As taxas de juro em mínimos históricos, no mercado de dívida (que têm permitido a Portugal poupanças orçamentais decisivas) “não são por causa do BCE” — são consequência, argumenta o ministro das Finanças, Mário Centeno, da “credibilidade orçamental” que Portugal ganhou “desde 2016” e por estar a atingir contas públicas “equilibradas”.

A declaração foi feita numa conferência organizada pela Ordem dos Economistas, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. “A redução consistente nos juros pagos é um reflexo estrutural daquilo que acontece neste momento em Portugal”, defendeu Mário Centeno.

“Os nossos juros caíram mais do que em todas as outras economias da área do euro com exceção da Eslovénia. Em todas as outras economias, a percentagem de despesa com juros caiu menos do que Portugal”, afirma Mário Centeno, acrescentando que “Portugal lidera o esmagamento dos diferenciais na zona euro”. E “isto não é por causa do BCE, isto é por causa da política orçamental e da credibilidade, por termos, depois de 40 anos [em que não foi assim, diz Centeno] termos cumprido todos os anos e a cada um dos anos os objetivos orçamentais”.

O excedente [orçamental] é o maior tributo que podemos fazer às gerações futuras, de que não estamos a consumir à custa delas”.

Mário Centeno argumentou, também, que a recuperação económica não se baseia no consumo público “já não é um motor de crescimento”, porque este “cresce menos do que o PIB”.

“O que move o PIB em Portugal é o setor privado, os seus investimentos e o seu sucesso estrondoso num contexto difícil que tem havido no comércio internacional, com guerras comerciais lançadas através do Twitter”, elogiou o ministro das Finanças.

Mário Centeno voltou, também, a insurgir-se contra o discurso da oposição sobre a carga fiscal mais elevada de sempre: “como é possível que se fale em carga fiscal usando um indicador que inclui contribuições sociais? Impostos são impostos, contribuições são contribuições”. O ministro das Finanças advoga que houve, nos últimos anos, um aumento “absolutamente extraordinário do emprego e dos salários em Portugal”.

Elogios à equipa. Do MIT a Harvard, passando pelo Illinois, ISEG e Coimbra

No final do seu discurso, Mário Centeno deixou um elogio à sua equipa, com um travo a despedida e gosto a outro sabor, como na letra dos Rádio Macau.

“Que aproveitar esta oportunidade para, mais uma vez, reforçar uma ideia que as qualificações e a coesão da equipa do ministério das Finanças ao longo destes últimos anos tem sido um dos segredos – no início bem guardados – do sucesso dos resultados alcançados”, disse Centeno, que tem surgido nas notícias como podendo estar de saída da tutela em julho, quando acabar o seu mandato à frente do Eurogrupo.

“Na verdade, nunca antes Harvard [a universidade em que se formou o próprio ministro) e o MIT [a do secretário de Estado João Leão) tinham estado ao mesmo tempo no ministério das Finanças e, ao contrário da tradição, no Ministério das Finanças dão-se bastante bem”, sublinhou. “Depois temos mais um pouquinho do Illinois [a escola de António Novo], do Quelhas [uma referência ao ISEG, onde se formou Mourinho Félix] e também a inevitável Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra [Mendonça Mendes]”.

“São o melhor do capital humano que Portugal forma, do melhor que Portugal tem. (…) Na verdade é aos secretários de Estado da minha equipa que se deve o primor das execuções  orçamentais que temos assistido”, disse ainda Centeno.  Ainda antes deste elogio formal à sua equipa – perante uma sala completa de convidados da Ordem dos Economistas – Mário Centeno tinha batido noutra tecla: a do cansaço que sente quem está sempre a cumprir. Mas neste caso, no entanto, referia-se em termos genéricos ao país inteiro, não à sua equipa em particular.

É um sentimento que também o ministro tenta combater, disse Centeno. “O sentimento de algum cansaço interior. A ideia de que, como cumprimos [enquanto país], isto torna-se uma coisa maçadora”, disse o ministro.

Mário Centeno tem sido apontado como o próximo homem a ocupar a cadeira do governador do Banco de Portugal, agendado para falar nesta mesma conferência, à tarde. Mas Carlos Costa, afinal, não virá.