Foi um dos grandes vencedores da noite mas também uma das grandes figuras de Hollywood e do mundo do cinema em 2019: afinal, foi ele o protagonista — e para muitos o principal ingrediente do sucesso — do filme “Joker”, realizado por Todd Philipps, que uniu nos elogios boa parte da crítica aos espectadores do mundo inteiro, gerando perto de mil milhões de euros em receitas de bilheteiras. Joaquin Phoenix recebeu um Globo de Ouro de Melhor Ator num Filme Dramático, categoria para a qual estavam também nomeados Christian Bale, Antonio Banderas, Adam Driver e Jonathan Pryce, e o seu discurso este domingo no hotel The Beverly Hilton, em Beverly Hills, na Califórnia, foi um dos momentos da noite.

O ator de 45 anos, que já foi nomeado por três vezes para um Óscar (número que quase certamente aumentará na segunda-feira, quando forem conhecidas as nomeações para a 92ª edição dos prémios) e que ao longo da carreira fez filmes como “Gladiador”, “A Emigrante”, “The Master – O Mentor”, “Nós Controlamos a Noite”, “Duplo Amor” e “Her – Uma História de Amor”, começou o discurso por um agradecimento. Ao contrário do que se poderia esperar, o “joker” de Todd Phillips não começou por agradecer nem ao júri do prémio pela distinção que lhe foi concedida nem ao realizador e restantes intervenientes do filme, mas sim à Imprensa Estrangeira de Hollywood por “reconhecer e mostrar que percebeu a relação entre a agricultura animal e as alterações climáticas”, organizando um jantar exclusivamente vegetariano para a cerimónia. “Envia uma mensagem forte”, prosseguiu.

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Logo a seguir, começou o vernáculo. Numa mensagem para os restantes nomeados para a categoria na qual venceu, veio o primeiro palavrão (de alguns), que obrigou a estação que transmitiu a cerimónia a cortar o som: “Todos sabemos que não há porra nenhuma de melhor ator”, atirou, para riso geral. Nas câmaras apareceu, aliás, o ator Adam Driver, aparentemente bem-disposto e apreciador da tirada de Phoenix. “É mais ou menos uma coisa [os prémios como os Globos de Ouro] criada para vender publicidade para programas de televisão. Vocês inspiram-me. Não consigo acreditar no trabalho lindo, hipnotizante e único que todos vocês fizeram este ano [2019]. Sei que as pessoas dizem isto mas sinto-me realmente honrado por ser mencionado ao vosso lado”, acrescentou.

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A alguns de vocês [outros nomeados] já me dirigi pessoalmente, por outros ainda me sinto demasiado intimidado, apesar de termos a mesma idade… olá, Christian [Bale], não estás aqui mas…”, apontou ainda.

Ao realizador Todd Philips, presente na cerimónia, Joaquin Phoenix dirigiu também um agradecimento: “Foste um amigo e colaborador tão incrível. Convenceste-me a fazer este filme, a dar tudo o que tinha e a ser sincero. E eu sou um chato da porra, não acredito que me aguentaste”.

Para terminar, uma mensagem político-social: “É muito bom ver pessoas enviarem os seus melhores sentimentos para a Austrália, mas temos de ser mais do que isso. É um gesto muito bonito [mas]… e eu não fui sempre um homem virtuoso, estou a aprender tanto e tantos de vocês nesta sala deram-me muitas oportunidades para tentar fazer as coisas bem. Por isso, estou extremamente agradecido. Mas espero que nos possamos juntar e provocar mudanças. É ótimo votar, mas às vezes temos de pôr a responsabilidade em nós e sermos nós a fazer mudanças e sacrifícios nas nossas próprias vidas. Espero que possamos fazê-lo. Não temos de viajar em jatos privados para Palm Springs, por exemplo. Vou tentar ser melhor e espero que vocês também o tentem. Obrigado por me aturarem.

