O voto de Teresa Leal Coelho a favor da nomeação de Manuel Salgado para o conselho de administração da Lisboa Ocidental SRU (Sociedade de Reabilitação Urbana) foi a gota de água. O mau-estar da concelhia social-democrata em relação à vereadora já vinha de trás, com várias críticas às ausências de Leal Coelho noutros momentos de votações, por exemplo, mas depois da questão Salgado, vários dirigentes do PSD Lisboa entenderam avançar mesmo para a retirada de confiança política. A reunião da comissão política para tomar a decisão foi agendada para esta terça-feira à noite.

O incómodo com o processo de nomeação de Manuel Salgado para a SRU, começou quando a concelhia indicou aos dois vereadores que deviam “votar contra a proposta” — cuja votação esteve agendada para dia 17 de outubro, mas foi adiada duas semanas para dia 31 —, mas apenas um deles respeitou a indicação do partido. Ao que o Observador apurou, a direção da concelhia já tem escrita a deliberação para retirar a confiança política a Leal Coelho e conta aprová-la com apoio largamente maioritário.

Numa carta de 17 de outubro, a que o Observador teve acesso, a comissão política da concelhia de Lisboa indicava que, relativamente “à indicação do Arq. Manuel Salgado para o Conselho de Administração da Lisboa Ocidental SRU” a determinação “deve ser no sentido de votar contra esta proposta”, uma indicação respeitada por João Pedro Costa e contrariada por Teresa Leal Coelho.

A decisão de contrariar o sentido de voto do partido ganhou um peso ainda maior uma vez que foi o voto da social-democrata que permitiu que a proposta do PS fosse aprovada. Com oito vereadores e o anúncio do Bloco de Esquerda (com quem o PS tem um acordo de governação) de que votaria contra, tal como CDS e CDU, só o voto de um dos dois vereadores sociais-democratas servia para manter o ex-vereador do urbanismo à frente da empresa municipal de obras, o que acabou por acontecer. A proposta foi aprovada com nove votos a favor e oito votos contra.

Ainda que a votação tenha sido secreta, João Pedro Costa anunciou que tinha votado contra e Teresa Leal Coelho tinha já assumido o voto a favor da proposta, justificando-o com o facto de se tratar de um  “empresa Municipal que não tem qualquer competência sobre a orientação e o planeamento urbanístico da cidade, nem qualquer competência em matéria de licenciamento urbanístico”. Leal Coelho escreveu ainda: “Não é a primeira vez que tomo posições que não são consensuais mas orgulho-me de não deixar que o receio de desagradar interfira no meu julgamento e na minha consciência”.

Na declaração de voto, a que o Observador teve acesso, o vereador João Pedro Costa esclarece que quando, em agosto, dizia ser contra a interrupção de mandato da Administração de uma Empresa Municipal “a meio” — em reação a uma proposta do Bloco de Esquerda —, tomava posição face a um caso “totalmente diferente de uma nova nomeação”. “Não estamos perante um despedimento sem justa causa, como se colocava em agosto de 2019, mas antes perante uma nova nomeação”, escreve o vereador.

E a necessidade de justificação de João Pedro Costa surge depois de Teresa Leal Coelho, em resposta por escrito à comissão política da concelhia de Lisboa ter dito que “a posição sobre a matéria foi publicamente manifestada” pelo colega de vereação “junto dos media” quando afirmou “que a vereação do PSD viabilizaria a recondução de Manuel Salgado na SRU”. Segundo a vereadora, desde agosto que João Pedro Costa o vinha a fazer “e de forma clara e inequívoca”, acrescentando que só depois de uma publicação no Facebook de Luís Newton (membro da concelhia e presidente da Junta de Freguesia da Estrela) o vereador teria alterado o seu sentido de voto.

Na carta de resposta à concelhia, datada de 22 de outubro, Teresa Leal Coelho questiona a “alegada deliberação de um órgão colegial” que recebeu por e-mail na tarde de dia 17 de outubro. A vereadora nota que não há “verificação de quórum, referência a data e hora da reunião, resultado de votação” e que “quaisquer deliberações da comissão política com pretensão de sugerir o sentido de voto em reunião de Câmara Municipal de Lisboa só deviam ser tomadas em coordenação” com a vereadora que coordena o gabinete de vereação do PSD na câmara, ou seja, a própria. Acresce ainda, segundo Teresa Leal Coelho, que a orientação da concelhia “não é acompanhada de qualquer fundamentação” fazendo com que os vereadores não possam apreciar as “razões de facto e de jure“.

No documento a que o Observador teve acesso, a vereadora “sugeriu” ainda a Rogério Jóia — presidente interino da Comissão Política e que a substituía na reunião de 17 de outubro, primeira data marcada para votação da proposta do PS — que não se deixasse “instrumentalizar por taticismos que têm por objetivo agitar as hostes do PSD Lisboa.