O corpo do ditador espanhol Francisco Franco, que governou Espanha desde o fim da Guerra Civil em 1939 e até à sua morte em 1975, foi exumado esta quinta-feira da basílica do monumental Vale dos Caídos e mais tarde levado para um jazigo de acesso restrito no cemitério de Mingorrubio.

O caixão com os restos mortais de Franco chegou ao cemitério de Mingorrubio de helicóptero pouco antes das 14h00 locais (13h00 de Lisboa), depois de ter sido exumado com sucesso. À chegada àquele local nos arredores de Madrid, várias dezenas de manifestantes franquistas esperavam a chegada do caixão do ditador. Esse momento foi marcado por insultos ao atual Presidente de Governo, que pôs em marcha a exumação de Franco. “Pedro Sánchez, filho da puta!”, gritaram.

(EPA/Ballesteros)

No Palácio da Moncloa, Pedro Sánchez disse que esta exumação surge no seguimento da decisão dos “três órgãos do poder”. “Cumpre-se o mandato do parlamento, uma sentença do Tribunal Supremo e um compromisso do Governo de Espanha”, sublinhou. “Mas, acima de tudo, hoje Espanha cumpre-se a si mesma. Com esta decisão, põe fim a uma afronta moral como é o enaltecimento da figura de um ditador num espaço público.”

“A Espanha atual é fruto do perdão, mas não pode ser produto do esquecimento”, continuou o Presidente de Governo em funções. De seguida, procurou marcar um profundo contraste com os tempos de Franco e os da democracia espanhola:

“A Espanha de hoje está no oposto mais distante que pode haver do regime franquista. Onde antes havia repressão e ditadura, hoje há liberdade e democracia. Onde havia uniformidade e imposição, hoje há diversidade cultural e territorial. Onde havia isolamento, hoje há Europa. Onde havia machismo e homofobia, hoje há feminismo e tolerância.”

A exumação começou às 10h30 locais (9h30 de Lisboa), contando com a presença de 22 familiares, entre descendentes diretos, como netos e bisnetos, tal como os seus cônjuges. Além destes estiveram presentes os funcionários da funerária responsável pelos trabalhos de exumação e inumação, além da ministra da Justiça, Dolores Delgado, na qualidade de notária maior do Reino De Espanha.

A lápide que jazia sobre o caixão de Franco, com um peso aproximado de 1500 quilos, foi retirada às 11h47 locais. Apesar de o caixão estar em mau estado, os familiares escolheram ainda assim levá-lo em ombros até à saída da basílica. Essa foi a primeira vez desde 1975 que o caixão de Franco foi visto em público, ali captado pelas EFE e TVE, os únicos órgão de comunicação social autorizados a estar no local. O caixão foi de seguida colocado num carro funerário. Nesse momento, os familiares de Franco gritaram “Viva Espanha!” e depois “Viva Franco!”.

O caixão foi mais tarde colocado num helicóptero, a partir do qual foi feito o transporte até a um local próximo do cemitério de Mingorrubio. Dali, foi transportado para o interior daquele cemitério, onde entrou às 14h41 locais (13h41 de Lisboa), por uma porta traseira, longe dos manifestantes.

O neto mais velho do ditador espanhol, Francis Franco, deu a cara pela família no dia da exumação. Aqui, surge ao lado de uma bandeira pré-constitucional, utilizada durante os anos do franquismo e até 1981. (AFP via Getty Images)

À saída do panteão onde Franco foi inumado ao lado da sua mulher, Carmen Polo, os familiares do ditador espanhol leram um comunicado onde acusavam “o Governo e os demais poderes do Estado e da hierarquia eclesiástica” terem levado a cabo a “profanação do sepulcro do nosso avô Francisco Franco”, referindo que aquela ação representa “um grave atropelo” dos “direitos fundamentais” da família.

“Aquilo que o Governo descreve como uma ‘vitória da democracia’ não passa de um circo mediático sem pudor, que apenas procura ganhos eleitorais”, lê-se no comunicado. “Mas aqui estamos, acima das misérias e mesquinhices, porque impera a nossa decisão firme de nunca abandonar o nosso familiar cuja dignidade e memória sempre defendemos e defenderemos, agora mais unidos do que nunca.”