Brad Pitt agradeceu a Tarantino e ao “parceiro no crime LDC”

Mais curto foi o discurso de Brad Pitt. O ator de 56 anos nascido em Shawnee, no estado de Oklahoma, que já tinha vencido um Óscar e dois Globos de Ouro antes de ser distinguido este domingo com um Globo de Melhor Ator Secundário por “Era Uma Vez em… Hollywood”, começou por agradecer ao realizador do filme, Quentin Tarantino, depois de uma pequena nota sobre os restantes nomeados para a categoria que venceu: “Quando comecei, nomes como os de [Al] Pacino, [Joe] Pesci, [Tom] Hanks e aquele que é o meu mentor, Sir Tony Hopkins, foram como deuses para mim. Sinto isto como uma honra. Têm todo o meu respeito e consideração”, dissera pouco antes.

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Brad Pitt e Tarantino já tinham trabalhado juntos em “Sacanas Sem Lei” (2009) e voltaram a fazê-lo agora, num filme que conta ainda com Leonardo DiCaprio, Margot Robbie, Timothy Olyphant e Emile Hirsch no elenco, entre outros. “Quero agradecer ‘ao homem’: Quentin Tarantino”, começou por dizer Brad Pitt, enfatizando a singularidade do realizador. Na plateia, Tarantino ergueu o copo que tinha na mão em jeito de brinde e Brad Pitt prosseguiu: “O homem, o mito, a lenda. Obrigado por esta experiência e pelo filme, que não vou esquecer. Obrigado meu irmão, estou mesmo agradecido”.

Também tenho de agradecer ao meu parceiro no crime, LDC [Leonardo DiCaprio]”, apontou com um sorriso na cara, logo prosseguindo: “Antes do ‘The Revenant: O Renascido’, costumava ver anos após anos os atores que trabalharam com ele subirem ao palco para os discursos de agradecimento. Agradeciam-lhe sempre vigorosamente. Sei porquê: porque é um all-star, um gentleman. Não estaria aqui sem ti, meu. Obrigado!”

O discurso terminou com uma piada sobre “Titanic”, filme do qual Leonardo Di Caprio foi protagonista: “Ainda assim, teria partilhado a embarcação”, disparou, para riso do colega.

Michelle Williams quer um mundo mais parecido com as mulheres

Vencedora de um Globo de Ouro na Categoria “Melhor Atriz Principal numa Série de Curta Televisão ou Filme para Televisão”, a atriz Michelle Williams, de 39 anos, subiu ao palco do hotel The Beverly Hilton, este domingo, para um dos discursos mais marcantes da cerimónia de este ano dos Globos de Ouro. O tema que a atriz da mini série “Fosse/Verdon” escolheu para abordar foi o da liberdade de escolha, fazendo referência aos direitos de escolha das mulheres quanto a temas como o aborto.

A atriz que já tinha feito um discurso forte e incisivo na última cerimónia dos prémios Emmy, começou por apelar, como nota a estação norte-americana CNN, ao voto das mulheres, pela importância que tem que estas não ignorem a hipótese de uma escolha que pode afetar as suas vidas.

Estou grata por reconhecer as escolhas que fiz [como atriz] e também estou grata por viver numa época em que na nossa sociedade a hipótese de escolha existe, porque enquanto mulheres e raparigas podem acontecer coisas com os nossos corpos que não escolhemos. Tentei viver toda a minha vida dirigindo-a eu. Em vez de a viver como uma série de coisas que me aconteceram, tentei que quando olhar para trás possa reconhecer a minha caligrafia ao longo da minha vida, por a ter esculpido eu mesma. Não teria sido capaz de fazer isto sem usar o direito de uma mulher a escolher“, referiu.

Michelle Williams sublinhou ainda que teve a hipótese de escolher “quando ter os meus filhos e com quem, quando me senti apoiada e capaz”. Acrescentou ainda: “Sei que as minhas escolhas podem ser diferentes das vossas, mas agradeço a Deus ou a quem quer que rezem por viver num país fundado com os princípios de que sou livre para viver a minha segundo as minhas crenças e vocês são livres para viver segundo as vossas. Portanto, para as mulheres dos 18 aos 118 anos: quando for altura de votar, por favor façam-no de acordo com os vossos interesses. É isso que os homens fazem há anos e é por isso que o mundo parece-se tanto com eles, mas não se esqueçam que somos [as mulheres] a maioria dos votantes neste país. Vamos lá tornar o mundo mais parecido connosco”.

