Quando se apeia do comboio, apoiada na sua bengala, ergue a mão desimpedida pedindo o silêncio das máquinas. “Não, não quero fotografias!”. O desejo de Amélia de Orléans de pouco serve. A multidão que rodeia a chegada na estação de Entrecampos ultrapassa qualquer vontade de discrição e aguça o interesse da imprensa. Trinta e cinco anos depois de ter rumado ao exílio, a última rainha de Portugal volta a pisar solo lusitano, “com as honras inerentes à sua alta categoria e as facilidades que o governo julgou convenientes”. Caminha de braço dado ao chefe do protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Henrique de Viana, descreve o Diário de Lisboa, segundo a crónica da chegada da “ilustre senhora”.
Coubera a João de Mendonça e ao capitão Amado esperar a viúva do Rei D. Carlos em Vilar Formoso, no dia 17 de maio de 1945, onde “o povo começou as suas manifestações de ternura por aquela que como mãe e esposa soube sofrer portuguêsmente”. Altas individualidades da polícia e do antigo regime como o capitão Lourenço rodearam Amélia protegendo-a da curiosidade popular. O vagão presidencial em que seguiu vinha “juncado de flores” e quando desembarcou na capital e rumou ao histórico Aviz, onde fica instalada, encontrou um hotel em festa, todo iluminado e com os criados à espera. A rainha veio acompanhada por uma secretária, madame Randel Brouillard e ainda por duas criadas. A ladeá-la em inúmeros momentos, ao longo desta prolongada passagem pela sua antiga morada, estará o visconde de Asseca, António José Correia de Sá e Benevides Velasco da Câmara.
Alguns dias depois da chegada da antiga rainha, meios como a Vida Mundial Ilustrada concedem honras de capa a essa receção apoteótica
É a convite do presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, numa operação de charme, que se instala para um périplo pelo país onde viveu entre 1886 e 1910, que durará até dia 30 de maio de 1945. Um roteiro afetivo e nostálgico mas também ele com fins concretos já que em cima da mesa estaria tratar, com o governo, de assuntos que se prendiam com a herança do seu filho e último monarca português D. Manuel. “Consta que tinham uma admiração mútua. Salazar era por sentimento monárquico, nunca o pôde dizer porque afinal liderava uma segunda República. Sempre teve uma relação de suspense com os monárquicos. Disse-lhes que tinha morrido o ultimo rei para que não tivessem esperança de restauro mas deixou isso sempre em suspense, porque não queria alienar o seu apoio.”, enquadra o historiador José Miguel Sardica, elaborando sobre os contornos desta deslocação, que naturalmente iria além de uma simples romaria da saudade. “Numa Europa a seguir a guerra com os regimes autoritários caídos, Salazar precisa de dourar a sua imagem, precisa de se ligar aos aliados, e o desejo de dona Amélia de revisitar o pais de adoção e o interesse de Salazar de galvanizar a opinião monárquica (que poderia ficar agradecida ao Estado Novo), convergiram para que ela visitasse o país.”
Na edição de 24 de maio, a Vida Mundial Ilustrada, semanário gráfico de atualidades, faz capa com o acontecimento que já decorria há uns dias: “Romeira da saudade, a ex-rainha de Portugal, senhora dona Amélia de Orléans e Bragança, regressa a terras de seus filhos e esposo para aquecer a alma nas lembranças do passado”, lê-se no pé de página. O contacto com solo nacional começa logo em Vilar Formoso, mas o arranque oficial da sua agenda, que arrastará multidões por onde passa, dá-se já em Lisboa, no dia 19. Por curiosidade, é o mesmo dia em que Amélia chegara anos antes a Portugal, tendo como destino o enlace com o rei D. Carlos.
