Mais um dia, mais um título, mais uma festa. Depois de tudo o que se passou este fim de semana, Jorge Jesus vai ter “mais um dia no escritório” mas desta vez o prémio, sendo igualmente marcante, tem um cariz individual: o treinador português vai receber a distinção de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro, cidade onde chegou há menos de seis meses, em junho, naquela que foi a segunda aventura no estrangeiro depois do Al-Hilal.

Octávio Machado, que exercia funções de diretor do futebol leonino quando Jorge Jesus assumiu o cargo de treinador do Sporting, apontou, em declarações à Rádio Observador, que “nenhum embaixador, neste momento, fez tanto como o Jesus”.

“Aquilo que ele tem feito além fronteiras é algo que demoraria muitos anos. É a afirmação da capacidade de inovação dos treinadores portugueses, é a procura pela perfeição, é a seriedade”, acrescentou.

A cerimónia, que distingue individualidades que prestaram relevantes serviços públicos, terá lugar no Palácio Pedro Ernesto, a sede do poder legislativo municipal, e contará entre outras personalidades com o governador Wilson Witzel, que também esteve em foco na festa do Flamengo por um episódio com o “herói” Gabriel Barbosa e que mais tarde teria o discurso mais longo de todos, quando a cerimónia já levava quase uma hora e meia.

De referir que a proposta, que partiu do vereador Felipe Michel (curiosamente um antigo jogador dos rubro-negros), foi aprovada na passada quinta-feira, ainda antes da conquista da Taça dos Libertadores e do Campeonato por parte do Flamengo em 24 horas, beneficiando da derrota do Palmeiras na receção frente ao Grémio.

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, foi o mais aplaudido até chegar Jorge Jesus, numa cerimónia com mais de uma hora de atraso. Com a mulher e os filhos na primeira fila da sala, e o vereador Felipe Michel vestido a rigor com fato e gravata vermelha, o treinador agradeceu enquanto todos cantavam o já célebre “Olê, olê, olê, mister”, dos adeptos presentes nas galerias (entre os quais o seu sósia, que se tem multiplicado em entrevistas) aos próprios vereadores, que batiam palmas ao ritmo do novo hit do Rio de Janeiro. Antes do arranque oficial da cerimónia, e como é normal neste tipo de eventos, foi também entoado o hino brasileiro.

Durante a apresentação do título, Eduardo Landim não foi disfarçando o sorriso por ver a sala com muitos adeptos que de quando em vez cantavam músicas do Flamengo, enquanto Jesus, o mais tranquilo na mesa, puxava dos óculos para dar mais uma vista de olhos nas folhas que tinha à frente. Felipe Michel, o “padrinho” da iniciativa, continuava inquieto de sorrido nos lábios de um lado para o outro, sabendo também que as duas vitórias no passado fim de semana trouxeram um peso redobrado à cerimónia em causa. “Oficialmente, você já é considerado um carioca. Estas homenagens devem ser feitas em vida!”, ouviu-se entre muitos aplausos.

“Ainda ontem foi campeão também”, disse Jorge Felippe, presidente da Câmara. “E no autocarro”, gritou-se das galerias. “Jesus já era carioca de coração. Agora é de papel assinado. O trabalho de Jesus ultrapassou as fronteiras do Brasil e da América do Sul. É um trabalho de qualidade mundial. Ser carioca é diferente, um carioca é um carioca”, acrescentou, num discurso que se foi alongando e que fez com que o treinador aproveitasse momento para olhar para o telemóvel e ver algumas mensagens entre curtas conversas com o presidente Rodolfo Landim. A Portuguesa dos Desportos deixou também uma lembrança: duas camisolas do clube, com a vice da Câmara, Tânia Bastos, a dizer ao presidente do Flamengo para não ter problemas que não estava ali nenhum convite para o futuro.

“Se Deus é brasileiro, Jesus é carioca”, atirou Tânia Bastos no final do discurso, antes de Felipe Michel dizer que se sentia “o cheiro da Gávea e do Ninho” e passar a palavra a Rodolfo Landim. “Foi uma aposta que não podia ter corrido melhor. Não podia haver uma homenagem mais justa. Está a fazer um trabalho fantástico no Flamengo. Mais do que resultados, conseguiu um futebol que ainda não se tinha visto. A atitude dele, a intensidade com que se entrega à profissão, a determinação ao ofício, a vitalidade porque a qualquer momento está a estudar e a pensar no que pode fazer melhor, o nível de detalhe em tudo o que se presta fazer. Diz-se que o Diabo mora nos detalhes e é mesmo assim, ele mantém sempre o foco atento. São características de um líder que não se encontram com facilidade. Foi isso que o tornou tão importante e os resultados vieram como consequência”, disse.

