A três passos da movimentada estação de Oxford Circus, a mais central do centro de Londres, o Glow Bar encarna perfeitamente o espírito dos millennials, esta geração que compra um bloco de notas prensado à mão no Japão para fazer uma lista de todas as coisas que não vai conseguir fazer. Eu, millennial, me acuso.

O espaço é famoso pela sauna de infra-vermelhos, Moon Milk (uma bebida feita de leite quente com especiarias e ervas em cores pastel), e taças de pitaia — o açaí já era. Como indica no mote “Ancient Healing for Modern Living”, o Glow Bar dedica-se ao bem-estar ao mesmo tempo que parece ter sido criado especialmente para selfies com tostas de abacate e chávenas com a espuma cor de rosa de um Moon Milk em bases de cristais de quartzo. Não admira portanto que este tenha sido o lugar que escolhemos para experimentar uma das mais recentes modas na fortíssima onda do wellbeing, capaz de promover a capital britânica a “hub europeu do CBD”.

O acrónimo CBD substitui a bem mais complicada Canabidiol, palavra que deixa logo bem clara a relação com o clã Cannabis Sativa. Tanto o cânhamo como a marijuana são plantas da família da Cannabis Sativa, mas apesar desta proximidade, as plantas têm propriedades diferentes. O Canabidiol é maioritariamente retirado da planta do cânhamo onde os níveis de Tetrahidrocanabinol (THC), a substância responsável pelos efeitos psicoativos, são extremamente baixos (0.2%). Por outras palavras, ninguém fica pedrado com cânhamo.

O Glow Bar é uma empresa de bem estar dirigida ao público feminino criada por Sasha Sabapathy, ex-planeadora de marcas, atual chef, que passou a sua vida entre a Malásia, Londres e Nova Iorque. © Glow Bar

Por sete euros e vinte, pagamos o café com CBD e um petisco, Cookie Dough com CBD, literalmente uma bola de massa de bolo supostamente imbuída com o óleo de canabidiol. “O que é que é suposto o CBD fazer? Relaxar-me?”, pergunto à barista de cabelo cor-de-rosa e pele resplandecente depois de ver um desenho de cannabis ao pé da comida. “Sim, mas também é um poderoso anti-inflamatório. É um ingrediente muito saudável de maneira geral”, responde.

Quando a espuma começa a dissipar, tornam-se notórias as gotas verdes a boiar no meu café. Até de olhos fechados saberia que estavam lá porque assim que bebo da chávena há um sabor amargo e intenso de erva. Não é agradável. Porque é que alguém quereria pagar – e bem! – para ter um shot de CBD adicionado ao seu café?

O CBD é para quê?

A julgar pela variedade e abundância de produtos, o CBD é para tudo e mais alguma coisa. Nos EUA, a febre do CBD já tinha levado o Washington Post a perguntar num artigo de 2019 se havia verdade por detrás do hype. “Hoje estamos a viver num mundo CBD com tinturas, pomadas e óleos a aparecer por todo o lado”, escreveu Steven Petrow para o famoso jornal norte-americano.

Rodeado por promessas em torno dos poderes do CBD, algumas tão incríveis como que poderia aliviar “diabetes, alcoolismo, esquizofrenia e dores de costas, entre outras coisas”, Petrow decidiu experimentar CBD e começou a tomar diariamente uma tintura. “Depois de todo o hype, queria ver se poderia ter um impacto positivo na depressão, algo com que tenho lutado a minha vida toda”.

Vegan friendly, CBD friendly e saunda friendly. Brilho em doses reforçadas é a promessa do Glow Bar © Glow Bar

Apesar das pretensões extravagantes, a crença mais comum é que o CBD é capaz de induzir relaxamento sem os efeitos psicoativos. Um poder que pode não parecer muito excitante à primeira vista, mas, numa sociedade onde a ansiedade e o stress se tornaram problemas tão graves e generalizados, estamos em terreno é fértil para o sucesso do CBD.

