O antigo Procurador-Geral da Repúblico brasileiro, Rodrigo Janot, revelou que planeou matar um juiz do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. “Não ia ser ameaça não, ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele e depois me suicidar”, disse Janot, que liderou o Ministério Público entre 2013 e 2017, anos que coincidiram com o início das investigações do caso Lava Jato.

A revelação levou a Polícia Federal a fazer buscas em Brasília, esta sexta-feira, à casa e ao escritório do, agora, advogado, à procura de armas que o antigo magistrado pudesse ter. Acabaram por encontrar e apreender uma pistola. A ordem foi dada pelo juiz conselheiro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Morais e não partiu do Ministério Público. Morais decidiu também proibir Janot de se aproximar de juízes do STF.

O antigo PGR confessou o alegado plano para o homicídio durante uma entrevista ao jornal brasileiro O Estado de São Paulo. Na entrevista explicou que a “vontade” surgiu depois de uma “história mentirosa” difundida por Mendes sobre a sua filha, também advogada.

A alegada “história mentirosa” de Mendes teria sido divulgada depois de Janot ter decretado o impedimento do envolvimento do juiz na análise de pedido de libertação imediata de Eike Batista, alegando envolvimento familiar no caso — já que a esposa de Gilmar Mendes, Guiomar Mendes, trabalhava no escritório de defesa do milionário brasileiro.

Gilmar Mendes afirmou, então, que a filha de Rodrigo Janot, Letícia Ladeira Monteiro de Barros, exercia funções no escritório de defesa da construtora OAS (envolvida no esquema de corrupção da Lava Jato). “Minha filha nunca advogou na área penal… e aí eu saí do sério”, disse o ex-PGR ao Estadão.

Para se vingar, Janot diz que entrou armado no prédio do STF, mas a “mão de Deus” impediu-o de concretizar a intenção, mesmo estando os dois sozinhos da antecâmara do Tribunal. Momentos mais tarde, o procurador-geral pediu que o vice-procurador o substituísse na sessão, o que de facto aconteceu.

Gilmar Mendes reagiu nas redes sociais às declarações de Rodrigo Janot. O juiz conselheiro cita “divergências na interpretação da Constituição”, lamentando não ser “difícil imaginar os abusos cometidos ao acusar e processar investigados” por parte do ex-PGR. A relação entre o juiz e o Ministério Público brasileiro nunca foi fácil, já que os investigadores consideram que Mendes defendeu, muitas vezes, o Partido dos Trabalhadores em decisões relacionadas, por exemplo, com Lula da Silva e a Lava Jato.

O cargo de Procurador-Geral da República dá direito, no Brasil, ao porte de arma, e estende-se até depois da reforma, como no caso de Rodrigo Janot. É, no entanto, proibido estar no Supremo Tribunal armado, ainda que certos cargos permitam a entrada no prédio por uma via alternativa e privilegiada — sem passagem obrigatória por um detetor de metais.

A entrevista ao Estadão aconteceu no âmbito do lançamento do livro “Nada Menos que Tudo”, escrito por Janot sobre a forma como liderou o inquérito da Lava Jato. No livro, contou o ex-PGR, também descreve o episódio, mas não “dá nome aos bois”.