Acompanhe aqui em direto a cobertura da exumação de Franco:

Manifestantes franquistas esperam chegada de Franco em cemitério de Mingorrubio

Desde a manhã desta quinta-feira que vários manifestantes franquistas se concentraram às portas do cemitério de Mingorrubio, nos arredores de Madrid. Com bandeiras espanholas, algumas das quais exibiam o escudo pré-constitucional (desde 1981 que a bandeira de Espanha conta com o escudo que ainda hoje tem, perdendo assim a águia de São João, símbolo franquista), aqueles manifestantes cantaram também várias vezes o hino franquista “Cara Al Sol”.

À altura em que o helicóptero com Pedro Sánchez aterrava já nas imediações do cemitério de Mingorrubio, os manifestantes franquistas gritaram: “Pedro Sánchez, filho da puta!”.

Entre os manifestantes, esteve o ex-tenente-coronel da Guarda Civil Antonio Tejero, um dos principais responsáveis e protagonistas pela tentativa de golpe de Estado de extrema-direita de 23 de fevereiro de 1981. À sua chegada, foi aplaudido. Nesse momento, uma jornalista da Antena 3, Concha Olmos, foi agredida por alguns dos manifestantes franquistas, que gritavam também “imprensa espanhola manipuladora”.

Será outro Tejero, Ramón, padre e filho do golpista do 23 de fevereiro, que celebrou a missa no panteão do cemitério de Mingorrubio onde Franco foi inumado esta quinta-feira. O caixão de Franco foi colocado ao lado do da sua mulher (Carmen Polo, ali enterrada desde que morreu, em 1988) num panteão que embora seja propriedade estatal será de acesso privado e restrito à família Franco.

Fora do panteão, mas ainda naquele cemitério, estão enterrados outras figuras de proa do franquismo. É o caso do almirante e braço direito de Franco, Luis Carrero Blanco, morto pela ETA em 1973, e também Arias Navarro, ex-Presidente de Governo de Espanha e homem que anunciou na televisão a morte de Franco. Apesar de ser o que terá certamente mais destaque, Franco não será o primeiro ditador naquele cemitério — antes dele, já tinha sido ali enterrado o ditador dominicano Rafael Trujillo, em 1961.

63 mil euros, 22 familiares, uma ministra e nenhum telemóvel para filmar

Além dos familiares, as únicas pessoas que vão estar presentes serão os operários da funerária que ganhou o concurso público para fazer a inumação, um especialista forense que avaliará o decorrer dos trabalhos ao longo do dia e a ministra da Justiça, Dolores Delgado, que ali estará na qualidade de notária maior do Reino de Espanha. A família já fez saber que não estará disposta a cumprimentar aquela governante e pediu para assistirem à exumação em pontos opostos da basílica.

O processo decorreu também sem a presença de telemóveis (os presentes na cerimónia foram revistados à entrada) e apenas a agência EFE e a TVE estiveram autorizados a filmar o Vale dos Caídos — apenas no exterior e nunca dentro da basílica — neste dia excecional. O espaço aéreo de Cuelgamuros, localidade onde o Vale dos Caídos se insere, foi encerrado de maneira a não haver helicópteros ou drones que possam captar imagens.

O total dos custos da exumação, que foram da responsabilidade do Estado espanhol, está fixado nos 63.061,40 euros. Nesta maquia inclui-se os custos da exumação (11.709,17 euros), a reparação do local de onde foi retirada a lápide de 1500 quilos que até agora esteve em cima do caixão de Franco (4.932,92 euros) e também a renovação do panteão do cemitério de Mingorrubio de acesso privado, mas propriedade estatal, onde Franco será enterrado ao lado da sua mulher, Carmen Polo. Este último processo é o mais caro: 39.811,79 euros.

Apesar de a exumação e inumação de Franco estar planeada até ao detalhe, há ainda um elemento que está em aberto: o transporte do caixão do ditador entre o Vale dos Caídos e o cemitério de Mingorrubio.

O plano A era fazer o transporte de helicóptero entre um local e o outro — estavam ambos preparados para que aquele aeronave ali faça uma aterragem. Desta forma, o transporte pôde ser feito apenas em 10 a 15 minutos, além de reunir melhores condições de segurança. Também estava previsto um plano B, caso houvesse nevoeiro e o helicóptero não pudesse voar, que era levar o caixão de carro até ao cemitério de Mingorrubio. Esse trajeto, que acabou por não ser necessário, demoraria pelo menos 40 minutos.

