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Que Ole Gunnar Solskjaer é um fã confesso de Bruno Fernandes, já não é surpresa para ninguém. Que Ole Gunnar Solskjaer confia em Bruno Fernandes para ser titular e um dos elementos centrais do Manchester United, já não é novidade. O que o treinador norueguês ainda não feito, pelo menos de forma tão direta, era comparar o jogador português a um dos melhores de sempre do clube inglês. A um jogador que é considerado um dos melhores da história da Premier League pelos próprios pares, que fez parte da geração dos irmãos Neville, de Beckham e Giggs, e que ainda hoje é uma das vozes mais respeitadas no círculo do Manchester United.

“Ele lembra-me do Scholes a jogar. Ainda que tenha um tipo de personalidade diferente fora de campo. Contra o Club Brugge, quando estava no banco, andou por ali, falou com os jogadores que eram titulares, ajudou-os, deu-lhes dicas. E, durante os 10 minutos que jogou, notou-se uma diferença na equipa. É um condutor, um líder e um vencedor. Quer ganhar. Não leva 99% de esforço como bom o suficiente e já me impressionou. É algo que se nota quando o vemos jogar mas que não conhecemos mesmo até o termos no grupo. Tem sido de primeira classe”, disse Solskjaer esta semana, na antevisão da receção do Manchester United ao Watford, comparando então Bruno Fernandes a Paul Scholes, que ao longo de 20 anos em Old Trafford conquistou 11 vezes a Premier League.

Este domingo, o médio português voltava ao onze do Manchester United depois de ter sido suplente durante 80 minutos a meio da semana, no jogo da Liga Europa contra o Club Brugge: Bruno Fernandes entrou a 10 minutos do apito final, para o lugar de Diogo Dalot, ainda rematou quatro vezes mas não conseguiu evitar o empate dos red devils com os belgas. De regresso à Premier League, contra o Watford, o Manchester United tinha a oportunidade de aproveitar a derrota do Tottenham de José Mourinho com o Chelsea e subir ao quinto lugar em caso de vitória, entrando em zona de acesso às competições europeias.

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Para além do regresso de Bruno Fernandes ao onze, a grande novidade na equipa era a reintegração de McTominay na convocatória, médio escocês que tem estado afastado dos relvados por lesão e que muita falta tem feito no meio-campo do United. A equipa de Solskjaer tentava então continuar uma série de cinco jogos seguidos sem perder, cujo ponto alto foi a vitória em Stamford Bridge contra o Chelsea na segunda-feira: contudo, foi o Watford a entrar mais perigoso, ainda que com menos bola, e Troy Deeney e Doucouré podiam ter inaugurado o marcador ainda dentro do primeiro quarto de hora (4′ e 13′). Wan-Bissaka respondeu com a primeira oportunidade do Manchester United, numa recarga que saiu à malha lateral (17′), mas a superioridade dos red devils a nível posicional e de posse não estava a ter resultados no último terço adversário.

Na antevisão da receção ao Watford, Ole Gunnar Solskjaer comparou Bruno Fernandes a Paul Scholes

O jogo pedia um Manchester United dominante e que pegasse no destino da partida com mão de ferro — algo que a equipa de Solskjaer tentava fazer, muito por imposição do Watford — mas os red devils não conseguiam esconder que se sentiam desconfortáveis nessa posição. O jogo atual do Manchester United passa pelas acelerações a partir do meio-campo, pelas transições rápidas, pelas movimentações com poucos passes: e foi precisamente assim que acabou por estar mais perto de marcar, por Martial (28′) e Fred (38′). O momento pelo qual Old Trafford esperava desde o último dia de janeiro, o momento pelo qual muitos adeptos portugueses esperavam desde o último dia de janeiro, o momento pelo qual Bruno Fernandes esperava desde o último dia de janeiro, apareceu pouco antes do intervalo — e apareceu precisamente na sequência de uma dessas transições rápidas do Manchester United.

Daniel James lançou Bruno Fernandes na ala esquerda e o jogador português acabou por ser derrubado em falta no interior da grande área pelo guarda-redes Ben Foster. Enquanto Bruno Fernandes ainda festejava a grande penalidade conquistada, a cobrança do castigo máximo foi-lhe oferecida, num pormenor que volta a deixar claro a importância que Solskjaer quer que o português tenha na equipa. Na conversão, sem qualquer hipótese para Ben Foster, Bruno Fernandes estreou-se a marcar pelo Manchester United e colocou a equipa a ganhar em casa contra o Watford (42′).

Na ida para o intervalo, subsistia a ideia de que Bruno Fernandes tinha sido recompensado pelo facto de ter sido inegavelmente o elemento mais inconformado de um Manchester United com poucos recursos para chegar à baliza adversária. Na segunda parte, Troy Deeney empatou para o Watford num lance onde a defesa dos red devils ficou mal na fotografia mas o golo foi anulado porque Dawson desviou a bola com o braço (52′). O jogo perdeu algumas características e tornou-se mais partido, com o Manchester United a oferecer a preponderância da iniciativa ao adversário para poder atuar em contra-ataque e transição, o modelo que oferece mais confiança e segurança à equipa de Solskjaer. Foi assim, numa jogada rápida e com poucos passes, que o United acabou por aumentar a vantagem.

Bruno Fernandes — cuja liberdade na zona atrás de Martial é óbvia, com o jogador português a aparecer juntos aos dois corredores e na faixa central — surgiu tombado na esquerda e fez um passe vertical para a grande área. Martial dominou, quase perdeu pela linha final, recuperou e acabou por marcar através de um brilhante pormenor individual (58′). Até ao fim, o jogador português ainda ia somar mais uma assistência à conta pessoal, ao fazer o último passe para um grande remate de Mason Greenwood, depois de uma boa arrancada do jovem formado no Manchester United (75′).

Com a estreia a marcar e duas assistências, Bruno Fernandes foi o elemento em destaque na vitória do Manchester United sobre o Watford que garantiu a subida da equipa de Solskjaer ao quinto lugar, que vale o apuramento para a Liga Europa e que pode, em caso de se confirmar o castigo ao Manchester City, valer mesmo a qualificação para a Liga dos Campeões da próxima temporada.