Apesar dos mil-e-um-produtos e aplicações possíveis, não há por enquanto muita base cientifica para sustentar os benefícios do consumo regular de CBD. A falta de resultados em laboratório não impediu o enorme boom desta indústria, inexistente há pouco mais de cinco anos. De não existente em 2014, o negócio do CBD cresceu rapidamente e é hoje uma das indústrias de crescimento mais rápido nos EUA. O Hemp Business Journal, uma publicação norte-americana destinada a produtores e possíveis investidores, afirma que as vendas de CBD (de cânhamo) vão chegar a 646 milhões de dólares, com mais de 25% desse resultado a vir de lojas de produtos naturais – a maioria das vendas ainda acontece online. Nada mau para um produto que até recentemente estava por explorar.

“Que altura conveniente para a Mãe Natureza nos oferecer uma cura de perma-chillax que parece juntar tantas tendências culturais de uma vez: a nossa obsessão com tratarmos de nós e bem estar (wellness), a chegada de terapias alternativas ao mainstream e a implacável marcha da marijuana legal”, podemos ler num artigo do New York Times que discute se o CBD é a cura para o século XXI.

“O problema sociológico da atualidade, sobretudo entre millennials, é sem dúvida a ansiedade: ansiedade sobre a nossa disfunção política, ansiedade sobre terrorismo, ansiedade sobre as alterações climáticas, até ansiedade sobre a possibilidade da inteligência artificial nos tirar todos os bom empregos”, diagnosticam.

Num mundo ansioso e deprimido multiplicam-se os produtos onde alívio do stress pode ser aplicado. E não só para humanos. E não só na América, mas por todo o mundo. Veja-se o exemplo da Moretextil, uma empresa portuguesa que desenvolveu camas calmante para cães.

O CBD pode dar uma moca?

Com exceção da inglesa GW Pharmaceuticals, os principais produtores de CBD estão localizados na América do Norte, distribuídos entre os EUA e o Canadá. Curiosamente, muitas destas empresas são também grandes produtores de marijuana medicinal, legal em 33 dos 50 estados dos EUA. A razão para o cruzamento destas indústrias é que o CBD, para além do cânhamo, também pode ser retirado da marijuana e é aqui que as coisas começam a complicar.

Se, no caso do CBD retirado do cânhamo, o nível de THC é inferior a 0.3%, fazendo com que todos os produtos daqui resultantes sejam legais, no caso do CBD retirado da marijuana, os níveis de THC variam entre 5% e 30% fazendo com que este possa ser considerada uma droga recreativa de acordo com o estado norte-americano ou país em que se esteja.

Em Portugal como no Reino Unido a legislação é clara ao permitir produtos com CBD desde que a origem seja o cânhamo onde os níveis de THC não excedam os 0.2% e por consequência não produzam efeitos psicoativos.

Os Moon Milks infusionados com CBD são uma das estrelas nesta casa de bem estar. Bebidas coloridas para brilhar ainda mais no IG © Glow Bar

Não é portanto de admirar que haja confusão em torno do CBD – e que alguns produtores se estejam a aproveitar dela para ganhar dinheiro. Em Portugal, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) tem vindo a aumentar as diversas ações de fiscalização quanto ao uso de canabinóides em alimentos. A Lusa deu conta como em 2019, a ASAE apreendeu géneros alimentícios e produtos não-alimentares num valor total de 15.042 euros. Entre este lote, destacam-se como principais problemas a adição de substâncias não autorizadas e irregularidades de rotulagem. Apesar da desinformação em torno do CBD — propositada ou não –, o artigo cita a newsletter da ASAE para dizer que também em Portugal a febre do CBD é uma realidade.

“Nos últimos anos tem-se verificado um aumento da procura e disponibilização no mercado nacional de géneros alimentícios e de produtos fitoterápicos nos quais na sua composição consta a planta Cannabis Sativa, as suas sementes, extratos, óleos, ou apenas as suas substâncias químicas de forma isolada como o CBD ou outros canabinóides”, destaca a autoridade responsável pela segurança alimentar.

Moda ou remédio?

