Foi em Joe Biden, vice-presidente de Barack Obama e candidato à nomeação do partido democrata para as eleições de novembro de 2020, que Donald Trump mais bateu nesta quinta-feira à noite. “Nunca foi considerado esperto, nunca foi considerado um bom senador, só foi um bom vice-presidente porque sabia como beijar o rabo do Barack Obama”, arengou, para gáudio de uma plateia de aproximadamente 20 mil pessoas.

Ainda assim, o democrata, a quem Trump jocosamente gosta de chamar “Sleepy Joe Biden”, esteve bem longe de ser o único alvo do presidente dos Estados Unidos, naquele que foi o seu regresso aos comícios desde o início do processo de destituição de que é alvo — e que envolve uma pretensa investigação aos negócios do filho de Biden na Ucrânia.

Ao longo de 102 minutos, em Minneapolis, no Target Center, casa dos Minnesota Timberwolves, Trump proferiu insultos, teceu falsos argumentos e discursou contra refugiados, jornalistas e até agentes do FBI e apontou em particular para Hunter Biden; Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara dos Representantes que deu início ao processo de impeachment; e Ilhan Omar, congressista democrata muçulmana e somali, naturalizada americana, eleita pelo distrito.

Enquanto dentro do pavilhão Donald Trump era aplaudido pela mancha republicana — “Estou cheio de energia, estamos a drenar o pântano!” — e fazia coro com a multidão, a pedir a prisão de Hunter Biden, que o seu filho Eric Trump tinha acusado, sem qualquer tipo de prova, de “ter desviado imenso dinheiro” — “Prendam-no! Prendam-no!” —, no exterior as palavras de ordem eram exatamente as mesmas, mas gritadas contra o presidente dos Estados Unidos. Ao longo da noite, agentes da polícia montada acabariam por dispersar os manifestantes, que queimaram bandeiras e chapéus “Make America Great Again”, com canhões de água e gás pimenta.

Sobre a alegada conversa com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no qual o processo de impeachment se baseia, Donald Trump começou por dizer que foi apenas “uma chamada totalmente apropriada e bonita”. “Estas pessoas são doentes! Os democratas estão numa cruzada para destruir a nossa democracia. É isso que está a acontecer. Nunca deixaremos que aconteça. Vamos derrotá-los. A tentativa descarada dos democratas para derrubarem o nosso governo produzirá uma reação nas urnas nunca antes vista na história deste país”, prometeu.

Depois passou ao ataque: Adam Schiff, o congressista que supervisionou o processo para a sua destituição, é um “escroque” que inventou “uma falsa conversa que nunca aconteceu”. Já sobre Nancy Pelosi, que ordenou o início da investigação que poderá culminar na sua destituição, foi ainda mais longe: “Ou é mesmo estúpida ou perdeu o juízo ou talvez haja alguma desonestidade ali”.

Ao contrário do que aconteceu durante o verão num comício na Carolina do Norte, esta quinta-feira não se ouviram gritos de “Mandem-ma embora!” à menção do nome de Ilhan Omar. Apesar disso, o presidente americano não poupou insultos à congressista, desta vez no seu próprio distrito congressional. Para além de ter voltado a acusar a mulher, de origem somali, de ter casado com o próprio irmão para cometer “fraude de imigração” — uma vez mais sem qualquer prova —, apodou-a de “socialista que odeia a América”. “Ela é uma desgraça para o nosso país e uma das grandes razões por que eu e o Partido Republicano vamos ganhar o Minnesota daqui a 13 meses”, foi como concluiu.

Via Twitter, Ilhan Omar já reagiu, mas noutra moeda. Fez um resumo das ofensas de que foi alvo e aproveitou para pedir donativos para a campanha: “O ódio dele não é rival para o nosso movimento”.