“Se eu tivesse de refazer, através das obras disponíveis, uma leitura do século XX português, o que é que me interessaria mostrar?”. Fez-se a si próprio a pergunta Miguel von Hafe Pérez, o curador de Cintilações: obras maiores do séc. XX português na coleção Ilídio Pinho, para dar o mote à exposição que reúne obras essenciais do século XX português na arte contemporânea, a partir da acervo pessoal do engenheiro e da fundação com o seu nome.

A exposição, que é inaugurada dia 5 de outubro no Espaço João Espregueira, localizado no Museu FC Porto, propõe uma narrativa simples. “Trata-se de um apanhado excecional de uma a três obras representativas de cada década do século passado em Portugal, constituindo uma oportunidade única para as pessoas contemplarem trabalhos que só muito raramente são expostos ao público”, refere o curador, que vão desde obras “absolutamente singulares” de Amadeo de Souza-Cardoso até um escultor da década de 90, Manuel Rosa.

Nas quatro paredes despidas do Espaço João Espregueira Mendes, afiguram-se simetricamente à altura dos olhos 24 obras de 18 artistas fundamentais para a arte contemporânea do século XX português. Desde o “exagero quase expressionista da corporeidade” de Jorge Barradas em “A Saloia” (1929) ao foco no papel da mulher que se denota em “Maternidade” (1948), de Almeida Negreiros, em “Mulheres na Apanha da Lenha” (1949), de Augusto Gomes — “um artista do norte injustamente esquecido na arte contemporânea”, acusa o curador — e em “Uma Mulher e Dois Homens/O desemprego” (1935), de Mário Eloy, que foca a mulher como eixo central de um trio em desespero.

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O retrato de Maria Vieira da Silva — “Portrait de Vieira” (1946) — pelo marido Arpad Szenes é assumido por Miguel von Hafe Pérez como a única obra que excecionalmente não foi criada por um artista português.

Dos anos 40 passamos para os 50, encontrando “o lado sombrio de uma espécie de viagem interior de Júlio Resende”, confia o curador ao Observador, especialmente presente no óleo sobre tela de “Alentejanos” (1951), que o artista pintou quando fez uma estadia no Alentejo, mas também em “As Figuras do Mercado” (1956).

O abstracionismo chega a esta exposição com Jorge Pinheiro e Ângelo de Sousa, dois dos “4 vintes”, os quatro alunos que acabaram Belas Artes no Porto com nota 20. “Sem título” (1969), de Jorge Pinheiro, mistura escultura com pintura e apresenta, na forma, um ziguezaguear sob a ilusão de ótica de um quadro a três dimensões.

Ângelo de Sousa, que entre finais dos anos 50 e início dos anos 60 “reduziu compulsivamente a parte composicional” das obras, como nos conta Miguel von Hafe Pérez, chega aos anos 70 com “uma abstração pura, ainda que com nuances de cor”, como se pode apreciar no verde água de “Sem título” (1983) e no cinza de “93-3-10” (1992-1993).

Paula Rego não poderia estar fora desta seleção e marca os anos 70 com “O meu Tio no Dordogne” (1972): “Um turbilhão de imaginação composicional”, diz o curador. Muitas obras expostas já não estavam ao alcance público há várias décadas, como a pintura “Paisagem com Circo” de Nikias Skapinakis (1955). Também as duas obras de Vieira da Silva “são muito pouco vistas”. Falamos de “Ailleurs I”, de 1948 e de “La Cage aux Oiseux”, de 1948.

A exposição é temporária, mas estará no Museu FC Porto até 28 de fevereiro de 2020, com entrada gratuita (10H00-19H00), neste Espaço João Espregueira, inaugurado em março de 2019 com a exposição “Curiosidade Vertical”, originada a partir do olhar do espólio pessoal do professor João Espregueira Mendes.

O também responsável pela programação da sala retrata esta segunda exposição como “a afirmação do espaço como espaço cultural, com um público muito diferente daquele que normalmente tem a arte contemporânea”, importante na criação de “mais-valias para esta zona oriental da cidade, que precisa de equipamentos e de uma maior atividade cultural”.