Depois da morte do líder do Estado Islâmico ter sido anunciada este domingo por Donald Trump, os detalhes em torno da maneira como foi descoberta a localização de Abu Bakr al-Baghdadi divergem, com diferentes versões da mesma história a serem juradas pelos “vencedores” deste episódio.

Cada uma das versões não chega a anular as outras que também foram apresentadas, mas é notório que a importância concedida a cada uma das forças envolvidas varia conforme quem conta a história.

Uma coisa é certa: Abu Bakr al-Baghdadi estava escondido num complexo situado no noroeste da Síria, na região de Idlib, quando foi surpreendido por um raide levado a cabo por tropas especiais dos EUA. Mas a dúvida permanece: como é que aqueles militares sabiam que era ali que estava o fundador e líder do Estado Islâmico?

A versão de Donald Trump

A versão mais longa e também detalhada partiu dos EUA. A morte do líder do Estado Islâmico foi anunciada em direto por Donald Trump, numa conferência de imprensa que se estendeu ao longo de quase 50 minutos e onde o Presidente dos EUA não se poupou em detalhes, chegando a dizer que Abu Bakr al-Baghdadi “morreu como um cão, morreu como um cobarde”.

Donald Trump fez também questão de mencionar a cooperação de vários países e forças militares da região: disse que, da parte da Rússia, “nos trataram muito bem”; referiu que o Iraque “foi excelente”; a Turquia foi “formidável”; e os curdos sírios partilharam “alguma informação que acabou por ser útil” apesar de não terem tido um “papel militar” na operação deste sábado.

Sobre a maneira como os EUA terão chegado à localização de al-Baghdadi, Donald Trump referiu apenas que esta operação começou “há duas semanas”. Terá sido nessa altura que os EUA conseguiram localizá-lo, disse Donald Trump, com ajuda de “algumas pessoas brilhantes”, que o Presidente norte-americano não chega a identificar como sendo norte-americanos ou aliados estrangeiros.

“Nós tínhamo-lo debaixo de olho. Pensávamos que ele estava numa certa localização. E estava. As coisas começaram a parecer muito bem. Estivemos envolvidos, dentro da nossa equipa, com pessoas brilhantes que tive a oportunidade de conhecer. São pessoas brilhantes que adoram o nosso país, pessoas altamente inteligentes. E nós já o tínhamos debaixo de olho há um par de semanas”, referiu Donald Trump.

“Tínhamos informação muito boa que nos dizia que ele ia mudar de localização. Não mudou”, referiu Donald Trump. Foi quando perceberam que Abu Bakr al-Baghdadi ia mesmo ficar naquele complexo que as tropas norte-americanas decidiram avançar.

A versão das fontes do The New York Times

Em contraste com a versão de Donald Trump, o The New York Times publicou este domingo um artigo onde refere, recorrendo ao relato de fontes oficiais, que a informação sobre o paradeiro de Abu Bakr al-Baghdadi passou a ser do conhecimento dos EUA após a detenção de uma das mulheres do líder do Estado Islâmico e também de um estafeta. As duas detenções terão ocorrido este verão.

O relato daquele jornal não esclarece se foram os EUA que fizeram a detenção nem o interrogatório àquelas duas pessoas, mas refere ainda assim que a CIA “trabalhou de perto com os serviços de informação curdos no Iraque e na Síria para identificar o paradeiro mais preciso de al-Baghdadi e para colocar espiões no local para monitorizar os seus movimentos periódicos.

As fontes do The New York Times sublinha ainda que os curdos sírios continuaram a dar informações aos EUA sobre al-Baghdadi mesmo depois de Donald Trump ter anunciado no início do mês a retirada de tropas norte-americanas na Síria, expondo de forma letal os curdos a uma invasão por parte da Turquia.

A versão dos curdos sírios

A versão da história que surgiu da parte dos curdos sírios foi avançada nas redes sociais pelo general comandante das Forças Democráticas Sírias, Mazloum Abdî.

