Os comícios da campanha seguem sempre a mesma ordem. Um momento musical, alguns discursos de candidatos e cabeças-de-lista pelos respetivos círculos e, no fim, sobe ao palco o secretário-geral do PCP para discursar. O discurso de Jerónimo é, habitualmente, o mais aplaudido e participado e com a mensagem mais forte. Mas esta quarta-feira, no Fórum Luísa Todi, em Setúbal, havia contas a acertar com outro partido que reclama a agenda que “Os Verdes” reclamam para si.

O deputado José Luís Ferreira teceu duras críticas aos “novos ecologistas” e marcou o território d’Os Verdes no panorama político desde “o século passado”. Lembrou a campanha nacional “STOP às alterações climáticas”, lançada a 16 de fevereiro de 2006, para “dar cumprimento ao protocolo de Quioto e por essa via contribuir para combater as alterações climáticas” e que foi a “todos os concelhos do país envolvendo milhares de jovens”. E, na proteção e bem-estar animal, também encontrou exemplos “bem antigos”. Em 1988, disse, o partido levou à Assembleia da República uma proposta “com vista a estabelecer uma lei de bases para a proteção dos animais não humanos”.

Agora que estamos numa fase de campanha eleitoral, todos os partidos se mostram muito preocupados com o combate às alterações climáticas, mas Os Verdes não acordaram agora para este problema. Aos anos que a CDU tem vindo a chamar à atenção e a sensibilizar as pessoas, a apresentar propostas concretas para travar esta ameaça”

José Luís Ferreira reforçou, uma vez mais, que “esta é uma batalha que tem sido prioridade” da coligação “há décadas” e que não estiveram “à espera que as alterações climáticas dessem votos ou entrassem na esfera mediática” para que lhes dessem atenção. “Não estivemos à espera de ser empurrados pela onda mediática”, disse, atacando os partidos que “agora” colocam as questões ambientais nos programas.

O deputado afirmou que a batalha dos Verdes “irá continuar”, sem esperar que isso dê votos porque, notou, estão determinados em prosseguir “estas e outras batalhas que possam contribuir para mais equilíbrio ambiental e mais justiça social”. “Sem ‘panpulismos’ porque nós acreditamos que é possível defender os animais e a natureza sem enganar as pessoas”, atirou José Luís Ferreira.

O candidato por Setúbal às eleições de domingo alertou ainda para os “fundamentalismos, probicionismos e penalismos”. “[defender o ambiente e os animais] sem fundamentalismos, mas com sentido de responsabilidade; sem fúrias proibicionistas ou penalistas, mas com bom senso; sem populismos mas com coerência”, destacou, frisando que o partido — que concorre coligado com o Partido Comunista Português — é “ecologista” e “luta por valores que afirmam o desenvolvimento sustentável, que só é possível com justiça social”.

Mas os ataques não se ficaram por aqui. José Luís Ferreira diz que “os verdadeiros ecologistas têm de ser de esquerda”, criticando os que não se dizem de direita nem de esquerda: “Não estamos no lote daqueles que dizem não ser de direita nem de esquerda, que são tudo e nada ao mesmo tempo. Que nem são carne nem são peixe, mas alinham num bacalhau com todos”.

“Não se ouviu o ministro das contas certas”

Depois de uma arruada em cheio, bastante concorrida, Jerónimo de Sousa ganhou algum fôlego antes de chegar ao  Fórum Luísa Todi, completamente cheio e com apoiantes a serem impedidos de entrar. Um “constrangimento” que a máquina do partido não conseguiu ultrapassar já que a regras são do espaço e o controlo é feito pelos funcionários do Fórum.

E depois dos argumentos e ataques ambientalistas terem ficado a cargo de José Luís Ferreira, Jerónimo de Sousa virou-se para o PS, a direita e Mário Centeno. Sobre as notícias que ao início do dia davam conta que mais de 600 milhões de euros de IRC foram para paraísos fiscais, Jerónimo atirou ao “ministro das contas certas”. “Não se ouviu, mas era importante ouvir o ministro das contas certas explicar aos portugueses como é que isto foi possível, 600 milhões ganhos aqui e que voaram para o estrangeiro”, disse, para logo apontar ao PS, PSD e CDS que “rejeitaram a proposta do PCP”. Seria um valor para “reforçar o financiamento dos serviços públicos, para investir na saúde, para dar resposta aos problemas dos trabalhadores e do povo”, insistiu Jerónimo.

Confiante em não perder os votos daqueles que votam na CDU e em conseguir conquistar “o reforço” com novos votos, o secretário-geral enumerou as conquistas ao longo da legislatura e destacou as propostas que podem deixar os bolsos dos portugueses numa situação mais confortável. Falou da proposta de aumento do salário mínimo nacional para 850 euros que, além de ser “uma emergência nacional” se apresenta também como vantajosa em muitas áreas permitindo: “uma mais justa distribuição da riqueza, para a dinamização da economia nacional, para fortalecer a Segurança Social e assegurar melhores pensões no futuro”.