Mário Centeno diz que “a decisão” sobre se vai ou não para o Banco de Portugal “vai ser tomada a seu tempo, pelo Governo, e nessa altura seguramente o Governo explicará”. Mas garante, em entrevista à revista Visão publicada nesta quinta-feira, que não costuma “sofrer de ansiedade com coisas que vão aparecer várias semanas ou meses à frente na agenda”.

O ministro das Finanças ironiza com os “verdadeiros agentes de colocação no mercado, sempre muito preocupados com o futuro laboral do agora ministro das Finanças” e não abre o jogo sobre o seu interesse em passar do Terreiro do Paço para a Rua do Comércio. “Do ponto de vista do Governo, não houve conversas sobre essa matéria”, mas “a pergunta tem sido feita nos últimos quatro anos muitas vezes, a maior parte delas por boas razões”, mas “não é o momento de fazer essa reflexão, porque a questão não se coloca neste momento político, no Governo ou no Eurogrupo”.

Para que isto não tenha outra interpretação que não estatística, na política, e no cargo que desempenho, quer como presidente do Eurogrupo quer como ministro das Finanças, nós não somos, nós estamos. E mantenho-me focado nas minhas tarefas, que são exigentes mas das quais não me queixo. Mas também percebo a necessidade de olhar para os tempos políticos, na análise política…”

Na entrevista à Visão, Mário Centeno acabou, porém, por traçar um perfil do próximo governador do Banco de Portugal que corresponde ao seu. “É muito interessante quando se diz que o governador do BdP tem de ser um técnico. Não, não! O governador do Banco de Portugal é um ator político da maior relevância. Conduz as políticas macroprudenciais, as políticas comportamentais, as políticas de supervisão, e depois participa na definição da política momentária do BCE. Já viu a quantidade de vezes que eu disse a palavra política? O senhor ministro está a desenhar o seu próprio perfil. Não, não estou. O meu perfil é de ministro das Finanças, nesta altura”, afirma Mário Centeno.

Sobre o trabalho nas Finanças, nos últimos cinco anos, Mário Centeno argumenta que o Governo que integra fez “com que passasse a ser normal cumprir os objetivos orçamentais, acertar nas previsões macroeconómicas, ou até a ser superado pela realidade, e isso não é por acaso, não é por causa do BCE, nem é por sorte”.

Sobre a política de cativações, Mário Centeno repete que estas “nunca existiram na Saúde”. “Mas temos de ter noção de uma coisa: sem recursos financeiros, não há contratações. E sem controlo financeiro, o País corre o risco de voltar à má experiência que teve. nos organismos onde agora se introduziu o fim das cativações, já não havia
praticamente nenhumas”.

Mas, questionado sobre o facto de outros países comparáveis a Portugal estarem com taxas de crescimento mais elevadas, Mário Centeno diz que “a situação das economias do Centro e do Leste europeu, do ponto de vista do endividamento público e privado, é muito distinta e explica, em larga medida, as diferenças entre o seu crescimento e o da economia portuguesa”. “Estamos a fazer o nosso trabalho na redução dos desequilíbrios e a colocar a economia portuguesa em novos patamares de crescimento”, afirma, destacando que “o excedente orçamental é o melhor investimento nas novas gerações”.