O transporte foi feito com a presença de duas pessoas dentro do helicóptero ou do carro escolhido: Francis Franco, neto de Franco, e a ministra da Justiça, Dolores Delgado.

Exumação em vésperas de eleições incomoda oposição

Num comício esta quarta-feira à noite em Zamora, na véspera da exumação, Pedro Sánchez disse que esta era “uma grande vitória da democracia espanhola” e rejeitou estar a aproveitar-se deste momento para conseguir ganhar votos nas eleições gerais de 10 de novembro. Embora a campanha eleitoral comece oficialmente apenas a 1 de novembro, a menos de um mês das eleições gerais o clima político espanhol é já de pré-campanha.

“Há quem diga que isto é eleitoralismo, mas não é. Nós, no Governo de Espanha, dissemos que íamos exumar os restos do ditador e que queríamos encerrar o mausoléu no dia em que pudéssemos. Nem um dia antes, nem um dia depois. E esse dia chegou”, disse. “Será amanhã, 24 de outubro, quando acabarmos com o mausoléu do ditador.”

Na véspera, Pedro Sánchez já tinha enviado uma farpa à coligação do Unidas Podemos, ao lementar que “alguns na esquerda” olham para a exumação de Franco “como se fosse uma derrota”.

Mas é precisamente de eleitoralismo, e não só, de que o acusam alguns partidos da oposição, inclusive à esquerda. O líder do Unidas Podemos, Pablo Iglesias, disse que a exumação de Franco é uma “boa notícia”, mas criticou o timing. “Tivemos tempo para fazer isto nos últimos 40 anos. Fazer isto a uma semana das eleições e provocar possíveis manifestações de neonazis talvez não seja o mais prudente”, disse, numa entrevista à TVE. Ao contrário do que disse o líder do Unidas Podemos, a exumação não acontece uma semana antes das eleições, mas sim uma semana antes do arranque oficial da campanha eleitoral.

À direita, Pedro Sánchez também é criticado, embora nem todos olhem para a exumação de Franco da mesma maneira.

Da parte do Partido Popular, a estratégia do seu líder parece ser a desvalorizar este momento. Pablo Casado disse que no seu partido não se iria gastar “nem um só minuto a falar do que se passou em Espanha há 50 anos”, sublinhou que o passado está “felizmente superado” e que impera agora “olhar apenas para o futuro”. Em alusão à Transição de Espanha, entre ditadura e democracia, desde a morte de Franco em 1975 até à aprovação da Constituição ainda vigente em 1978, Pablo Casado disse que ele próprio é “neto de uma geração excecional e generosa que deu um abraço estabelecer a Transição”. Ainda assim Pablo Casado disse que é “evidente” que o PSOE quis que a exumação fosse durante a campanha. “E assim será”, sublinhou.

No Ciudadanos, o líder Albert Rivera disse que “a única coisa boa da exumação é que Pedro Sánchez deixará de falar sobre os ossos de Franco”. “Em 2019, porque é que não falamos de educação, pensões, emprego, ou seja, os temas que fazem sofrer a maioria das famílias quando acordam hoje?”, lançou Albert Rivera num programa matinal esta quinta-feira. Sobre a exumação de Franco, e a sua posição, Albert Rivera disse: “Para mim tanto me faz, porque eu nasci em democracia”.

A exumação de Franco foi aprovada no Congresso dos Deputados com a aprovação do PSOE, do Podemos e de vários partidos independentistas ou de caráter nacionalista das várias regiões de Espanha. Além disso, contou com a abstenção do PP e do Ciudadanos, que assim permitiram que este processo seguisse em frente.

Nessa altura, ainda não tinha representação parlamentar o Vox, partido de extrema-direita e o único que se opõe abertamente à exumação dos restos mortais do ditador.

“Que nos queiram convencer a todos que a montagem que vai haver amanhã não tem nada a ver com uma encenação eleitoral é algo do qual nem o Tribunal Supremo nem ninguém nos vai conseguir convencer”, disse Santiago Abascal líder do Vox, esta quarta-feira. Acusou ainda Pedro Sánchez de querer “resgatar os velhos ódios”, disse que “não pode haver nada mais triste”.

