A fuga do Japão de Carlos Ghosn, antigo presidente do conselho de administração e presidente executivo do grupo Nissan e da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, que está acusado de uma fraude de milhões, passou por um comboio de alta velocidade, também conhecido como “bala”. Como conta o The Guardian, citando o canal nipónico Nippon Television Network, o governo japonês revelou mais pormenores da fuga à justiça ao mesmo tempo que afirma que vai melhorar o controlo de fronteiras.

Ghosn, de 65 anos, fugiu do Japão nos últimos dias de 2019, país onde enfrentava várias acusações de fraude. O antigo líder da Nissan estava proibido de sair do Japão mas conseguiu entrar num comboio da Shinkansen, a rede de comboios de alta velocidade que faz ligações dentro do arquipélago. Saiu na estação de Osaka, pelas 19h30 locais, onde apanhou um táxi para o aeroporto de Kansai.

É na parte da chegada ao aeroporto que as autoridades japonesas demonstram uma da maiores lacunas de segurança que podia ter impedido a fuga de Ghosn. Como se presume que o antigo gestor fugiu num jato privado para Istambul, de onde trocou de avião e continuou para Beirute, as malas não foram revistas.

Masako Mori, ministra da Justiça do Japão assume que não têm registos da saída de Ghosn porque a revista às malas é apenas “uma conduta obrigatória para os operadores de companhias aéreas”. Razão? Teoricamente há menos risco de bombas e sequestros de aviões em jatos privados, tentou justificar o mesmo ministério.

O antigo líder da Nissan tem nacionalidade francesa, brasileira e libanesa. Segundo a AFP, terá sido com um passaporte francês que entrou no Líbano. Este documento não tinha sido confiscado pelas autoridades japonesas sob justificação e que Ghosn podia precisar dele para viajar dentro do Japão.

Carlos Ghosn continua a negar ter incorrido em fraude e, esta semana, prometeu dar uma conferência de imprensa em Beirute para contar a sua versão do sucedido. O Japão continua a investigar a fuga do ex-executivo.

O empresário foi detido pela primeira vez em novembro de 2018, por suspeitas de fraude fiscal e uso de dinheiro e recursos da empresa para fins pessoais, na sequência de uma investigação ao grupo Nissan Renault que já durava havia meses.

Em março deste ano, foi libertado após pagar uma fiança de perto de 8 milhões de euros, a mais alta alguma vez aplicada no Japão. Porém, em abril, voltou a ser detido, por alegadamente ter desviado 4,4 milhões de euros do grupo. Ghosn foi libertado sob fiança nesse mês e também a prisão domiciliária foi levantada este ano. Porém, estava obrigado a permanecer em território japonês até ao julgamento.

A ministra da Justiça japonesa assegurou neste domingo que o país vai tomar “as medidas necessárias” para que o ex-presidente da Nissan seja julgado no Japão, na primeira reação do Governo nipónico à fuga de Carlos Ghosn.

“O sistema judicial japonês conta com procedimentos adequados para estabelecer a verdade (…) garantido os direitos humanos básicos”, declarou, em comunicado, Masako Mori. Os advogados e a família de Carlos Ghosn têm sido bastante críticos quanto às condições da detenção do empresário, bem como a forma como a justiça nipónica tem gerido os procedimentos deste caso.

A Interpol já emitiu um alerta encarnado para a detenção de Ghosn.

*Notícia corrigida às 12h03. A Shinkansen é a propriedade da Japan Railways Group e responsável pela rede de comboios de alta velocidade no Japão.