“É uma felicidade ter aceite o convite, deixar o conforto de Lisboa e conseguir resgatar o orgulho da maioria dos cariocas e de uma verdadeira nação. Esta homenagem é pouco para tudo aquilo que você fez aqui. Sendo carioca, esperamos que possa permanecer connosco aqui durante muito tempo”, pediu no final do discurso. Houve mais intervenções, na sala ou por vídeo, alusões a Fernando Pessoa, certezas de que Jesus é hoje o português mais importante a estar no Rio à frente de D. João VI, elogios pelos títulos conquistados quando estava no comando do Benfica, lágrimas de emoção pela vitória nas Libertadores, convites para ir ao Sambódromo. Só faltava mesmo o discurso da praxe de Jorge Jesus, o centro de todas as atenções na Câmara esta segunda-feira.

A cerimónia começou com mais de uma hora de atraso (o trânsito no Rio de Janeiro também não ajudou), levava já também quase uma hora e meia de discursos entre presidentes, vices e vereadores da Câmara e líder do Flamengo quando o treinador português falou finalmente, já com cara de quem estava a ficar cansado com tantas questões protocolares – afinal, demorou menos a ganhar a final da Libertadores do que a receber a palavra. Só mesmo num filme que passou nos ecrãs da sala com vários músicos e personalidades brasileiras como Gabriel, o Pensador a darem os parabéns a Jorge Jesus conseguiu prender um pouco mais a atenção do técnico.

Já acompanhado pela mulher, Ivone (que recebeu um ramo de flores), e pelos filhos, Mauro, Gonçalo e Tânia, recebeu a condecoração, um quadro com a frase “O português mais querido do Brasil é carioca” e um ramo de flores, tirou fotografias com a família e agarrou no microfone. “Queria agradecer ao presidente desta linda casa, ao governados, aos vereadores e demais autoridades do Rio de Janeiro. Como português e antes de ser carioca, já era cidadão brasileiro. Portugal está ligado desde 1500 por Pedro Álvares Cabral, quando chegou a Porto Seguro. Ensinaram-me na escola que o Brasil era um país irmão, foi assim que fui educado. Sinto um grande orgulho. Esta distinção tem um grande significado. Se hoje estou aqui é pelo que mais amo, que é o futebol, e pela possibilidade que o Flamengo me deu de treinar o maior clube do mundo”, começou por dizer.

“Toda a minha ligação ao Brasil, ao Flamengo e ao Rio de Janeiro foi derivada ao futebol. O futebol faz parte da cultura de um pouco e no Brasil o futebol é cultura. Começámos em Portugal a conhecer o que era a cultura brasileira com as telenovelas e com muitos cantores, agora são eles que também cantam e são atores em Portugal. Há uma ligação muito estreita entre estes dois países e todas as pessoas com quem falo têm raízes portuguesas. O meu País está orgulhoso de mim. Para Portugal, obrigado”, completou numa fase em que a voz embargada mostrava dificuldades em controlar as emoções e já depois de ter recordado que a avó era brasileira.

Mais tarde, em conferência de imprensa, Jorge Jesus fez uma revelação, falou de novo na ligação umbilical que ganhou com o Flamengo e voltou a deixar de forma indireta a porta aberta para uma possível saída.

“Já ganhei coisas importantes mas nunca tinha sido homenageado como fui no Brasil. Vai ser lançado um livro no Brasil em meu nome e uma percentagem das vendas vou doá-la a uma instituição do Rio de Janeiro. A relação com o Flamengo foi um casamento perfeito. Isto hoje teve um significado para além de ser treinador, reconheceram em mim uma pessoa que pode ser referência do Flamengo mas não só. Sei que mexo com as crianças e espero ser um exemplo para os jovens do Rio de Janeiro”, referiu no início da conferência, prosseguindo: “No Brasil aprendi muita coisa, tenho aprendido com um povo muito carinhoso. Nós não somos assim. Isso é uma componente importante. Valorizo o sentimento. Não me passa mais nada pela cabeça se não estar a trabalhar no Flamengo. O que sei hoje é que vou continuar a trabalhar no Flamengo com muita certeza e empenho”.

“Convite para ficar? “Não é fácil responder… Se for pelo coração, ficaria no Flamengo. Toda a emoção e paixão conquistaram-me. Mas há outros fatores importantes na vida de um treinador. Nunca olhei para a minha carreira na componente económica, mas sim na desportiva. Se fosse económica não tinha vindo para o Brasil. No futuro se calhar será uma componente que vou valorizar mas vamos passo a passo, vendo o que é melhor para mim e para o Flamengo. As decisões profissionais não são afetivas”, concluiu.