Ninguém sabe quem são, nem mesmo as próprias famílias ou os mais altos nomes do governo. Ninguém sabe onde estão, até porque podem ser enviados para milhares de quilómetros de casa em poucas horas. E pouco se sabe sobre o que realmente fazem, embora se tenha levantado o véu esta semana, quando se anunciou entre dentes que foi o Primeiro Destacamento Operacional das Forças Especiais D, mais conhecido por Delta Force — ou Força Delta, em português —, que matou Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico.

Pentágono divulga vídeo da operação que matou al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico

Porquê entre dentes? Porque a Força Delta nasceu para ser invisível. Oficialmente não existe, mas oficiosamente sim, tanto que a criação da unidade, em 1977, foi tema de um livro publicado seis anos mais tarde e escrito pelo próprio pai da equipa, Charlie A. Beckwith. Os militares que a compõem, todos na casa dos 30 anos, são velhos demais para combates no terreno, mas jovens o suficiente (e eficazes demais) para serem atirados para a reforma. Por isso é que muitos deles vieram de outras unidades especiais do Exército norte-americano. Quando são redirecionados, tanto quanto se sabe publicamente, é simplesmente nisso que continuam a trabalhar.

Mas nada tem de simples aquilo que realmente fazem. Segundo Eric Haney, ex-membro da Força Delta que escreveu o livro “Inside the Delta Force”, esta não é apenas uma “unidade de contraterrorismo“, mas também “a força de ataque ultrassecreta de maior elite“: “Eles dominam o campo de batalha moderno, mas não ouvirão falar  de muito dos seus atos heroicos na CNN. Nenhuma manchete pode revelar as suas missões ultrassecretas”, descreve o militar.

Ou pode, sem saber que é esta a equipa de topo por trás delas. Antes do envolvimento na caça a Abu Bakr al-Baghdadi, a Força Delta já tinha capturado Mohamed Farrah Aidid, líder da Somália, em 1993. No mesmo ano, participou na captura de Pablo Escobar na Colômbia. Também foi esta unidade que derrubou Saddam Hussein, ex-presidente do Iraque, país em que entrou apenas seis semanas depois do 11 de setembro, recordou o The Washington Post. Em 2011, quando abandonou o Iraque, entrou noutra cruzada: a luta contra o Estado Islâmico. Em 2015, foi a Força Delta que matou os jihadistas do grupo Abu Sayyaf, após ter estabelecido uma parceria com curdos iraquianos.

Soldados norte-americanos aproximam-se da entrada para o labirinto onde Saddam Hussein foi capturado pelos Estados Unidos, no Iraque. Créditos: Chris Hondros/Getty Images

No livro de Eric Haney, o militar fundador do grupo explicou que todos os membros, após serem redirecionados de outras forças de elite norte-americanas, passavam por uma formação de seis meses em que lhes são ensinadas técnicas de espionagem desenvolvidas pela CIA. Antes disso, no entanto, todos passam por testes físicos e psicológicos. Segundo Eric Haney, só entra na Força Delta quem acertar num alvo a 550 metros em 100% das tentativas e a 900 metros em 90% das vezes. Há também um teste de resistência em que os candidatos devem completar sem problemas uma marcha de 65 quilómetros.

Diz-se, embora não haja certezas, que nenhum membro do governo norte-americano sabe oficialmente da existência da Força Delta. Os operadores — não militares, insiste-se no meio — só respondme ao comandante-chefe, que o próprio presidente dos Estados Unidos, embora possam trabalhar juntamente com qualquer ramo da segurança norte-americana, como o Exército, o FBI ou a CIA. Donald Trump falou do grupo quando anunciou a morte de al-Baghdadi, mas discretamente, quando afirmou que o líder do Estado Islâmico tinha sido encurralado por membros das “forças de operações especiais dos Estados Unidos”.

É também nesses termos que os comunicados oficiais falam dos membros da Força Delta quando algum deles morre durante uma intervenção. Joshua Wheeler tinha 39 anos quando morreu durante uma rusga a uma prisão controlada pelo Estado Islâmico na cidade de Hawija, no Iraque, em 2015. O Pentágono lamentou a morte do sargento referindo-se a ele como “funcionário na sede do Comando de Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos”. Essa é, aliás, a indicação que os militares devem ter nas páginas de LinkedIn, segundo ordens superiores. Mas Joshua Wheeler era, na verdade, membro da Força Delta que, em conjunto com os parceiros curdos, libertou 70 reféns em 2015, revelou o The Washington Post.

Missões como essa são possíveis porque a Força Delta tem as armas mais modernas ao seu dispor. As equipas, que nunca têm mais de 12 militares mas que podem ser compostas por apenas um operacional, são abastecidas por produtoras americanas de pistolas-metralhadoras, fuzis de assalto e fuzis de precisão. Movimentam-se em Sikorsky UH-60 Black Hawk e MD Helicopters MH-6 Little Bird, ambos helicópteros de ataque. Quando descem para o terreno, os operacionais sabem as regras: dois tiros por cada terrorista que encontrarem, afirma Eric Haney. Nada mais porque não é preciso: são certeiros o suficiente. E nada menos, só para garantir que abatem o inimigo.

Uma equipa de soldados norte-americanos saem de um helicóptero Black Hawk. Créditos: Getty Images

Mas as opiniões sobre a Força Delta dividem-se, dentro e fora dos Estados Unidos. Há quem se renda ao fascínio da equipa ultrassecreta que promete combater o mal, mas há também quem se preocupe com a possibilidade de haver uma unidade governamental que possa agir no limite da lei — ou mesmo fora dela. Em agosto deste ano, por exemplo, o general norte-americano Richard Clarke pediu uma revisão das questões éticas relacionadas com as forças especiais dos Estados Unidos: “Os incidentes recentes podem em causa a nossa cultura e ética e ameaçaram a confiança depositada em nós”, disse o líder referindo-se a casos de assédio sexual denunciados no seio das Forças Armadas americanos, noticiou à época a NBC News.