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Quando se fala em furacões, ou em grandes tempestades, pensa-se em vento e em chuva. Em devastação. Na cada vez mais quente água do mar e do ar. Mas dificilmente alguém usará a palavra organização. Só que, para a formação de um furacão, a organização é fundamental. E este ano de 2026 está a prová-lo como nunca: não falta calor e humidade na atmosfera; não falta água cada vez mais quente nos oceanos; mas falta que os ventos se consigam organizar na vertical até ao ponto de conseguirem formar tempestades.
No Atlântico, já passou o pico da temporada dos furacões e está batido um recorde: nunca, desde que há medições, em 1966, se esteve até tão tarde no ano sem um único furacão. 2002 e 2013 partilhavam a data, 11 de setembro, do aparecimento mais tardio, com o Gustav e o Humberto. Talvez apareça o primeiro nos próximos sete dias: o NHC (National Hurricane Center dos EUA) vigia uma formação com 40% de probabilidades de ganhar as características que a transformem em algo mais forte.
40% é exatamente a mesma percentagem de hipóteses que os especialistas definem para a possibilidade de se formar o primeiro medicane no Mediterrâneo. Há dias que surgiu uma pequena depressão no Mediterrâneo central, entre a Líbia e a Sicília, com características para poder evoluir para uma grande tempestade. Os meteorologistas seguem-na atentamente. Já quase garantiram que seria um medicane, já quase desistiram dessa possibilidade, e agora esperam por esta quarta, que deve ser decisiva para a tempestade se organizar. As restantes condições existem. Tem por baixo água próxima dos 28 graus (em certos locais até mais), ar frio em altitude e tempestades menores a desenvolverem-se em torno de uma circulação de ventos — ingredientes para se transformar num medicane. Mas falta também saber se conseguirá fazer o mais difícil: organizar-se. A resposta dependerá em grande medida dos ventos nas próximas horas.
A developing subtropical storm or “medicane” between Italy and Libya. pic.twitter.com/glPDCV9x3W
— Jason Randolph (@HurricaneJasonX) September 15, 2026
Um medicane é mais (ou menos, na verdade) do que um furacão no Mediterrâneo: mas o nome resulta da fusão das palavras em inglês Mediterranean e hurricane.A designação é utilizada há mais de 20 anos, mas a ciência ainda não tem uma definição universalmente aceite para deescrever o que são os medicanes. Já este ano, um grupo europeu de especialistas propôs uma definição formal para acabar com qualquer ambiguidade, até para que haja também uma lista de nomes aprovada para os medicanes, como faz o NHC americano, que batiza por antecipação todos os furacões do Atlântico, mas nada avançou. Por agora, os nomes dos medicanes são dados pelos vários institutos meteorológicos da Europa de nomeação das tempestades, que funcionam por áreas, pelo que um mesmo medicane pode acabar por ter nomes diferentes.
A água quente é o combustível de qualquer grande tempestade tropical. Mas não chega. Sem uma atmosfera que permita aos ventos organizarem-se e o sistema evoluir, não há nem furacão, nem medicane. Veremos se o Mediterrâneo terá o primeiro ciclone tropical nos próximos três dias e se as Caraíbas receberão o furacão mais atrasado de sempre.
Onde se está a formar o medicane e qual é a situação?
A depressão começou a organizar-se a nordeste de Tripoli, na Líbia, no Mediterrâneo central. O sistema organizou-se como uma zona de rotação, associado a uma frente frontal, sobre as águas quentes, muito quentes, do Mediterrâneo. Nesta altura, a temperatura das águas do mar na região está nos 28ºC/29ºC, com zonas que já chegaram aos 33ºC, perto da Sicília. Mas além da água quente do mar, que é essencial mas só por si não chega, existe muito frio em altitude — e a combinação de ambos aumenta em muito a instabilidade que propicia estes fenómenos.
O IGEO — Instituto de Geociências (CSIC-UCM) alerta para o facto de a depressão se estar a tornar muito compacta e a ganhar cada vez mais características de furacão tropical. O modelo de previsões GFS também desenha claramente este cenário. Mas um medicane, tal como um furacão, não nasce do nada. Primeiro é preciso haver uma depressão mediterrânica convencional, que depois consiga transformar a sua estrutura.
???? Hibrit Siklon'da son durum⁉️
????️ Geçici sub-tropik özellik kazanan "Medicane" aday adayı "Hibrit Siklon" fırtınasının nereye gideceğini zaten söylemiştim: önceki günlerdeki tweet'te, enerjisinin çoğunu deniz üzerinde bırakacağını, artık orta-seviye sirkülasyonunun Girit–Kuzey… https://t.co/DhPR8f0CYj pic.twitter.com/ZpvAlyxjJq
— Kutay Mıhlıardıç (@KutayMihliardic) September 15, 2026
Qual é a probabilidade de o medicane vir mesmo a formar-se?