▲ Ao longo das semanas, a imprensa vai dando das movimentações da antiga rainha, que percorre uma série de locais simbólicos
Dos planos da jornada na capital faz parte uma visita a São Vicente, e ao Panteão dos Bragança, para rezar junto dos túmulos do marido e dos filhos. O Diário de Lisboa situa esses passos, desde a chegada no automóvel negro, pelas 11h05 à comitiva que a aguarda, desde logo os condes de Alcáçovas e de Vale de Reis. Uns passos mais atrás, no primeiro degrau da escadaria monsenhor Esteves, há meio século prior de São Vicente. Amélia “vestia um casaco negro” e começou a subir a escadaria, apoiada na sua bengala de ponta de borracha. “Da rua continuavam a ouvir-se vozes femininas e infantes: “Viva a Rainha!’. A rainha murmurava: ‘São muito bons’“. No interior, a visitante “parou um momento e envolveu o templo seiscentista num olhar de recordação. O prior conduziu a rainha à capela do santíssimo. A senhora dona Amélia ajoelhou-se no altar”. Mas ao entrar no átrio corredor, onde já se alcançam as lápides dos duques de Saldanha e da Terceira, que fez um sinal e pediu para ficar só. “Ao aproximar-se do panteão, dir-se-ia que não tinha coragem para avançar. No silêncio a torre deixou cair a badalada do quarto depois das 11hoo.” À saída, desce a escadaria e volta a ver-se rodeada pelos populares que a queriam ver de perto. “Uma voz esganiçada de criança gritou: ‘Viva a rainha velhinha!'”
Profusamente ilustrada, a biografia de 2006 D. Amélia, assinada por Eduardo Nobre, revela-nos a vida da última rainha de Portugal, desde a sua infância, até à derradeira viagem a Portugal e à morte no exílio. Através de dezenas de documentos privados da família real portuguesa, e de mais de 200 fotografias e gravuras, o autor detalha a agenda deste périplo lusitano. A 20 de maio de 1945, por exemplo, depois da missa rezada no próprio Aviz, a rainha Amélia de Orléans e Bragança visitou o Mosteiro dos Jerónimos, depois de uma visita de automóvel por vários bairros de Lisboa e a caminho da vila de Cascais. Uma vez lá dentro, terá rezado à Virgem.
Já a 21, é nas instalações do hotel onde se instala, na Fontes Pereira de Melo, célebre por ter acolhido espiões de ambos os lados da barricada, que recebe a visita do presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. Nessa mesma tarde, Amélia retribuiu a visita deslocando-se a São Bento. “Vem desfazer o enguiço da herança do filho, a fundação Casa de Bragança ainda não existia. Ao mesmo tempo, Salazar também achava que o espólio monárquico passara a pertencer ao Estado e não à família quando a República se implantou, mas lá se resolveu tudo de forma simpática”, recorda José Miguel Sardica. Além da correspondência que é conhecida entre ambos, e de troca de ofertas, Salazar chega mesmo a assinar o livro de visitas no hotel.
▲ O desparecido Hotel Aviz, onde se instalou a antiga rainha. Foi demolido no início da década de 1960 e substituído pelo complexo Imaviz/Hotel Sheraton
Estudio Horácio Novais / Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian
De resto, é por ocasião da visita da antiga rainha, que desponta um dos rumores sobre a vida amorosa do líder do regime. Em Cinco Homens que Abalaram a Europa (Esfera dos Livros), Jaime Nogueira Pinto recorda a história com Carolina Asseca, que chegara ao ponto de o Daily Mail de 3 de outubro de 1945 dar a notícia de que Salazar casara. “Não casara, mas estivera próximo. Ela tinha 43 anos, ele 56. Tinham‑se conhecido socialmente num almoço que Salazar oferecera à rainha D. Amélia. A partir daí, nalguns jantares ou recepções, convidava‑a para emparceirar com ele como dona da casa. Carolina Correia de Sá casara e enviuvara cedo, tendo passado parte da sua vida em Inglaterra. A troca de correspondência e os encontros tinham‑se tornado mais intensos e os rumores saíam do circuito social para as informações de diplomatas acreditados em Lisboa, como o embaixador de Espanha, que comunicara o rumor a Madrid.”
A 22 de maio, os caminhos da filha de Luís Filipe, Conde de Paris, pretendente ao trono francês, e de sua esposa Maria Isabel de Orleães, apontam a Sintra. Irá passar pelo Palácio da Pena, que abandonara para se juntar a D. Manuel II na Ericeira quando a revolta republicana tornou inadiável a debandanda. Aqui terá percorrido sozinha alguns corredores e recordado momentos como as famosas Garden Parties que aqui promovera com espírito de quermesse, assim recolhendo fundos necessários para muitas das suas obras sociais, como a construção da ala pediátrica no Hospital do Rego, em 1888. A antiga rainha reza também na capela. Cruza-se com o conservador do palácio, o pintor Joaquim de Botto Tavares, Casimiro Gomes da Silva, conservador do palácio Nacional de Sintra, e Augusto de Jesus, um velho empregado deste último, que beijou comovidamente a mão da rainha que durante tantos anos serviu.
