Farinha Predilecta

Desde 1944

Ao fim de décadas de história, nem o novo acordo ortográfico conseguiu mudar o nome de uma das farinhas alimentícias mais populares dos anos 60 e 70. A Predilecta continua a escrever-se com “cê”, embora as velhas caixas ilustradas sejam hoje bem mais difíceis de encontrar do que na era de ouro das papas e farinhas portuguesas. “É para a avó e para a neta e também p’ró atleta”, ditava o slogan, apelando a uma espécie de fórmula infalível para se viver cheio de saúde.

As papas de então eram bem diferentes das de hoje. Chamavam-lhes farinha, mas não serviam para fazer bolos. Fervia-se o leite e adicionava-se a farinha às colheres até engrossar. Se o aroma a baunilha e os pozinhos de cacau não fossem suficientes, havia sempre quem juntasse açúcar. Em alternativa, era boa ideia usar a farinha só para dar um gostinho ao leite. Ainda hoje se lê na embalagem: “Tome assim mesmo, quente no Inverno, frio no Verão.”

A marca nascida no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, foi entretanto comprada por uma empresa chamada – nem de propósito – A Nova Preferida, sedeada em Pombal, no distrito de Leiria. Uma das caraterísticas da “nova” Predilecta é a embalagem: parece que o tempo não passou por ela, pois continua fiel à que, em tempos, se encontrava nas prateleiras das mercearias. É nestas que ainda se consegue encontrar a mítica farinha, apesar de também estar em alguns grandes supermercados.

Farinha Amparo

Desde 1943

No que toca a slogans que ficaram para a história, nenhuma outra bate a farinha Amparo. Ainda hoje dizemos “trigo limpo, farinha Amparo”, expressão que partiu do ingrediente base deste produto, e falamos do facto de haver sempre um brinde em cada caixa para demonstrar a ideia de algo fácil de conseguir. Os brindes, esses gatilhos do consumo, eram para miúdos e graúdos. Os primeiros, colecionados pelas crianças, eram bonecos monocromáticos que podiam, depois, ser coloridos a gosto. Os segundos, destinados a homens e mulheres, eram pequenos espelhos e porta-cartões com o nome da farinha gravado. Daí que se diga que algo saiu na farinha Amparo, sejam cartas de condução ou licenciaturas, sempre que não se reconhece mérito ou capacidade ao seu portador.

Fundada em 1943, a farinha da caixa verde foi uma presença constante nos pequenos almoços das famílias portuguesas entre as décadas de 1950 e 1970. A entrada de novas marcas no mercado português retirou-lhe o protagonismo. A marca Amparo foi vendida a outra empresa e o nome é atualmente usado como marca de farinhas para a produção de pão. Continua a ser produzida com uma embalagem muito semelhante à original, mas agora com o nome Meldouro. Para encontrá-la é preciso recorrer a pequenas mercearias.

Farinha 33

Desde 1937

Parabéns atrasados à Farinha 33, que em 2017 comemorou 80 anos de vida. O que é que tem em comum com quase todas as restantes papas tipicamente portuguesas? Também começou por ter a imagem de um atleta vigoroso na embalagem. À venda n’A Vida Portuguesa, há mesmo quem entre na loja só para recordar os velhos tempos.

Mandava a tradição que, com o leite ao lume, a Farinha 33 fosse diluída lentamente. O açúcar era adicionado a gosto, bem como uma casca de limão. A Moreninha, empresa ainda hoje encarregada de produzir a dita farinha, guarda a fórmula a sete chaves, que é como quem diz, num cofre. Não é preciso abri-lo, já que os funcionários mais antigos têm a receita na ponta da língua. A mesma empresa, com sede em Lisboa, sabe bem como apelar ao saudosismo dos portugueses e, além de continuar a comercializar o produto, tem um pack colecionador, só para o caso de alguém sofrer um súbito ataque de nostalgia. Num período em que os orçamentos familiares nem sempre davam para os iogurtes e croissants, farinhas como esta eram alimento para toda a família. Em papa ou em bebida, a Farinha 33 era diluída em leite, água ou café. Não era por acaso que se sentia um sabor a chocolate. O cacau continua a ser um dos ingredientes, juntamente com o milho, o trigo e a mandioca.

