Foi há já 32 anos mas Peter Freestone garante que nunca se esquecerá do que sentiu naquela manhã de maio de 1987, quando o patrão e amigo Freddie Mercury, então com 40, o chamou à cozinha da célebre mansão de Garden Lodge, no bairro londrino de Kensington, para lhe contar que tinha sido diagnosticado com sida. “O meu coração saltou-me do peito. Ambos sabíamos que era uma sentença de morte, e a partir desse momento soube que o que quer que eu fizesse por ele não ia ajudá-lo a sobreviver. Ele disse-me que daí em diante não queria que voltássemos a tocar no assunto. Na visão do Freddie, ele tinha o resto da vida para viver”, contou agora o assistente pessoal do vocalista dos Queen em entrevista à Vice.

A partir dessa manhã, não terão realmente conversado muito sobre o assunto. Até que, quatro anos e meio depois, revela Freestone, seu assistente pessoal durante os últimos 12 anos de vida, Freddie Mercury decidiu que não ia voltar a tomar os medicamentos que paradoxalmente lhe tolhiam a vida, enquanto a possibilitavam — e que era hora de morrer.

Deixou de tomar os comprimidos no dia 10 de novembro de 1991. Uma semana mais tarde, caiu à cama. Outros sete dias depois e estaria morto. “No início da semana ele estava muito tenso”, recordou Freestone à Vice. Tudo passou quando, às 20h de 22 de novembro, foi enviada por sua ordem, para os meios de comunicação, um comunicado a confirmar a doença. “Não via o Freddie tão descontraído há anos. Já não havia mais segredos, ele já não estava a esconder-se. Ele sabia que tinha de fazer o comunicado, sob pena de passar a imagem de que pensava que a sida era uma coisa suja, que devia ser varrida para debaixo do tapete.

Durante a última semana, Freestone foi um dos quatro amigos que se revezaram junto à cabeceira de Mercury, em turnos de 12 horas, a recordar os bons velhos tempos ou apenas em silêncio, à espera da morte.

Peter Freestone foi assistente pessoal de Freddie Mercury durante 12 anos. Esteve com ele até à morte

À Vice, Peter Freestone recordou a noite em que esteve no rancho Neverland, com Freddie Mercury e Michael Jackson, e a resposta que o cantor dos Queen deu quando o amigo lhe contou que gostava de dormir no chão, para estar mais perto da terra: “O Freddie não conseguiu não lhe dizer que, se era assim, o que ele devia fazer era passar o quarto para o rés do chão”. E os trabalhos por que passou de cada vez que, em Nova Iorque, tinha de sair para arranjar cocaína para o artista.

“Em Nova Iorque aquilo era mesmo um negócio. Ias a um sítio e havia uma fila. Juntavas-te e ficavas à espera que a porta se abrisse — só entrava uma pessoa de cada vez. Quando entravas havia uma mesa com uma caixa de metal, com vários compartimentos, cheios de drogas. Escolhia o que o Freddie queria e no fim pagava”, recordou, garantindo também que o cantor gostava da droga, não era necessariamente viciado nela. “Isto não acontecia todos os dia, talvez fossem uns quatro dias por semana. E o Freddie era uma daquelas pessoas que deixava sempre alguma coisa para o dia seguinte. Não era daqueles que consumiam tudo e depois iam à procura de mais”, explicou Peter Freestone, para logo a seguir destruir outro mito. “Ele era uma lenda do rock, mas nunca houve festas com anões com tigelas cheias de cocaína à cabeça.”

Também revelou que, apesar da persona extrovertida e extravagante que exibia em cima do palco, Freddie Mercury (nascido Farrokh Bulsara), era um homem tímido, incapaz de entrar sozinho numa sala cheia de desconhecidos e que evitava dar gargalhadas em público, sob pena de mostrar demasiado os dentes, de que se envergonhava. “Em público, ele cobria os dentes com os lábios ou as mãos quando se ria. Mas em casa, ele relaxava. Deixava que víssemos o seu verdadeiro eu”, detalhou o amigo e assistente numa outra entrevista, ao Daily Express.

Peter Freestone só o saberia um dia mais tarde, mas foi às 8h de sábado, dia 23 de novembro de 1991, que trocou as últimas palavras com o amigo, no fim do seu turno de 12 horas: “Estava a levantar-me para sair. O Freddie pegou-me na mão e olhamo-nos nos olhos. Ele disse ‘obrigado’. Não sei se ele decidiu que era hora de partir e que nunca mais me iria ver, e por isso estava a agradecer-me por 12 anos juntos, ou se estava só a agradecer-me por aquelas 12 horas. Nunca saberei. Foi a última vez que falámos”.