Os meteorologistas apontam para a tal probabilidade entre 30 a 40% de que a depressão se transforme mesmo num medicane. Mas não se trata de uma previsão de um organismo oficial — a Europa não o tem, ao contrário dos EUA, que usa o NHC. E o mais parecido que existe, o GEO, está a fazer prognósticos muito prudentes e muito pouco alarmistas. Informou que testou várias vezes o mesmo modelo, que tem alterado posição, intensidade e evolução do sistema, mas do qual não saiu qualquer indicação de que vai formar de facto um medicane.
Portanto, há uma confiança baixa a moderada de uma tempestade deste género acabar mesmo por se formar, mas as próximas horas serão decisivas.
Il n'y aura pas de formation de médicane à court terme en Méditerranée. On a des systèmes orageux disparates qui circulent et le centre dépressionnaire garde un noyau froid. Cela devrait pas aller beaucoup plus loin. pic.twitter.com/nGHtPLbLV1
— Extrême Météo (@ExtremeMeteo) September 15, 2026
Quando é que pode acontecer?
A janela temporal vai ainda desta terça até à próxima quinta-feira: mas esta quarta é o dia decisivo. Será ao longo do dia que se irá perceber se o sistema conseguiu ou não organizar-se em redor de um núcleo central e ganhar as características tropicais para que ascenda ao nível de medicane.
Há cenários que mostram a depressão a ganhar intensidade de uma tempestade tropical forte. O que pode acontecer já esta quarta-feira. Mas isso não significa que se torne num furacão de categoria 1. O que se compara aqui são velocidades do vento; não é uma classificação oficial do sistema pela mesma escala usada no Atlântico.
Que zonas pode atingir?
Resposta fácil: dificilmente terá efeitos em Portugal, quando muito na costa espanhola mediterrânica, até Gibraltar. Mas esta é uma das grandes incertezas. A tendência parece ser a de uma deslocação lenta para leste, para o lado da Grécia ou Egito, mas aqui surge um paradoxo: os ventos mais fracos podem ajudar a formar o medicane, mas também tornam a sua trajetória muito mais imprevisível. Neste momento as zonas que estão sob alerta e a acompanhar o fenómeno são Sicília, Itália, Grécia, norte da Líbia e noroeste do Egipto.
Não significa que todas estas zonas venham a ser atingidas, mas que a dispersão das trajetórias abrange para já esta vasta zona. Ou seja, a trajetória ainda pode mudar bastante, mesmo a poucas horas de distância da possível formação do medicane, porque é um sistema pequeno.
???? Possible Medicane Being Watched in the Mediterranean ????
A deepening low over the central Mediterranean is drawing increasing attention, with some forecast models showing it tightening near Libya before potentially moving towards Greece and Crete.
A medicane has not formed,… pic.twitter.com/8yiUxoDeVj
— Above The Norm News (@abovenormnews) September 14, 2026
Que velocidade de ventos pode produzir um sistema destes no Mediterrâneo?
Nos cenários mais intensos, pode chegar à velocidade de uma tempestade tropical forte. Traduzindo, falamos de ventos na ordem dos 80 a 100 km/h, se a depressão conseguir mesmo organizar-se e formar um medicane. Este vento forte tem o risco de envolver rajadas muito mais fortes e potencialmente destrutivas, além de mar muito alterado nas proximidades do núcleo da tempestade.
Para comparação, no Atlântico uma tempestade tropical tem ventos consolidados entre 63 e 118 km/h. E só passa a furacão de categoria 1 quando os ventos atingem 119 km/h.
E quanto à chuva?
Aqui pode estar a maior preocupação: atinja ou não esta depressão a categoria de medicane, um sistema como este, compacto e em progressão lenta, sobre um Mediterrâneo muito quente, pode concentrar muita precipitação numa faixa muito estreita, despejar muita água num espaço muito curto de tempo e no mesmo local. O principal risco apontado neste momento é exatamente chuva forte, localizada, que pode causar inundações. Isto se o medicane se formar. E se chegar a terra.
Mas também pode não chegar a formar-se um medicane e haver chuva intensa e perigosa. E é preciso fazer esta distinção. A classificação não é o único critério de risco. Uma depressão pode causar igualmente enormes estragos.