Farinha Nestum

Desde 1958

“Rico em proteínas. O pequeno-almoço completo e equilibrado.” Há 61 anos, a suíça Nestlé apresentava uma nova papa chamada Nestum, uma receita original que queria fazer parte da vida das famílias portuguesas – e assim destronar o pão com manteiga.

Os flocos solúveis com sabor a mel podem ser os que predominam na memória coletiva (e nas prateleiras dos supermercados), mas não foram os primeiros. Sem sabores exóticos, o primeiro Nestum era nada mais nada menos do que uma caixa de flocos de cereais. Importados? Nada disso. Tanto a receita como os ingredientes foram, desde o início, bem portugueses. “Das nove às cinco”, mais coisa menos coisa, a papa é produzida desde 1958 na mesma fábrica em Avanca, no distrito de Aveiro, terra natal de Egas Moniz e onde nasceu, em 1920, a Sociedade de Produtos Lácteos (na qual o Prémio Nobel da Medicina também teve a sua quota-parte). Durante dez anos não houve outros sabores. Em 1968 começou a festa: primeiro com o Nestum Arroz e o Nestum Figo – descontinuado no final da década de 1990, para mal dos pecados de muitos portugueses que ainda hoje assinam petições a pedir o regresso da caixa lilás –, depois com o famoso Nestum Mel, seguido pelos exóticos Alperce e Chocolate. Hoje, 10 por cento da produção de Nestum é exportada e também as mãos por trás das colheradas cresceram. Segundo um estudo realizado pela marca em 2017, metade do consumo nacional da papa é feito por adultos.

Farinha Pensal

Desde 1968

O que é que nasceu primeiro, a farinha ou a bebida? Embora a Pensal tenha perdurado no tempo como a marca portuguesa de cevada solúvel, foi a farinha de cacau que, em 1968, estreou o nome. De onde é que ele vem? Do sítio que, em 1923, recebeu a fábrica da Nestlé: Lugar de Pensal, em Avanca, no distrito de Aveiro. Nos primeiros tempos a dita fábrica dedicou-se, em exclusivo, aos lacticínios, daí que, antes da farinha, tenha havido leite, queijo e manteiga, tudo Pensal. A bebida sem café só chegou oito anos depois, em 1976. A embalagem modernizou-se e em 2012 a farinha Pensal ganhou um novo sabor a mel. Parece que não conseguiu fazer frente à versão clássica da Nestum e deixou de ser produzida três anos depois. A original continua nas prateleiras dos supermercados para quem quiser matar saudades. O forte sabor a chocolate fez dela uma papa especial, mais uma para juntar à longa lista de farinhas que fizeram furor nas mesas de pequeno-almoço portuguesas no século xx.

Farinha Maizena

Desde 1909

É a mais antiga (e internacional) das farinhas, mas antes de chegar à mesa a Maizena começou por ter outros usos. A marca foi criada nos Estados Unidos, em meados do século xx. Antes disso já a indústria têxtil no Reino Unido e do lado de lá do Atlântico utilizava o amido de milho para dar goma aos tecidos. Daí que, aquando da sua chegada às prateleiras das mercearias, a Maizena não tenha sido vista como um produto culinário. Era muito usada para ajudar as donas de casa a engomar a roupa – parece que uma colher diluída num litro de água quente fazia milagres na redução dos vincos. Da tábua de passar a ferro para os pequenos-almoços foi um pulo. E quem diz pequenos-almoços diz também aquela ceia aconchegante antes de ir dormir.

A papa de farinha Maizena era, regra geral, feita com água quente. O açúcar, a casca de limão e o ovo eram ingredientes opcionais, já a canela, polvilhada no final, era o aditivo mais popular. Tal como as outras farinhas, foi sendo substituída pelos cereais e papas sofisticadas, mas nunca esquecida.

A Maizena, nome que deriva de maize, palavra inglesa para a planta do milho, é um ingrediente recorrente em várias sobremesas, molhos e sopas. Em Portugal há 110 anos, é hoje uma marca do grupo Unilever, que a mantém numa embalagem amarela (cor que esteve sempre associada a este produto) e que, verdade seja dita, tem o seu quê de vintage.

Artigo publicado originalmente na revista Observador Lifestyle nº 3 (março de 2019).