O Pedro Passos Coelho não só reiterou que está fora da política, como já afirmou que não contempla qualquer regresso. Portanto, eu como tenho Pedro Passos Coelho como uma pessoa totalmente honesta não tenho forma de o inserir nessa pergunta.

Se fosse primeiro-ministro, após a crise na seleção, ligaria primeiro a Cristiano Ronaldo ou a Jorge Jesus?
As vossas expectativas baixam e as minhas ambições também.

A quem é que ofereceria um livro sobre Napoleão: José Luís Carneiro ou André Ventura?
O Napoleão era um homem extraordinário, mas tinha uma característica: era muito obstinado. Infelizmente, apesar de isso ser um contributo para a democracia, ambos partilham essa característica. São ambos obstinados. 

Se pudesse escolher preferia a afirmação do Canadá como membro associado da UE ou o regresso do Reino Unido como membro de pleno direito?
Julgo que o caminho equilibrado será, no conceito de aliança para o futuro, que até 2030 contemos tanto com o Canadá como com o Reino Unido.

Os jornalistas do Observador viajaram a convite do Parlamento Europeu

[Pela primeira vez em doze anos, Annie regressa finalmente a Lisboa. A revolução está nas ruas e Fernando Silva Pais está preso em Caxias. A filha vai fazer tudo para o tentar libertar, mas também vai aproveitar para festejar — e não só. Já pode ouvir “Uma ‘deusa’ no 25 de Abril”, o quarto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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