Em setembro, Santiago Abascal já tinha dito que o governo de Pedro Sánchez estava a impedir a “convivência entre os espanhóis” ao “profanar campas”.

“Tanto nos faz que seja legal ou não a intenção do governo de profanar campas contra a ontade das famílias. Estaremos sempre contra que se desenterrem mortos e ódios do passado. Olhemos para o futuro. Porque amamos Espanha e desejamos a convivência entre os espanhóis”, escreveu Santiago Abascal no Twitter.

Começou com Zapatero, parou com Rajoy, avançou com Sánchez

Este é o culminar de um caminho de vários anos, impulsionados por governos socialistas e bloqueado, pela via da inação, por parte de executivos do Partido Popular.

A exumação de Franco do Vale dos Caídos ganhou contornos mais concretos depois de aprovada a Lei da Memória Histórica em 2007 e a consequente aprovação em 2011 de um relatório de especialistas convocados pelo governo do socialista Jose Luis Rodríguez Zapatero. Porém, o seu sucessor, Mariano Rajoy, não deu seguimento àqueles dois trâmites, ao limitar quase a zeros as verbas públicas destinadas à exumação de fossas comuns da Guerra Civil (como permitia a Lei da Memória Histórica) e ao não tocar no assunto da exumação de Franco.

Este tema foi retomado em 2017, quando os partidos da oposição no Congresso dos Deputados aprovaram uma lei que decretou a exumação de Franco do Vale dos Caídos, dando assim seguimento à recomendação do comité de especialistas convocado pelo governo de Zapatero.

Esta foi, no entanto, uma lei deixada em banho-maria, até que o socialista Pedro Sánchez conseguiu derrubar o governo de Mariano Rajoy com uma moção de censura e assim substituir-se ao conservador no Palácio da Moncloa. A exumação de Franco foi uma medida assumida por Pedro Sánchez poucas semanas depois de ter tomado posse, em junho de 2018, passando desde então a envolver-se o Governo de Espanha num intricado processo legal com a família do ditador.

No final de contas, e mais de um ano depois, o Tribunal Supremo deu razão em toda a linha às pretensões do Governo de Espanha, permitindo não só a exumação como determinando que Franco teria de ser enterrado no cemitério de Mingorrubio (como o governo quis) e não na Catedral de La Almudena (como quis a família de Franco, o que contou com a oposição do governo, que evocou razões de segurança).

Em declarações à TVE na manhã desta quinta-feira, o ex-Presidente de Governo Zapatero saudou a exumação cujo caminho foi inicial aberto pelo seu Governo. “Esta democracia é hoje mais perfeita [do que antes] e, acima de tudo, hoje é um dia de recordação das pessoas que sofreram injustiças, das vítimas da ditadura e da Guerra Civil, e sobretudo daqueles que foram até aqui esquecidos”, disse o ex-Presidente de Governo socialista.

Exumação feita por empresa galega, depois de desistência de outra que recebeu ameaças

A empresa que levaria a cabo a exumação de Franco já estava escolhida desde o mês de fevereiro. Após concurso público, a funerária Nuestra Señora dela Jarosa tinha ficado com essa incumbência. No entanto, os donos daquela empresa decidiram abrir mão daquela empresa de San Lorenzo de Escorial, nos arredores do Vale dos Caídos, após o que dizem ter sido várias ameaças e pressões para não executarem a obra.

“Ameaçaram-nos. Aliás, posso dizer que desde que saiu a notícia [de que ia ser a sua funerária a fazer a exumação] chegaram-nos umas vinte ameaças”, disse ao La Razón um dos sócios daquele funerária. “Umas por telefone, outras por email, pessoalmente… Contra nós e contra a empresa. Dizem-nos que não nos passe pela cabeça fazê-lo. Isto só serviu para nos prejudicar.”

Depois dessa desistência, a empreitada foi atribuída a uma funerária de Becerreá, na região da Galiza, a mesma onde nasceu Franco. A empresa tem como proprietário Asdrúbal Humberto Sepúlveda, emigrante da República Dominicana.

“São momentos muito duros para os familiares, que requerem tato e discrição”, disse o tanatopractor dominicano ao jornal La Voz de Galicia. “As pessoas agradecem e valorizam não só os aspetos técnicos, mas também o trato que se lhes dá.”