Ninguém sabe que destino dar às duas estátuas de António de Oliveira Salazar que a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) passou para a Câmara Municipal de Santa Comba Dão — terra natal do político. Numa reunião autárquica a 12 de novembro, questionado sobre o destino a dar às peças, o autarca socialista Leonel Gouveia respondeu que “a seu tempo” se verá “qual será a melhor utilização a ser dada”, conta o jornal Público. Já lá vão dois anos.

Em causa está um busto de 500 quilos e uma estátua decapitada de 2,30 metros em bronze, ambas feitas por Francisco Franco nos anos 30. Esta última representa o ex-Presidente do Conselho de Ministros, rosto da ditadura em Portugal, sentado num pedestal de pedra. Foi inaugurada em 1965 numa praça, mas 10 anos depois foi decapitada. Em 1978, outra parte foi destruída à bomba. Diz-se que uma nova cabeça de bronze mandada fazer pelos habitantes à época continua guardada da Câmara, lembra o Público.

Em setembro de 2017, a DGPC e a Câmara Municipal assinaram um protocolo que passaria para as mãos da autarquia as duas estátuas. Esse protocolo manter-se-ia válido durante cinco anos renováveis. Num documento a que o Público teve acesso, Leonel Gouveia dizia ter em mente “a criação de condições adequadas à sua conservação e exposição nas instalações da Câmara”. Em novembro, o autarca socialista confirmou que as estátuas estavam “em instalações municipais, devidamente acomodadas”. Mas nunca foram expostos.

Esse documento falava também da Rota de Figuras do Estado Novo, a que a Câmara pertencia por causa das intenções de transformar a escola-cantina Salazar num espaço museológico. Esse projeto foi abandonado entretanto. Mas, em entrevista ao Público, João Paulo Avelãs Nunes, historiador e investigador Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, garante que expor as estátuas num museu nunca foi opção porque isso seria “uma assunção do elogio e não há nenhuma hipótese de isso acontecer”.