Jorge Jesus é um sonhador. Os mais próximos dizem que isso é um traço de personalidade, os próximos alertam às vezes para que não sonhe tão alto, a maioria parece às vezes não acreditar nos seus sonhos. No entanto, nem Jorge Jesus versão sonhador poderia sonhar num fim de semana como aquele que teve. Nem nos melhores sonhos. E a única coisa que esteve mais foram as poucas horas em que descansou a sonhar com toda uma nova realidade.

No final de um jogo eletrizante frente ao River Plate que terminou com uma reviravolta nos últimos minutos com bis de Gabigol, o Flamengo conquistou a segunda Taça dos Libertadores 38 anos depois da maior vitória de sempre do gigante adormecido que ainda se agarrava a esse imaginário construído por Zico e companhia na década de 80. Entre a festa, também houve “banho” de sumo no mister à boa maneira americana do Superbowl e os festejos com o técnico pelo ar no balneário. Jesus multiplicou-se em entrevistas no Monumental, tocou pela primeira vez na taça apenas na zona mista (e pela mão de Rodinei) e seguiu para o hotel onde estava a comitiva rubro-negra, que prolongou a festa também nessa unidade já com o português num ambiente mais sereno e reservado.

Poucas horas depois, o regresso ao Rio de Janeiro. Com cerca de duas horas de atraso por causa da confusão no aeroporto de Lima, com a mesma vontade de quem tinha invadido o campo entre saltos e abraços no apito final do encontro diante dos argentinos. A comunicação social brasileira falava numa multidão de um a dois milhões de adeptos ao longo de todo o cortejo iniciado na Candelária, Jesus chegou ao final a agradecer aos quatro milhões que saíram a rua para saudar os campeões sul-americanos. O treinador cantou ao microfone que estava na mão do herói Gabigol, deu uns passinhos de dança quando foi à parte da frente do autocarro e entrou em vídeos que os jogadores iam colocando nas redes sociais – mais uma vez com o suplente Rodinei em foco.

No final da festa, quase seis horas depois de ter aterrado no Rio de Janeiro, Jorge Jesus continuava com a cara fresca, como se nada se tivesse passado. Aos 65 anos, também consegue ser exemplo na forma como festejou o título mais importante na carreira. E a felicidade continuava a contagiar um discurso emocionado e sempre a pensar nos portugueses e em Portugal, o país onde não acredita que volte a trabalhar tão cedo.

“Este clube provou mais uma vez que é único, disseram-me que eram quase quatro milhões nesta avenida… É um amor e uma paixão que contagia e eu já estou contagiado pelo Flamengo”, disse à CMTV, no final do cortejo dos campeões. “Os deuses ontem estavam connosco. É um troféu importante para o Flamengo mas também para a minha equipa técnica. Eles aqui não têm conhecimento do futebol da Europa, achavam que era só mais um mas eu não sou mais um, provei que não só mais um. A dobradinha era um sonho que trazia na cabeça, é o melhor momento da minha carreira. Tenho um grande orgulho em ser português e isto é para os portugueses”.

“Vamos lutar contra as consequências destes dias de festa mas é preciso ter prazer em desfrutar a conquista da Libertadores, que é como a Champions na Europa. A porta de Portugal acho que está cada vez mais fechada. E do Flamengo, com grandes clubes europeus? É esse o meu grande objetivo, vou lutar por isso”, completou Jorge Jesus, dizendo ainda que preferia ser campeão na quarta-feira, frente ao Ceará, do que este domingo, caso o Palmeiras não ganhasse na receção ao Grémio (duas das equipas que se revelaram as maiores rivais nacionais).

No entanto, e como nem nos melhores sonhos o sonhador Jorge Jesus poderia imaginar um fim de semana como este, ainda havia mais festa à espera: cerca de uma hora depois de ter terminado “oficialmente” a festa, com atletas, técnicos e restante staff a saírem nos seus carros, o Flamengo recebeu a notícia mais esperada do dia. Depois de uma primeira parte onde só houve Palmeiras em campo, o Grémio melhorou no segundo tempo e adiantou-se aos 69′ com uma grande penalidade de Everton, o Cebolinha que começou a deixar mais lágrimas nos olhos dos adeptos do Mengão que ou estavam ainda nas ruas do cortejo ou já se tinham concentrado no Maracanã.

O Flamengo, considerado por Jesus como “o maior clube do mundo a nível de torcedores“, era visto como um gigante adormecido com cerca de 40 milhões de adeptos que, depois das conquistas de Zico e companhia nos anos 80, tinha atravessado uma travessia de títulos na sua existência. Aliás, basta ver os títulos conquistados este século: além dos Campeonatos Cariocas, que foram dez desde 2000, os rubro-negros ganharam apenas um Campeonato (2009) e duas Taças do Brasil (2006 e 2013). Agora, em 24 horas, o Mengão ganhou pela segunda vez na história a Libertadores e, quando estava a acabar a festa, soube que tinha ganho o Campeonato. Um Campeonato onde Jesus chegou com menos cinco pontos, onde teve menos oito pontos e lidera agora com mais 13 pontos. E o penálti de Bruno Corsini que deu o empate ao Palmeiras aos 83′ mais não fez do que aumentar a emoção do dia até Pepê, nos descontos, garantir a vitória do Grémio e soltar de vez a festa do Flamengo. Ou mais uma festa.

Além de ter sido a primeira vez que um clube conquistou o Campeonato e a Taça dos Libertadores no mesmo ano (o Santos de Pelé conseguiu o mesmo feito mas numa altura em que havia ainda a Taça do Brasil, que daria lugar em 1971 ao Campeonato), Jorge Jesus tornou-se também o primeiro treinador não brasileiro a conquistar a maior competição nacional do Brasil. E na quarta-feira, na receção ao Ceará, vai haver mais festa no Maracanã.