No mesmo dia, Amélia deixa-se fotografar na Quinta da Vigia com a Condessa de Seisal, ou “Mariquita”, como era conhecida Maria Germana de Castro Pereira Corrêa Henriques, uma imagem assinada por S. M. e datada de “22-V-1945”, com indicação do local.
É provável que tenha passado ainda por outros pontos outrora predilectos na zona. O município de Sintra recorda paragens como a praia da Adraga, onde fazia piqueniques, por vezes rodeada de outros ilustres como o dia em que se fez acompanhar, em 1905, pela rainha Alexandra de Inglaterra, mulher de Eduardo VII – de resto, foi a monarca que mandou construir a estrada que une a praia à vila de Almoçageme, suavizando o caminho.
A Rainha Alexandra do Reino Unido num retrato com a Rainha Amélia de Orleães e Maria Pia, durante a sua visita a Portugal (Março de 1905)
Há muitas outras coordenadas que para sempre ficam associadas à antiga consorte, como Seteais ou a Quinta do Relógio, “o cenário idílico da lua-de-mel do rei D. Carlos e da sua jeune fille D. Amélia.”
A 23 de maio, Amélia visita o presidente da República,marechal Óscar Carmona, e recebe no Aviz o patriarca de Lisboa, cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, a quem retribuirá visita no dia 24. É de resto no cenário do hotel que se dá um dos momentos mais imprevistos.
Muito requisitada ao longo de toda a estadia, a rainha reuniu-se em cerimónias um pouco mais restritas com algumas figuras. Para uma delas, o desfecho foi funesto. Quiçá traído pela emoção do acontecimento, o então secretário-geral do Ministério dos Negócios estrangeiros, Luís Teixeira Sampaio, que era monárquico, morreu na sequência de uma embolia que o acometeu quando se preparava para beijar a mão a sua majestade. O episódio é evocado no livro Mortes mais Estranhas, do historiador Ricardo Raimundo, que situa como Teixeira Sampaio se dirigiu à interlocutora, tombando depois de dizer “minha senhora, sinto-me mal!”. Dias depois, a 4 de junho, chegou a notícia de que não resistira, para grande desgosto de Amélia de Orléans, que enviou um representante à missa de corpo presente realizada na igreja de São Paulo.
Em 5 de junho de 1945, na primeira página, o Diário de Lisboa dá conta da missa de corpo presente pelo embaixador Teixeira de Sampaio
Prosseguindo as rondas de deslocações, o dispensário popular de Alcântara, edifício de solidariedade social fundado pela rainha em 1883, é o destino no dia 6 de junho. Pernoitará na pousada de São Martinho. As jornadas que se seguem são especialmente emotivas. Em peregrinação a Fátima, a 8 de junho, protagoniza um dos momentos mais simbólicos quando oferece ao santuário um dos seus mantos reais, após a participação da antiga consorte numa celebração presidida pelo bispo de Leiria José Alves Correia da Silva, na Capelinha das Aparições. A peça incorporou as coleções do Museu do Santuário de Fátima, fundado dez anos mais tarde.
“Depois de alguns dias de repouso no Palace-Hotel, a senhora Dona Amélia de Bragança saiu hoje do Buçaco, acompanhada pela sua comitiva e pelos senhores visconde de Asseca e dr João de Mendonça!, lê-se no Diário de Lisboa, um dos meios que vai relatando as viagens. Segundo algumas fontes, fez mesmo um passeio solitário ao Cedro de S. José, plantado em 1644. Ainda pela região, o bispo de Coimbra vem expressamente dizer missa ao convento da Batalha. A rainha surge irrepreensível, numa “longa saia de riscas brancas e cinzenta”. Emocionado, o bispo ter-se-á adiantado no sentido de cumprimentar Amélia. “Non, non, c’est à moi”, corrigiu prontamente a rainha, precipitando-se para beijar o anel de José Manuel da Silva Mendes. Antes de regressar a Lisboa, Amélia visita os túmulos de Pedro e Inês, em Alcobaça.
