Uma equipa de astrónomos descobriu a origem de um elemento essencial à vida como a conhecemos na Terra — o fósforo. Quatro mil milhões de anos depois de a vida ter aparecido no nosso planeta, os cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA) e do Observatório ALMA, no Atacama, descobriram que o fósforo forma-se nos berços das grandes estrelas do universo. E que chegou à Terra após uma viagem interestelar à boleia dos cometas.

Esta descoberta fortalece a ideia de que a vida pode não existir apenas no nosso planeta, mas também noutros corpos celestes. Tal como muitos dos componentes essenciais à vida chegaram à Terra à boleia dos cometas, também é possível — e provável — que eles tenham deixado componentes orgânicos noutros corpos celestes, deixando por lá os ingredientes necessários para a vida surgir além da Terra.

Sem o fósforo, a vida como a conhecemos não existia. Este elemento entra na composição da cadeia de ADN, uma molécula guardada no núcleo das células e que arquiva em si todas as informações de um indivíduo; e integra também as membranas que envolvem as células para manterem a sua integridade. Tudo isso já se sabia. O que não se sabia era de onde veio e como acabou por surgir na Terra. Até agora.

Dois instrumentos estiveram envolvidos nesta descoberta. O primeiro a entrar em ação foi o Atacama Large Millimeter Array, mais conhecido por ALMA, um observatório no deserto chileno do Atacama com 66 antenas que estuda as profundezas do espaço. Foi graças a ele que, no ano passado, se conseguiu captar a primeira imagem do horizonte de acontecimentos de um buraco negro — o ponto a partir do qual nada, nem mesmo a luz, lhe pode escapar.

O Observatório ALMA, que já fotografou um buraco negro, esteve envolvido na descoberta. Créditos: AOS/ALMA/Getty Images

Desta vez, o ALMA olhou para uma região do espaço que é um berço de estrelas massivas chamado AFGl 5142, na constelação de Auriga. E encontrou uma estrela muito brilhante, nascida há pouco tempo, rodeada por uma densa nuvem de gases e poeiras.

A região do espaço onde fica AFGL 5142. Créditos: ESO/Digitized Sky Survey 2. Ackn

Ao analisarem esse material, os cientistas descobriram que, quando a estrela recém-nascida emite correntes de gás para o espaço, abre cavidades na nuvem em redor dela. Depois, os choques entre as partículas e a radiação emitida pela estrela fazem com que, nas paredes dessas cavidades, se formem moléculas ricas em fósforo, como o monóxido de fósforo.

Ora, isso explica como é que o fósforo surge no universo, mas não responde à pergunta que movia os cientistas, desde os astrónomos aos biólogos: como é que esse elemento, tão essencial à vida como a conhecemos, veio parar à Terra? Para responder a essa pergunta, entrou em cena a Rosetta, uma sonda da ESA que está há dois anos a orbitar o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, a uma distância da Terra três vezes maior do que a que nos separa do Sol.

O cometa 67P fotografado pela sonda Rosetta da ESA. Créditos: ESA/Rosetta/NAVCAM

Os dados enviados pela sonda Rosetta para a Terra comprovaram a existência de monóxido de fósforo neste cometa do Sistema Solar. Tal como as primeiras moléculas de água chegaram ao nosso planeta a bordo de corpos celestes que colidiram com a Terra nos primórdios do Sistema Solar, o mesmo aconteceu com o fósforo.

Ou seja, quando as cavidades das nuvens onde as estrelas maiores nascem colapsam para formar novos astros, as moléculas de monóxido de fósforo congelam e ficam presas em grãos de pó em redor da nova estrela. A certa altura, essas partículas começam a unir-se e transformam-se em cometas que, graças ao turbilhão de choques que ocorre quando um sistema estelar nasce, podem viajar até ao espaço interestelar como 1I/Oumuamua ou 2I/Borisov fizeram.

No entanto, ao longo dessa viagem interestelar, alguns cometas entram em rota de colisão com outros corpos celestes. No caso da Terra, um cometa vindo de um desses mundos distantes acabou por colidir com o nosso planeta, acabando por deixar por cá as moléculas ricas em fósforo que, milhões de anos mais tarde, viriam a ser um dos tijolos da vida.

Em declarações oficiais, Víctor Ravilla, autor principal deste estudo, explica a importância desta descoberta: “A vida apareceu na Terra há quatro mil milhões de anos, mas ainda não sabemos os processos que permitiram que ela acontecesse. O nosso estudo comprova que o monóxido de fósforo é uma peça-chave no puzzle da origem da vida”.

Kathrin Altwegg, outra autora desta investigação, acrescenta: “O fósforo é essencial à vida como a conheemos. Os cometas entregaram grandes quantidades de compostos orgânicos à Terra e o monóxido de fósforo encontrado no cometa 67P pode fortalecer essa ligação entre os cometas e a vida na Terra”.