Porque é que há condições para ainda se formar um medicane?
Há pelo menos três grandes fatores necessários que já estão garantidos. O primeiro é a água muito quente do Mediterrâneo, que na zona onde a depressão estacionou está na ordem dos 28ºC. Depois é a existência de ar frio em altitude, uma combinação fatal, porque a diferença térmica entre o calor do mar e o frio da atmosfera superior causa uma enorme instabilidade e favorece as convecções profundas, as tempestades. E por último é um detalhe da própria depressão inicial, onde já existe rotação.
Estamos perante uma evolução semelhante à que foi descrita detalhadamente no caso do Daniel, em 2023. Tivemos uma depressão convencional, que passou vários dias no Mediterrâneo e só depois adquiriu as características de medicane. Foi preciso que as trovoadas se conseguissem organizar em torno desse centro em rotação, para o sistema ir buscar mais energia ao calor e humidade do mar e assim ganhar as características de uma estrutura tropical.
منخفض جوي تحت المراقبة قرب ليبيا يتجه إلى اليونان في البحر المتوسط
التوقعات حتى الان تضعف من فرص تحوله لإعصار متوسطي (Medicane)????️⚠️ https://t.co/QGZ9Wq4dqC pic.twitter.com/iMZy7k3sWb— د. زياد الجهني (@Zeyad_jehani) September 14, 2026
E porque é que pode não chegar a ser um medicane?
Porque a temperatura da água do mar não chega para se formar um medicane (ou um furacão). E no caso desta depressão no Mediterrâneo, está numa bacia pequena, com pouco espaço, e pouco tempo também, para se desenvolver e completar a transformação. Depois precisa também que a atmosfera lhe permita a construção de uma circulação vertical organizada.
Se o vento mudar demasiado de velocidade e de direção com a altitude — o tal cisalhamento do vento demasiado forte — esta organização não é possível. As trovoadas são empurradas para longe do centro da depressão, que se vai ‘desfazendo’. Não se cria uma estrutura simétrica, em que há uma convecção enrolada em torno do núcleo. Resta um centro de baixas pressões de um lado e trovoadas soltas do outro. Exatamente o contrário do que um sistema precisa para fazer a transição tropical.
Teremos uma respostas nas próximas 24 a 48 horas. Não sobre se há água suficientemente quente, mas sim se a atmosfera criará condições para a formação deste medicane.
Se o Mediterrâneo está tão quente, porque pode este medicane nem chegar a formar-se?
A água quente do mar é o combustível, não é o motor completo para um furacão. O Mediterrâneo muito quente fornece calor e vapor de água para que haja depressões intensas, mas estas têm de conseguir organizar-se em redor do centro, para chegarem à categoria de medicanes. Um dos obstáculos é o tal cisalhamento do vento, conhecido como wind shear: quando há grandes mudanças na velocidade e na direção do vento com a altitude, a circulação fica inclinada e as trovoadas ficam então afastadas do centro. Para que possa acontecer uma transição para medicane, esse wind shear tem de diminuir bastante. Estudos sobre medicanes anteriores revelam como essa redução do cisalhamento dos ventos aconteceu durante o processo de transformação de depressão para medicane.
AKDENİZ'DE KASIRGA ALARMI ????
ECMWF hava durumu modeline göre, 17 Eylül civarında Akdeniz'de bir kasırga (Medicane) oluşma ihtimali bulunuyor. Eğer modeldeki hata payı düşük kalır ve sistem öngörüldüğü şekilde gelişirse, olası kasırganın rotası Girit Adası, Yunan adaları ve… pic.twitter.com/FjX840b8sW
— Earth Alert (@EarthAlertX) September 12, 2026
É essa a grande incerteza do sistema desta semana. Há uma depressão; há um mar suficientemente quente; e há convecção. Só que os modelos ainda divergem sobre se a atmosfera vai permitir que a depressão se compacte o qb, se torne simétrica o qb e tenha o núcleo quente o qb. Se assim não for, pode causar chuva e vento forte na mesma, mas sem nunca chegar a ser um medicane.
Um medicane é mesmo um furacão do Mediterrâneo?
Não exatamente. São pequenos ciclones do Mediterrâneo com características muito semelhantes às dos ciclones tropicais. A designação científica que foi proposta mais recentemente exige que tenha uma estrutura de núcleo quente, que se prolongue pela estratosfera, com uma circulação de vento mais ou menos simétrica, nuvens em espiral e a região central como um olho de tempestade.