▲ A rainha distribuindo sopa a crianças pobres no dispensário de Alcântara, no Natal de 1903
Ao longo de toda a visita, aliás, a protagonista foi reforçando o pedido para que se evitassem luxos e ostentações, frisando que partira de um país assolado pela fome e miséria. Do ponto de vista nacional, e além fronteiras, o contexto histórico aquando da visita é particular. Os ecos do dia da Vitória aliada sobre a Alemanha nazi, em 8 de maio de 1945, são ainda frescos numa Europa a recuperar do conflito quando a última rainha portuguesa regressa a Portugal, então com 79 anos. Lendária é também a decisão de Amélia em território ocupado. Quando soldados alemães entram em sua casa nos arredores de Paris em 1940, Salazar pede que o palácio seja considerado território português e convida-a refugiar-se em Portugal. “Na minha desgraça, a França acolheu-me, não a abandonarei na desgraça dela”, terá respondido a rainha à proposta, resistindo numa das alas do palácio, onde hasteou a bandeira da república portuguesa.
À semelhança de seu filho, Manuel II , Amélia de Orléans (ela própria nascida no exílio, imposto pela chegada ao poder em França de Napoleão III) seguiria o caminho de Londres quando a monarquia caiu. Na capital britânica permaneceu até 1913, quando o filho mais novo se casou. A mãe muda-se então para o Château de Bellevue, perto de Versalhes, em França, construído pelo arquiteto Leyendecker, que adquirira em 1920 por 500.000 francos e onde se instala em 1922. De resto, durante a I Guerra Mundial fora conhecido o seu trabalho na Cruz Vermelha, tendo sido condecorada pelo Rei Jorge V (1865-1936) de Inglaterra, por ter levado o auxílio a feridos, crianças e adolescentes entre aquele país e a França.
Se a dor foi uma constante, dir-se-ia que todas as rotas possíveis convergiam para um destino único. “Dona Amélia esteve para se casar com o arquiduque Francisco Fernando, que acabou assassinado em Sarajevo em 1914. Parece que estava destinada a ser viúva, ou mesmo a morrer, já que a mulher do arquiduque também foi assassinada. Com D. Carlos foi um casamento político, normal e feliz.”, descreve José Miguel Sardica.
Com o filho mais novo, D. Manuel II, último rei de Portugal, em 1910
Um a um, os familiares diretos de Amélia foram desaparecendo. O luto remonta ao óbito da filha prematura, infanta Maria Ana de Bragança. Seguir-se-ia com o assassinato do marido e do primogénito, o príncipe real Luís Filipe. 24 anos após o regicídio, Amélia de Orléans recebia a notícia da morte do filho mais novo, que “herdou a coroa portuguesa com um país já muito republicanizado”, situa a o historiador, notando como o clã foi encolhendo. “Inicialmente a família real contava seis pessoas, os monarcas, os filhos e ainda D. Maria Pia (a sogra de D. Amélia), e o irmão de D. Carlos, o infante Afonso de Bragança, o amante de automóveis que passou à história como “O Arreda”. “Há um ambiente muito sombrio quando ficam as duas viúvas. Quando a República se institui, todos os títulos e a casa real são extintos. Maria Pia regressa a Itália, o ramo liberal constitucionalista extingue-se com a morte de D. Manuel, D. Amélia recolhe-se ao chateau de Bellevue, onde foi filantropa de escolas, cantinas, e durante as guerras alinhou sempre pelo esforço aliado.” Enquanto o seu benjamim foi vivo, continuava a ir a Londres e dividia temporadas entre Suíça, Cannes e Itália. Após a morte de Manuel, cabe-lhe supervisionar as exéquias e vê a nora rumar à Alemanha, cavando ainda mais o seu isolamento.
Em 1937, por ocasião da Exposição Mundial de Paris, o governo português convidou a rainha a visitar o Pavilhão de Portugal. Amélia acedeu ao convite mas furtou-se a comentários sobre o contexto político nacional. Nesse ano, no entanto, dá a primeira entrevista ao “Diário de Lisboa”. Depois de Joaquim Manso, seguir-se-ia Leitão de Barros através de O Século. Em 1939, para o Diário de Notícias, Armando Boaventura deslocava-se até Versalhes para se sentar com a antiga consorte.
Mas é preciso esperar uns anos até ao regresso a Portugal, uma estadia que se cruza com dois acontecimentos marcantes, cada qual à sua maneira. Para além do já referido óbito inesperado, há um nascimento especial a acrescentar contexto. Uns dias antes da chegada a Lisboa, nascia em Berna, no seio do exílio suíço da família, na Legação de Portugal daquela cidade, Duarte Pio de Bragança, seu afilhado e descendente do banido D. Miguel, por quem se haveria de rezar uma missa de graças na mesma igreja de São Domingos que assistira ao casamento do Rei D. Carlos com a princesa francesa. A rainha, que foi madrinha de batismo, ao lado do papa Pio XII, testemunhando essa reunião no sangue de Duarte Pio dos ramos brasileiro constitucional e do ramo português legitimista, não terá marcado presença, alegando questões de saúde e enviando no seu lugar o fiel escudeiro visconde de Asseca.
