“Como voos para rapazes devassos, nós somos pelos deuses. Eles matam-nos pelo desporto. Brevemente a ciência não será capaz de derrubar o envelhecimento das células, a ciência irá juntar as células ao Estado, e aí todos vamos tornarmo-nos todos… Acidentes, crimes, guerras que irão matar-nos. Mas, infelizmente, crimes e guerras irão multiplicar-se. Eu amo o futebol. Obrigado”. No futebol como na vida pública, a última imagem costuma ser aquela que fica e o bizarro discurso de Eric Cantona (com ideias de Shakespeare pelo meio) na última gala da UEFA em que recebeu o Prémio Presidente ainda perdura. No entanto, o francês é bem mais do que isso.

Eric Cantona é mais do que um antigo futebolista. É mais do que um ator. É mais do que um filantropo. Porque, voltando ao que representava quando andava pelos relvados, era o jogador que podia rematar cruzado para golo mas fazia chapéus por cima dos guarda-redes antes de festejar (como fez num dos momentos mais emblemáticos em Old Trafford). Era o jogador que podia fazer uma assistência simples para golo com um toque para o lado mas conseguia dar aquele toque de classe para tornar o bom também bonito. Era o jogador de coletivo que se tornava líder individual pelo talento e pela forma de ser – que também o traiu, como naquele pontapé em versão kung fu num adepto do Crystal Palace já depois de ter sido expulso por uma agressão a Richard Shaw.

No desporto, na política ou na sociedade, Cantona tem opinião. Tem e partilha-a. Sem vestir personagens como aquelas que o fizeram destacar-se no grande ecrã, a ser genuíno como quando saltou para a ribalta no futebol, sem problemas em mostrar a aversão a redes sociais, a ser um bom interlocutor num espaço como o Web Summit na cidade de Lisboa a que ficou rendido ao ponto de se mudar para o “Rio de Janeiro da Europa”. Como acontece no apoio que vai dando a Organizações Não Governamentais na questão dos refugiados (tendo por exemplo cedido a sua casa em Marselha para albergar pessoas). Como acontece em relação ao “Common Goal”.

“Podemos utilizar o futebol para tudo. Agora tem sido para a parte política, para fenómenos como o racismo, pela extrema direita… Isto é um mundo de loucos. É importante que os jogadores percebam o ambiente por onde andam. Em vez de apoiarem coisas políticas, deviam ir a zonas mais desprotegidas. Lembro-me que estive em Cartagena, numa zona muito pobre, onde havia um campo de futebol que estava vazio. Perguntei porquê. Aquilo que me explicaram é que primeiro têm de ir à escola e que se cumprirem aí é que podem ir para o campo jogar, ganham essa permissão. Por aqui se vê o poder que o futebol pode ter”, começou por referir na intervenção inicial que teve no Sports Trade, onde compareceu ao lado do co-fundador do “Common Goal”, Jürgen Griesbeck, e de Eniola Aluko, internacional inglesa da Juventus que se juntou também ao projeto.

“Podemos utilizar o futebol para tudo. É uma plataforma de educação porque se tem de respeitar companheiros e adversários, porque se tem de respeitar as regras. É uma escola de vida. Aquilo que o “Common Goal” faz é muito importante e tentaremos ajudar naquilo que for possível. O que esperamos de um jogador de futebol é que jogue bem. Na maioria das vezes os futebolistas vêm de zonas mais pobres e carenciadas, é bom que não esqueçam de onde chegam até ali. Conselho para haver mais jogadores neste projeto? Bom… Somos o que somos, depois podemos ou não querer fazer a diferença. Não posso forçar ninguém, não somos ditadores…”, atirou King Cantona, como também era conhecido, com a barba farta e a habitual boina que não dispensa em qualquer evento.

“Percebi que agora alguns pais falam às suas crianças demasiado sobre fama e dinheiro”, acrescentaria ainda no Centre Stage, onde voltou a explicar a importância do “Common Goal” e como 1% do salário mensal pode fazer a diferença para intervir junto de populações carenciadas tendo o futebol como principal veículo.