Depois de anos de debate, falsas partidas e muitos recuos, desta vez não parece mesmo haver volta a dar: o ditador espanhol Francisco Franco vai mesmo ser exumado esta quinta-feira, dia 24 de outubro, saindo assim do Vale dos Caídos, no Escorial, Espanha.

Esta é uma aposta do Governo em funções de Espanha, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, que anunciou esta medida nas primeiras semanas do seu mandato, em junho de 2018 — isto quando, no ano anterior, a oposição ao Governo minoritário de Mariano Rajoy já tinha feito aprovar a exumação do ditador no Congresso dos Deputados.

Em resposta à iniciativa do Governo socialista, a família de Francisco Franco colocou vários recursos na justiça espanhola contra a exumação do ditador, à qual também se opôs o prior do Vale dos Caídos, já que a cripta está situada numa capela. No final de contas, o Governo de Espanha teve luz verde para exumar Franco, tanto do Vaticano como do Tribunal Supremo.

Agora, a exumação vai mesmo avançar. Mas como?

Os custos: mais de 63 mil euros

Ao todo, a exumação de Franco do Vale dos Caídos e a consequente inumação do cemitério de Mingorrubio, nos arredores de Madrid, está orçamentada para custar 63.061,40 euros.

A retirada dos restos mortais do ditador, que está enterrado na basílica do Vale dos Caídos há praticamente 44 anos, custará 11.709,17 euros. O El Confidencial refere que a exumação foi adjudicada a uma funerária cujo nome não é conhecido, por razões de segurança daquela empresa e dos seus funcionários. Além disso, a reparação do chão da basílica após a exumação terá um custo adicional de 4.932,92 euros. Já a lápide que até agora tem servido de túmulo a Francisco Franco — uma peça de granito que pesa cerca de 1500 quilos — será retirada por uma grua e guardada num local secreto. 

A maior parte dos custos dizem respeito à inumação, ou seja, à colocação dos restos mortais de Francisco Franco no cemitério de Mingorrubio. Ainda de acordo com aquele jornal, esse processo vai custar um total de 39.811,79 euros.

Desta maquia, a maior parte diz respeito à construção da sepultura de Francisco Franco no cemitério de Mingorrubio e também à renovação e adaptação do panteão da família Franco (é ali que está enterrada a mulher do ditador, Carmen Polo) às condições de segurança que aquele espaço está agora obrigado a ter. Além de terem sido mudadas as barras de ferro que protegem as janelas daquele espaço, foi colocada uma porta blindada e detetores volumétricos.

Quem vai estar presente? 22 familiares, uma ministra — sem telemóveis nem apertos de mão

Tanto a exumação como a inumação de Francisco Franco vão acontecer fora dos olhos do grande público. Ao contrário do que aconteceu por altura do velório e inumação no Vale dos Caídos em 1975, não haverá desta vez qualquer registo daqueles procedimentos.

A única exceção será aberta à agência Efe e à TVE, órgãos estatais espanhóis, cujas câmaras estão autorizadas a captar imagens do exterior da basílica quando o caixão do ditador for transportado em ombros por alguns dos seus familiares. O espaço aéreo de Cuelgamuros, a zona onde está inserida o Vale dos Caídos, estará encerrado durante todo o dia para evitar que sejam captadas imagens a partir de helicópetros ou drones.

Para evitar que haja registos de vídeo ou fotográficos dentro da basílica, a zona onde Francisco Franco está sepultado será tapado por uma cobertura.

Além disso, todas as pessoas que entrarem na basílica terão de passar de deixar quaisquer aparelhos eletrónicos à entrada, onde terão de passar por um detetor de metais. O mesmo acontecerá também no cemitério de Mingorrubio, para a cerimónia de inumação.

As principais presenças nas duas ocasiões serão as dos 22 familiares de Francisco Franco, que serão recolhidos em três moradas de Madrid em carros do Estado espanhol e que contarão com escolta policial. Além destes familiares, estarão também presentes os funcionários da funerária que vai pôr em prática a exumação e depois a inumação, tal como uma especialista forense que vai supervisionar as duas operações.

Além disso, a cerimónia contará ainda com a ministra da Justiça em funções, Dolores Delgado, que ali estará como notária maior do Reino de Espanha. Quanto a esta presença, a família do ditador já fez saber que não vai querer cumprimentar a ministra e pede que esta permaneça numa zona da basílica oposta à da família Franco.

“Para que é que vamos criar tensão num momento incómodo? Transmitimos o nosso desejo de que não haja os típicos apertos de mão”, disse ao El Español um dos netos de Francisco Franco.

A cerimónia religiosa com o filho do golpista Tejero

Depois de exumado, o caixão de Francisco Franco será levado em ombros desde a basílica do Vale dos Caídos até à saída, o que corresponde a uma distância de cerca de 300 metros. Depois, tudo dependerá do tempo que estiver.

Se o céu estiver azul e não houver nevoeiro, o caixão será transportado de helicóptero desde o Vale dos Caídos até ao cemitério de Mingorrubio. Para isso, há dois helicópteros prontos, para o caso de um deles falhar. Ainda assim, se o tempo estiver enevoado (e é isso que apontam as previsões meteorológicas apontam) o percurso poderá ter de ser feito por estrada.

Chegado ao cemitério de Mingorrubio, o caixão com os restos mortais de Franco será então inumado ao lado do da mulher do ditador, Carmen Polo. Essa cerimónia contará com uma missa celebrada pelo padre Ramón Tejero, filho do antigo tenente-coronel da Guarda Civil Antonio Tejero, o protagonista mais visível da tentativa de golpe de Estado de extrema-direita de 23 de fevereiro de 1981.

Depois da inumação do ditador, apenas a família será autorizada a visitar a campa de Francisco Franco e da sua mulher. Porém, tal como tem acontecido até agora, os familiares que forem visitar aquele espaço terão de pedir com antecedência a chave a aos serviços do cemitério, já que aquele panteão faz parte do património estatal.