Um medicane pode produzir chuva intensa, vento entre 80 e 120 km/h e aproximar-se da intensidade de um furacão de categoria 1. Ou até mais: Em 2020, o Ianos, chegou a ventos sustentados de 158 km/h, com rajadas de 194 km/h, valores que já o colocariam como furacão de categoria 2.
Mas um medicane não é apenas um furacão atlântico em miniatura. Não se pode subestimá-los. Os furacões são ciclones tropicais que se alimentam sobretudo da interação com o oceano. Os medicanes resultam de uma combinação mais complexa entre depressões das nossas latitudes médias com a energia retirada do Mediterrâneo. São é mais pequenos, menos intensos e mais curtos.
Desde quando se chamam medicanes e quem lhes dá nome?
O termo medicane é usado há mais de duas décadas, mas sem ter qualquer definição científica. Isso só mudou no início deste ano, depois de muito tempo de discussão entre os especialistas europeus. Foi proposta uma definição comum, publicada ainda em 2025, mas incorporada só em janeiro de 2026, no glossário de Meteorologia da American Meteorological Society.
Quanto aos nomes dos medicanes, o Mediterrâneo não tem um sistema semelhante ao do National Hurricane Center (NHC) para batizar ciclones tropicais. Um sistema no Mediterrâneo pode receber o nome ainda como depressão, antes de chegar a medicane, dos institutos de meteorologia europeus. O Daniel, em 2023, recebeu o nome do sistema europeu de nomeação de tempestades e só mais tarde, quando já estava próximo da Líbia, e ganhou características de medicane. O Ianos, em 2020, foi nomeado pelo Observatório Nacional de Atenas, que desde 2017 atribui nomes a fenómenos com previsão de elevado impacto.
Se a água muito quente não basta para produzir um medicamento, também não basta para produzir um furacão. E é por isso que há um recorde em 2026
O Atlântico bateu um recorde que durava há 60 anos. Porque é que ainda não houve nenhum furacão?
O Atlântico também tem toda a água quente de que precisa, mas este ano bateu um recorde: nunca tinha estado até tão tarde sem nenhum furacão. Chegar a 15 de setembro sem qualquer furacão ou mega furacão, desde que há medições fidedignas, neste caso desde a época dos satélites, em 1966, é inédito. Os anos com os furacões mais tardios eram os de 2002 e 2013, quando a 11 de setembro surgiu o Gustav e o Humberto. É verdade que a época ainda não acabou e ainda há grandes possibilidades de os furacões aparecerem. Neste momento, tal como no Mediterâneo, pode mesmo estar em formação o primeiro.O NHC (National Hurricane Center) está a acompanhar uma perturbação no Atlântico que colocava em 40% a probabilidade de formação de um furacão nos próximos sete dias.
Mas a verdade é que até agora, e quando a temporada termina a 30 de novembro, formaram-se apenas cinco tempestades tropicais, zero furacões e zero grandes furacões, Um dos grandes culpados é o El Niño, que aumenta o wind shear sobre a principal região de desenvolvimento destes fenómenos, Senegal e Cabo Verde. Junta-se-lhe ar seco, também desfavorável à organização dos sistemas, além de movimentos descendentes na atmosfera e temos este resultado: zero.
Mas afinal o que liga o El Niño ao wind shear?
O El Niño muito forte tem como consequência haver condições particularmente desfavoráveis no Atlântico. O mais importante é o wind shear. Na prática resume-se a diferenças importantes na velocidade ou na direção do vento entre diferentes altitudes. Como um furacão precisa de conseguir organizar-se na vertical, se os ventos em altitude forem demasiado fortes, podem inclinar e desorganizar a tempestade antes dela conseguir crescer. Além disso, tem havido ar seco e movimentos descendentes na atmosfera. A época termina oficialmente só a 30 de novembro e o Atlântico está, de facto, muito quente. Por isso ainda podemos ter um final de temporada de furacões para esquecer. Mas nenhum modelo aponta nesse sentido. Contudo, se as restantes condições atmosféricas o permitirem, a pergunta será: quanto mais tempo vai o Atlântico passar assim limpinho, sem furacões este ano?
Estamos em meados de setembro, já passámos pelo período que, em média, marca o pico da época dos furacões no Atlântico, e ainda não houve um único. Em 2026 formaram-se cinco tempestades tropicais — Arthur, Bertha, Cristobal, Dolly e Edouard —, mas nenhuma conseguiu atingir a força de furacão. Há outra forma de perceber até que ponto 2026 está fora do normal. Segundo o balanço do National Hurricane Center, atualizado a 12 de setembro, nesta altura seria normal o Atlântico já ter registado oito tempestades com nome, três furacões e um grande furacão. Déficit: cinco, zero e zero.