Tom Hanks emotivo e choroso: “É o frio”

Foi dele o discurso mais emotivo da noite. Tom Hanks não venceu um Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Secundário — foi, tal como o foram Anthony Hopkins, Al Pacino e Joe Pesci, preterido por Brad Pitt — mas foi distinguido com um prémio honorário do galardão, o Cecil B. DeMille, que distingue mais um ator ou realizador pelo percurso de carreira do que por um filme ou série em específico.

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O ator, que já venceu oito Globos de Ouro e fez filmes como “Forrest Gump”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Big” e “Apanha-me Se Puderes”, agradeceu à família, deixando elogios à mulher e aos cinco filhos e mostrando-se grato por lhe permitirem estar fora durante “meses e meses e meses” a filmar. “Não consigo dizer-vos o quanto o vosso amor significa para mim”, referiu, lembrando também os cineastas e argumentistas com quem trabalhou, de Penny Marshall a Clint Eastwood. Sobre o segredo para fazer um bom filme, eis uma definição possível: “Tens de tentar juntar as peças todas, ter fé no que é o processo e fazê-lo”. Outro conselho a ter em conta: se és um ator e queres ter uma boa carreira, não te atrases, porque não é de somenos e há virtude no profissionalismo.

É o frio que está a provocar isto. Juro por Deus que não sou tão emotivo em casa”, chegou a dizer em palco, enquanto chorava, como nota o jornal The New York Times.

Incêndios na Austrália motivaram ausência de Russel Crowe

Não esteve presente na cerimónia, mas enviou uma declaração que foi lida por nem mais nem menos do que a atriz Jennifer Aniston. Russel Crowe venceu um Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Principal numa Série de Curta-Duração ou Filme Televisivo pela participação em “The Loudest Voice” e aproveitou para falar da situação dos incêndios na Austrália, que já queimaram mais de 8 milhões de hectares, destruíram centenas de casas e provocaram 23 mortes.

Crowe, que nasceu na Nova Zelândia mas viveu quase toda a vida na Austrália, esteve ausente porque está junto da família a tentar preparar-se para a evolução dos incêndios na Austrália. Na sua declaração, lida por Jennifer Aniston, escreveu: “Não tenham dúvidas: esta tragédia que está a acontecer na Austrália deve-se às alterações climáticas. Precisamos de agir considerando a ciência, precisamos de mudar a nossa força de trabalho global para energias renováveis e temos de respeitar o nosso planeta, que é único e maravilhoso, de modo a que haja futuro para todos nós”.

O prémio de Russel Crowe foi apresentado por Cate Blanchett, atriz de origem australiana que também quis falar sobre o assunto: “Há muitos australianos nesta sala esta noite. Sei que estamos todos gratos pelas mensagens de reconhecimento aos nossos compatriotas que estão a sofrer com os incêndios florestais, portanto obrigado. Queria enviar uma mensagem de especial agradecimento aos bombeiros voluntários que têm estado no centro do combate a este desastre climático que está a afetar a Austrália. E, claro, quando um país enfrenta um desastre climáticas, todos nós estamos a enfrentá-lo. Estamos nisto juntos. Portanto, obrigado”, referiu, segundo o jornal The Guardian.

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Patricia Arquette fala de um país “à beira da guerra” e critica Trump

Já a atriz Patricia Arquette, que foi distinguida como Melhor Atriz Secundária num Filme Televisivo ou Série de Curta Duração pelo seu papel em “The Act”, aproveitou a cerimónia e o discurso de agradecimento para falar da tensão atual entre Estados Unidos da América e Irão.

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Crítica reconhecida da presidência de Donald Trump, Arquette afirmou no palco, citada pela CNN: “Estou muito grata por estar aqui e por celebrar isto mas também sei que esta noite, 5 de janeiro de 2020, não vai ser recordada futuramente… nos livros de história recordaremos isto como o período de um país à beira da guerra. Nos Estados Unidos da América, temos um presidente a tweetar uma ameaça de 52 bombas para edifícios culturais. Há jovens a arriscar as suas vidas a viajar pelo mundo e há pessoas que não sabem se as bombas vão cair na cabeça dos seus filhos. E temos o continente australiano em chamas”.

Portanto, por amar muito os meus filhos, imploro a todos para que lhes demos um mundo melhor. Pelas nossas crianças e pelas crianças dos outros, temos de votar em 2020 e convencer toda a gente que conheçamos a votar em 2020. Obrigado”, referiu ainda.