Ao contrário do que relata Donald Trump, que fala apenas em duas semanas, Mazloum Adbî diz que o raide que levou à morte de al-Baghdadi resulta de uma “operação de intelligence conjunta” articulada entre aqueles que estavam no terreno e um trabalho de “monitorização” daquele líder terrorista. Seja como for, Mazloum Adbî agradece aos que “participaram nesta grande missão”, dirigindo essa mensagem diretamente ao perfil de Donald Trump no Twitter.

Horas antes de Donald Trump ter anunciado a morte de al-Baghdadi, Mazlou Adbî já fazia um post em que também dizia que tinha terminado com sucesso uma “operação histórica devido ao trabalho dos serviços de informação com os EUA”.

No mesmo espírito, mas de forma mais alongada, o site das Forças Democráticas da Síria publicou este domingo um comunicado onde é referido que houve uma “cooperação próxima” entre os sírios curdos e os EUA, mas onde não é feita nenhuma concessão a Washington D.C. no que toca à descoberta da localização do líder do Estado Islâmico.

“Esta operação aconteceu depois de os nossos serviços de informação militares terem documentado ao longo dos últimos meses a presença de líderes de topo do Estado Islâmico — incluindo al-Baghdadi — em áreas sob o controlo militar do Estado da Turquia”, sublinha aquele comunicado.

A versão do Iraque

A partir de Bagdade, o relato desta história também é diferente. De acordo com aquilo que uma fonte dos serviços de informação iraquianos disse à Associated Press, o rastro de al-Baghdadi começou a ser definido depois de um homem próximo do líder do Estado Islâmico ter sido morto num bombardeamento dos EUA no Oeste do Iraque. Nessa ocasião, as tropas norte-americanas terão também detido a mulher desse homem próximo de al-Baghdadi, tendo-a entregado depois às autoridades iraquianas.

De acordo com o que a mesma fonte disse à Associated Press, aquela mulher acabou por revelar informações cruciais para a localização do líder do Estado Islâmico. Essas informações terão sido depois partilhadas pelo Iraque junto das autoridades norte-americanas.

Outra fonte disse ainda à mesma agência que o Iraque também tinha detido um cunhado de al-Baghdadi que, após ser interrogado, também terá revelado informações importantes para se encontrar al-Baghdadi.

Estes dois relatos coincidem com a versão apresentada pelo Governo do Iraque, num comunicado divulgado este domingo, onde se dizia: “Após o trabalho intensivo de uma equipa dedicada ao longo de mais de um ano, os serviços de informação do Iraque conseguiram localizar com eficácia o esconderijo do terrorista Abu Bakr al-Baghdadi na província síria de Idlib”.

O comunicado refere também que foi só depois do trabalho das autoridades iraquianas que “em coordenação com os serviços de informação” de Bagdade é que os EUA “levaram a cabo uma operação que levou à eliminação do terrorista al-Baghdadi”.

A versão (e as dúvidas) da Rússia

Por fim, e um pouco diferente, existe também a versão da Rússia. Se do lado dos EUA, dos sírios curdos e do Iraque as versões sobre como se chegou ao líder do Estado Islâmico apresentam várias nuances, do lado dos russos a questão é outra: não se sabe ao certo se al-Baghdadi morreu mesmo ou se este é mais um falso alarme.

“O Ministério da Defesa da Rússia não possui informação fiável sobre os militares dos EUA que terão levado a cabo uma operação na parte que a Turquia controla na zona de inversão de escalada de Idlib, nem sobre mais uma ‘eliminação’ do ex-líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi”, afirmou, numa declaração que não é desprovida de ironia, o major-general Igor Konashenkov, citado pela agência Ria Novosti.

O militar russo chega mesmo a reagir ao agradecimento que Donald Trump fez a Moscovo a propósito desta operação ao referir que, ao contrário do que o Presidente dos EUA fez crer, Moscovo nada sabia daquela incursão norte-americana.

“Não sabemos nada sobre qualquer apoio ao voo de uma aeronave dos EUA no espaço aéreo da zona de inversão de escalada de Idlib no decurso desta operação”, referiu aquele militar.