E não é apenas o número de ciclones que é baixo. O ACE, o índice que combina a intensidade e a duração das tempestades e permite medir a energia acumulada de uma temporada, estava em apenas 4,4. 93% abaixo do normal para esta altura do ano e corresponde ao arranque mais lento de uma época de furacões desde que os satélites começaram a acompanhar regularmente o Atlântico, em 1966.
Mas onde estão os furacões?
Não é falta de água quente que está a impedir os furacões de se formarem. O calor do Atlântico nunca esteve tão alto para fornecer a energia e a humidade necessária que os ciclones tropicais necessitam. Só que um furacão (ou um medicane) precisa de mais do que isso para se formar. Precisa que a atmosfera também entre no jogo. E em 2026 ela tem entrado muito pouco.
A principal explicação não está no Atlântico, está no outro lado, no Pacífico tropical. O El Niño intensificou-se ao longo deste ano e pode bater o recorde do mais forte de sempre. Isso alterou a circulação atmosférica muito para além da região que ocupa. Uma das consequências mais conhecidas é que com um El Niño forte aumenta o wind shear vertical sobre o Atlântico. A velocidade e a direção do vento muda em altitude, e isso torna quase impossível manter organizada a estrutura de uma tempestade tropical.
Há mais. Um furacão precisa de conseguir manter uma espécie de coluna de tempestades e trovoadas em rotação à volta do seu centro. Quando os ventos à superfície sopram numa direção e, muitos quilómetros acima, têm outra velocidade e sopram noutra direção, essa estrutura inclina-se e pode desfazer-se antes do ciclone ter tempo de se organizar e depois de fortalecer. Desde julho, o wind shear entre as Caraíbas e a região do Atlântico próxima da costa ocidental de África (Cabo Verde/Senegal) onde nascem os furacões atingiu níveis de calor absurdamente elevados. As tempestades que chegaram a formar-se desorganizaram-se e as várias ondas tropicais vindas do deserto de África ficaram por ali. Precisamente as perturbações que nesta altura do ano estão na origem dos grandes furacões atlânticos — porque simplesmente tinham todas as condições para se desenvolver.
O wind shear não é também o único culpado. Tem de se somar o ar seco e os movimentos descendentes da atmosfera, que dificultam o crescimento das grandes nuvens de tempestade de que um ciclone tropical precisa. É uma combinação muito eficaz anti-furacões: pode haver água muito quente quente por baixo, mas a atmosfera por cima impede a tempestade de se organizar. Nem uma Marie Kondo do tempo resolveria isto.
Os furacões passaram para o Pacífico?
Sim. E o contraste com o Pacífico ajuda a perceber melhor o que está a passar. Enquanto o Atlântico atravessa uma temporada excecionalmente parada, o Pacífico oriental e central têm estado com muito mais atividade. E é aqui que se nota a marca típica do El Niño: cria condições que favorecem ciclones num oceano, ao mesmo tempo que dificulta a sua formação no outro.
A NOAA já tinha dito, ainda se estava no início do verão, que esperava uma época abaixo do normal. Mas foi obrigada a ir revendo a sua previsão em baixa. Em agosto, na última atualização, já atribuia uma probabilidade de cerca de 75% para que a temporada ficasse abaixo da média e apontava para um máximo de sete a 13 tempestades com direito a nome, duas a seis delas com possibilidade de chegar a furacão e, no máximo, duas a um grande furacão.
Isso significa que este ano de 2026 pode acabar sem furacões? É uma possibilidade. Mas ainda é cedo para o poder dizer. A temporada oficial só termina a 30 de novembro, pelo que o Atlântico ainda tem mais de dois meses pela frente. Mesmo em anos dominados por um El Niño muito forte, podem surgir curtos períodos em que o wind shear diminui e todas as outras condições atmosféricas se tornam favoráveis. E basta essa janela abrir-se no para uma tempestade conseguir organizar-se.
Mas, mais importante ainda, é preciso sublinhar que uma época pouco ativa de tempestades atlânticas não é necessariamente uma época sem consequências. O número total de furacões mostra o quão ativa foi a temporada no Atlântico; mas não diz onde uma tempestade vai passar, nem os estragos que uma única dessas tempestades pode causar, sem passar à categoria de furacão. O Atlântico atravessou o período em que normalmente está mais tumultuoso sem produzir nenhum furacão de 2026. Com um oceano mais quente que nunca para os alimentar, tem sido a atmosfera desorganizada pelo El Niño que, até agora, não os deixou nascer. Resta saber até quando.