Na edição de 24 de maio de 1945, a notícia do nascimento do seu afilhado, Duarte Pio de Bragança, surge nas páginas da Vida Mundial Ilustrada
Em 20 de junho, segue para a Ericeira, “onde a esperam centenas de pessoas”, tal como nesse outubro de 1910 em que se despediu da pátria adotiva. No mesmo dia, desloca-se a Mafra, outrora residência real e motivo para uma certa animação monárquica
A 23, em apoteose, milhares de populares rodeiam o automóvel que a conduz até à Assistência Nacional aos Tuberculosos, uma das suas obras sociais.
Na tarde do dia 27, em resposta ao convite formal enviado pelo visconde de Asseca, uma pequena multidão acorre à receção oferecida no Aviz, já que muitos insistiam em cumprimentar a rainha, à medida que o pano ia caindo sobre as últimas semanas.
No dia 30 de junho, por fim, Amélia partiu bem cedo de manhã do Aviz rumo à estação de comboios de Entrecampos. “Às 8 horas, já em frente do AvizHotel se viam alguns populares, principalmente mulheres, e diversos táxis. Ás 8 e 40, depois de se ter despedido, com a maior afabilidade, do gerente e do pessoal do hotel agradecendo a maneira como a trataram, a antiga soberana, envergando um tailleur cinzento, lenço de seda branco ao pescoço, chapéu preto com uma cercadura branca, enfeitado com penas pretase brancas, alvas luvas e a inseparável bengala, saiu acompanhada apenas por madame Randal e pelo sr. visconde de Asseca, no meio de palmas da assistência”, lê-se no Diário de Lisboa. Já na estação de caminhos de ferros, ao serviço policial juntava-se uma comissão de nomes próximos e afetos à monarquia. “Na gare não há um palmo de solo livre”, assinala-se sobre aquela que seria a segunda e derradeira partida da última rainha de Portugal. “Vim para matar saudades e levo mais do que as que trouxe comigo. Viva Portugal”, despede-se Amélia, que em Vilar Formoso haverá de enviar mensagem ao presidente Carmona e a Salazar. Talvez porque seria empreitada demasiado forte para um coração saudoso, falhara apenas a passagem pelo Paço Ducal, em Vila Viçosa.
No dia da partida da ilustre visitante, o presidente do Conselho envia uma nota especial aos jornais, anunciando os donativos efetuados pela antiga rainha durante a sua passagem pelo país. Para a Misericórdia de Lisboa, 200 contos. E ainda outros 500 contos confiados a Salazar, para que este lhes atribuísse o melhor destino. A decisão é rápida. O montante é destinado à construção do sanatório do Porto.
Apreciadora da normalidade de uma vida que permitisse refugiar-se em Sintra, nadar nas praias de Cascais, caçar na Tapada de Mafra ou frequentar o São Carlos, a rainha que adorava a pintura, o desenho, e a fotografia deixar-se-ia captar por um dos maiores retratistas da época. Durante a passagem por Lisboa, os registos mostram que posou para Manuel Alves de San Payo, Lisboa, mantendo um sorriso que tanta vez um destino marcada pela perda tentou silenciar. “Ela é a única rainha portuguesa de que temos registos sonoros”, nota o historiador. Com efeito, no verão de 1951, Leitão de Barros deslocar-se-ia a França para uma espécie de documentário. A protagonista viveria apenas mais alguns meses.
A 25 de outubro de 1951, aos 86 anos, Amélia de Orléans morre na sua residência em Versalhes, na mesma cama, rezam as crónicas, que a esperava no Palácio de Belém quando chegou a Lisboa, pintada pelo mestre Columbano. “Levem-me para Portugal” terão sido as suas derradeiras palavras, cumpridas com honras de Estado em 29 de novembro desse ano.
Uma vez conhecida a sua morte, o governo português decretou três dias de luto nacional, a bandeira foi colocada a meia-haste em todos os edifícios públicos, e agilizou-se a trasladação do seu corpo para Portugal. A urna seguiu a bordo do navio português Bartolomeu Dias e as cerimónias fúnebres realizaram-se a 30 de janeiro de 1952, com Salazar entre os presentes. Foi sepultada no panteão dos Bragança.