O quarto bebé de Kim Kardashian e Kanye West, Psalm West, nasceu em Maio de 2019. Semanas antes, a estrela de reality TV deu um baby shower cujo tema era nada mais, nada menos do que “CBD & Meditação” juntando todo o clã Kardashian e convidados à volta do bar de CBD e em workshops de como fazer óleos e sais de banho com CBD. Alessandra Ambrosio receita óleo de CBD para dormir bem – supostamente o seu ingrediente secreto para combater a ansiedade antes de um desfile para a Victoria’s Secret (entretanto cancelado e à espera de uma nova vida). E Whoopi Goldberg até vende óleo de CBD através da Whoopi & Maya, a sua empresa de cannabis medicinal.

A sauna de infra-vermelhos é uma das coqueluches da casa — que ganhou um mediatismo extra à conta de uma cliente especial, Gwyneth Paltrow © Glow Bar

Exemplos não faltam para mostrar que o CBD é um preferido de muitas pessoas de renome, mas se alguém o colocou nesse pedestal, essa celebridade foi Gwyneth Paltrow. “Quando a Gwyneth Paltrow começa a enaltecer um produto, sabes que vai perder aquele estatuto de segredo e saltar para a ribalta. Isto não é uma crítica à Gwyneth Paltrow, ela simplesmente representa um certo tipo de mulher adulta, chique, com dinheiro que é suscetível ao hype. Ela é o arquétipo da “Cool Mom”, uma faixa etária que pode legitimizar todo um negócio e injetar-lhe dinheiro só por pensar que algo é fixe”, escreveu a Marie Claire a propósito de como a atriz e nome de peso no universo do bem-estar de luxo catapultou o CBD de um canto obscuro d’O Celeiro para a prateleira de mulheres de sucesso por todo o mundo quando o Goop, o site da sua marca de lifestyle, começou a publicar artigos sobre bombas de banho de CBD, cocktails com CBD e brownies sem glúten, mas com CBD. Com três letrinhas apenas se escreve a fórmula para ser uma mãe cool.

Em anúncios no metro, páginas de shopping de revistas femininas e montras de lojas e cafés, a abundância de produtos supostamente ricos nestas três letras não deixa espaço para dúvidas: o CBD, quer seja em gotas para pôr debaixo da língua, gelados, géis de massagem ou comida de cão, é o ingrediente da moda – por favor deitem fora todos os vossos cristais de sal dos Himalaias e frascos de mel de Manuka e abram alas ao CBD.

Mas então e o Steven Petrow, o jornalista do Washington Post que no princípio deste artigo dissemos que tinha começado a tomar CBD diariamente?

“Desde que comecei a tomar CBD, a minha disposição tem estado significativamente positiva e estável, ainda que esteja ciente que a minha experiência não prova nada. O efeito placebo pode ser forte, especialmente para sintomas de saúde controlados pelo cérebro”, rematou o jornalista do Post depois de três meses a tomar a substância.

Da mesma maneira, eu, sentada no Glow Bar questionei a minha própria sensação de relaxamento e entorpecimento momentos depois de engolir a pequenita bola de Cookie Dough e CBD. Não consegui acabar o café com CBD, aquele gosto forte a verde não era fácil de digerir, mas bebi a maioria. Foi a bebida quente e o ambiente relaxante que num dia cinzento me apaziguaram o espírito? Ou será que a minha cabeça associou o sabor a erva a uma sensação que normalmente lhe está associada? É difícil ter a certeza.

Um estudo de 13 de fevereiro da Food Standards Agency, a organização que regula produtos alimentares no Reino Unido, tentou perceber o comportamento e motivação das pessoas que usam CBD. Num grupo de 352 pessoas, a principal razão referida para tomar CBD era para alívio da dor, mas também para a ansiedade, relaxar e dormir bem. Cerca de dois terços dos participantes acreditavam que o CBD lhes tinha melhorado o estado de saúde ou ajudado com um problema médico. Estes resultados estão longe de provar seja o que for sobre o real efeito de uma substância que, apesar de extremamente popular, ainda tem pouco ou nenhum sustento científico.