Omertà. No sul de Itália, omertà representa um código de silêncio e de honra. Foi criado, impulsionado e engrossado nas organizações criminosas da região, na sua maioria associadas à máfia: omertà era, é, manter o silêncio no contacto com autoridades ou pessoas de fora do grupo, não cooperar com polícia ou governo, e intencionalmente ignorar e evitar as atividades criminosas de outrém.

Omertà foi também a palavra escolhida pelo L’Équipe para, no final de janeiro, publicar uma longa investigação que explodiu como uma bomba no desporto francês. “O fim da omertà”, o fim do silêncio, o fim do segredo, foi o título da reportagem que há algumas semanas revelou um escândalo de abusos sexuais no cerne da patinagem artística francesa no final do século passado. Com ligações à natação e ao ténis, acabaram por ser as histórias da patinagem a ecoar na atualidade do país: não só porque as vítimas dão a cara, não só porque nomeiam sem ressalvas o agressor mas também pelas semelhanças com o escândalo que há poucos anos fez manchetes no mundo inteiro.

Gilles Beyer, que foi também ele patinador e depois seguiu carreira como treinador, é um dos principais visados nas acusações

Entre 2017 e 2018, Larry Nassar foi condenado a mais de 175 anos de prisão pelo abuso sexual continuado de centenas de jovens ginastas norte-americanas. Ao longo de mais de 20 anos, o antigo médico da equipa olímpica de ginástica dos Estados Unidos abusou de crianças e adolescentes, de nomes como Simone Biles ou Aly Raisman, e tornou-se um alerta para o mundo inteiro. De repente, era possível existir um Larry Nassar em todos os países, em todas as modalidades, em todas as equipas desportivas — e essa ideia era aterrorizadora. Em França, algumas atletas juntaram-se então para revelar que o Larry Nassar delas apareceu ainda no século passado.

A reportagem do L’Équipe inclui então os testemunhos de quatro patinadoras que acusam três treinadores — Gilles Beyer, Jean-Roland Racle e Michel Lotz — de abuso sexual e violação quando ainda eram menores, nas décadas de 70, 80 e 90. Se os dois últimos já negaram as acusações e recusaram acrescentar comentários, o primeiro já garantiu que só fala em tribunal. Até porque, para Gilles Beyer, a história não é nova, as acusações não são inéditas e os pormenores são incriminatórios. O antigo patinador, ele próprio campeão nacional francês nos anos 70, é acusado por Sarah Abitbol e Hélène Godard de ser um predador sexual e de as ter violado repetidamente durante vários anos. As acusações subiram de tom já esta semana, altura em que Abitbol publicou o livro “Um Tão Longo Silêncio”, onde revela tudo aquilo por que passou quando era ainda adolescente.

Sarah Abitbol é uma das melhores patinadoras francesas de sempre e foi medalha de bronze nos Mundiais de 2000

“Foi a primeira vez que um homem me tocou. Durante dois anos, tu dizias à minha mãe: ‘Hoje vou ser babysitter da Sarah para podermos treinar’. E violaste-me no parque de estacionamento, nos balneários e em recantos da pista de gelo que nunca suspeitei que existissem”, revelou a antiga patinadora, agora com 44 anos, numa entrevista ao L’Obs, por ocasião da publicação do livro. Sarah Abitbol, uma das melhores de sempre da patinagem artística francesa, foi campeã nacional dez vezes e acusa Gilles Beyer de a ter violado várias vezes entre 1990 e 1992, altura em que ela tinha 15 anos e ele tinha 35. No livro, Abitbol refere-se ao treinador como “Senhor O”, alegando não querer nomear Beyer porque os crimes já perscreveram. Beyer, contudo, já confirmou que manteve relações sexuais com a patinadora, ainda que alegue que tenham sido consensuais, e reconhece que foram “impróprias” tendo em conta a diferença de idades e o cargo que mantinha.

Este tipo de alegações contra Gilles Beyer, porém, não é propriamente uma novidade. Em 2000, há 20 anos, a também treinadora Didier Lucine escreveu uma carta à Federação Francesa de Desportos no Gelo onde expunha “preocupação” sobre a forma como Beyer se comportava junto das jovens atletas. Um primeiro inquérito conduzido pelo Ministério do Desporto terminou sem conclusões e só um segundo (motivado por uma queixa apresentada pelos pais de uma patinadora) acabou por suspender o treinador das funções de diretor das seleções francesas e técnico nacional de patinagem artística, que na altura acumulava. Contudo, e de acordo com a investigação do L’Équipe, Gilles Beyer permaneceu próximo da Federação de Patinagem — cujo presidente, Didier Gailhaguet, acabou por pedir a demissão depois de recusar comentar o caso numa primeira instância, justificando a decisão com a necessidade de criar “espírito de conciliação”. Entretanto, o Ministério Público francês já abriu uma investigação.

Sarah Abitbol, que entretanto já foi convidada por Brigitte Macron, primeira-dama francesa, para se encontrarem no Eliseu, revelou ainda que denunciou o treinador ao então ministro do Desporto na altura em que terminou a carreira. Jean-François Lamour, o ministro à altura, terá respondido: “Sim, temos um arquivo sobre ele, mas vamos fechar os olhos”. “Entendi que tinha pela frente um silêncio organizado. Basicamente todos me disseram: ‘Tome os medicamentos e fique quieta!’. E eu obedeci. Tomei os medicamentos e fiquei em silêncio. Mas porque é que ele vive tranquilo no ringue de patinagem e eu ainda hoje sofro, aos 44 anos? Os antidepressivos e os ansiolíticos continuam a ser fiéis companheiros mas no meu íntimo não vivo nem respiro”, disse a antiga patinadora. Em resposta, o antigo ministro Jean-François Lamour garantiu não se recordar da conversa em questão.