Foi Julie quem descobriu José. Enviou um e-mail e teve logo resposta. Sim, podia vir acompanhar o trabalho na marcenaria. E lá ia, a seguir às aulas, aprender com o mestre José Reis, dono de artes e segredos da madeira. Foram quase três anos de conhecimento, de conselhos, de trabalho conjunto em que ambos trocaram lições entre as aparas, o corte, o encaixe da madeira. Julie trazia o saber académico da arte contemporânea e design, “os desenhos”; José, as mãos calejadas de quatro décadas de experiência como artesão.

Um e outro ganharam, e, foi neste intercâmbio entre as raízes do ofício e a contemporaneidade que Julie Cambier decidiu lançar a FEIT Design, a marca 100% portuguesa que une o design moderno ao passado das antigas carpintarias lisboetas, e que está prestes a estrear o showroom, na Penha de França, que deverá abrir portas entre 25 e 27 de março.

Juntamente com o marido Pedro Sousa, arquiteto, a FEIT Design honra o legado dos antigos marceneiros e fá-lo reviver em peças de design com um toque minimalista. O resultado são móveis funcionais, versáteis e duradouros, em materiais naturais e simples, numa fusão de saber entre duas gerações no resgate da experiência dos antigos marceneiros da cidade.

Para o quarto dos miúdos (ou menos miúdos), os módulos, a partir de 130 euros, outra das criações da FEIT Design © DR

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Mas a história da FEIT não começa em Lisboa. Foi em Viena de Áustria, onde Julie esteve a trabalhar, que conheceu mais a fundo o trabalho de carpintaria quando andava à procura de um móvel de cozinha. Ainda assim, os contraplacados em abundância não lhe encheram as medidas. Precisava de ir mais a fundo. À saída da capital austríaca, quis dar continuidade à sua paixão, ao fascínio pela estética de encaixe, pelas estruturas básicas, primárias e mais resistentes. Surgiram Milão e Lisboa na pesquisa e a capital portuguesa foi a opção. Em paralelo com os estudos na Lisbon School of Design, procurou o saber genuíno nas tábuas da Marcenaria 55, em São Vicente de Fora. O nome do mestre José Reis apareceu na Rede de Carpintarias de Lisboa, a plataforma online de reabilitação da cultura das oficinas locais que não pode morrer com a cidade.

Lixar, carregar, afagar, cortar, encaixar, era tudo o que Julie queria fazer ao lado de quem respira o ofício desde tenra idade. Sem pregos nem parafusos, o trabalho é feito por encaixe, como antigamente. Chegaram a fazer peças juntos, e Julie assegura que se tiver dúvidas, ainda hoje, é para o “professor” que liga.

Uma possibilidade para o aparador, a partir de 2750 euros  © DR

Já José Reis, 55 anos, conta ao Observador que a sua disponibilidade foi imediata e que também ele aprendeu muito com a designer. “Ela aparecia cá nas horas vagas e metia mãos à obra, juntamente com os meus filhos que seguiram a minha profissão. Nesse momento, éramos todos iguais, todos carpinteiros”, recorda.

Foi o avô de Fornos de Algodres, Viseu, que lhe passou o gosto pela madeira. Quando chegou a Lisboa, já sabia o que queria fazer quando acabasse a quarta classe. Aprendeu a ser marceneiro em lugares históricos como a firma Galeano e outros, “havia muitas na zona da Feira da Ladra”. Em outubro, fará 43 anos de profissão, mas já esvaziou a oficina para se mudar para Camarate. “Tive de sair, esta zona está a ficar muito cara e não querem que fiquemos aqui a chatear”, revela, com alguma tristeza, já que trabalho não lhe falta.

O resultado final do berço NINA, em carvalho ou freixo, que depois ainda se transforma numa mesa para desenhar, pintar, ou um dia fazer os trabalhos de casa, à esquerda na imagem. Ronda os 1600 euros © DR

A sua especialidade são cadeiras e cadeirões, chega a fazer encomendas para famílias inteiras, pais, avós, tios, amigos. “O preço é outro mas a grande diferença é que duram uma vida, a pessoa compra Ikea e dura pouco tempo, mas continuo a ter muita procura e dei a enxada aos meus filhos, cada um tem a sua empresa neste ramo”, revela.

E se as fotografias das peças FEIT remetem para o minimalismo e design escandinavo, há ali muito de marcenaria portuguesa. O berço NINA, em carvalho ou freixo, por exemplo, transforma-se numa mesa para desenhar e pintar, e depois, mais tarde, para fazer os trabalhos de casa. “Queremos que as nossas peças continuem por várias gerações, que fiquem na vida das pessoas”, diz Julie que entretanto teve um rapaz e duas gémeas no espaço de pouco tempo. José não resiste à piada. “Brincávamos que era da água da oficina, também os meus filhos tiveram casais de gémeos quando estávamos lá todos a trabalhar”, satiriza.

As prateleiras, desde 350 euros © DR

Os produtos são desenhados em Lisboa, e, produzidos em Paços de Ferreira, não sem antes testar os protótipos na vida familiar, dentro de quatro paredes, onde os três filhos pequenos de Julie e Pedro lhes reservam inspiração para pensar em móveis com utilidade para crianças. Mas há mais apelo à versatilidade. O aparador S*2 tem portas deslizantes, que podem ser removidas, tanto na parte da frente como na parte de trás, podendo o compartimento interior ser acedido por ambos os lados. Enquanto não abre o showroom, pode espreitar as peças já finalizadas na morada online.

Nome: FEIT Design

Preços desde 130€