Poucos metros separam o Lar Santo António, na Amadora, da Escola Luís Madureira. Os dois espaços sempre conviveram em harmonia com atividades intergeracionais, o que permitia às crianças da escola visitar os idosos no lar, a quem chamavam de “avozinhos”, e preencher a vida dos que ali residem.
Como era o caso do canadiano Mr. John, residente e ao mesmo tempo professor de inglês das atividades extra-curriculares dos alunos no pré-escolar. Uma parceria que foi suspensa, esta semana, devido ao risco de infeção do Covid-19. Para tristeza de todos, em especial dos que ali vivem 365 dias por ano. Mas o risco de contágio falou mais alto e a faixa etária dos idosos com mais de 80 anos é a mais afetada.

Uma estatística que Manuel Girão, diretor da Santa Casa da Misericórdia da Amadora, não podia ignorar e que o obrigou a tomar as medidas previstas Plano de Contingência elaborado para dar resposta à infeção do Covid-19: “O mais importante é impedir o coronavírus de entrar nos lares. Porque quando isso acontecer, vai ser uma desgraça. Já estávamos a contar que, esta semana, a situação ia piorar e muito. Era essa a informação que tínhamos do delegado de saúde. E optámos por suspender de imediato qualquer contacto da população idosa com os mais novos”, confirma ao Observador o diretor da Santa Casa da Amadora, responsável por mais de duzentos seniores, divididos por três estruturas de residências e uma unidade de cuidados continuados.

Quase todos têm doenças crónicas, problemas respiratórios ou cardíacos. Por isso, as visitas de familiares já estavam suspensas há mais de uma semana, antes do primeiro-ministro, António Costa, ter anunciado que a limitação imposta na zona norte do país se estendia a todo o território. O que não quer dizer que os laços afetivos tenham sido suspensos, foram apenas “substituídos” por videochamada.

O mesmo se passou no Lar Residencial Geriabranca, em Albergaria-a-Velha, onde vivem 30 utentes e trabalham mais de 20 funcionários. Todas as visitas estão proibidas há mais de uma semana, inclusive a pessoas que pretendem inscrever os seus familiares idosos. “Não é a melhor altura para tratar de assuntos administrativos”, frisa a gerente Lurdes Reis, que coordena o espaço juntamente com o marido, cirurgião vascular. Nesta fase, todos os cuidados são poucos, reconhece. Os funcionários, também eles preocupados com a dimensão da doença, desempenham todas as tarefas com máscaras e luvas uma vez que o distanciamento social não é viável. “É impossível ultrapassar essa limitação. Por isso, o mais importante é certificarmo-nos que os colaboradores não sejam o foco de infeção dentro do lar. Neste momento, estamos a conseguir. Mas é tudo tão imprevisível”, assume Lurdes Reis.

Se tiver de fechar as portas, diz que o que mais a preocupa são os residentes. Sem familiares com condições para os acolher, teriam de ser distribuídos por outros lares em vários pontos do país. “Para não correr esse risco, fechei as portas. Cancelei visitas e passeios. Sei que são medidas difíceis de aceitar e que isola ainda mais os idosos, mas é para o bem de todos”, conclui.

Passeios e visitas canceladas. Portas fechadas e visitas suspensas. É assim que os lares e residências de idosos vão tentar travar a entrada do Covid-19.

Dentro dos lares ou residências de idosos as medidas que vão sendo aplicadas no combate ao surto estão a ser recebidas com “tranquilidade“, segundo apurou o Observador. Mas a “ansiedade” é palpável. No Lar Santo António, por exemplo, a sala de estar com vista para o pátio onde as crianças brincavam atenuava as saudades. A partir de segunda-feira, a vista é para o vazio.

Mas são os idosos que vivem sozinhos ou sem rede familiar que estão a ter dificuldades em lidar com a doença. “Quando se chega aos 80 ou 90 anos já não é da morte que se tem medo. É de acabar a vida num hospital”, frisa Manuel Girão, da Santa Casa da Amadora.

E alguns, apercebendo-se do risco a que estão expostos, estão a recusar o apoio domiciliário das juntas de freguesia ou das instituições de solidariedade por temerem que os funcionários facilitem a transmissão da doença. E fecham-lhes a porta de casa. O que acarreta inúmeros riscos já que no centro da cidade de Lisboa, em freguesias com uma elevada taxa de população idosa, os serviços de apoio domiciliário são os que melhor “identificam as necessidades básicas da população mais vulnerável”, como explica Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que comporta os bairros de Alfama, Baixa, Chiado, Castelo, e Mouraria.

Por causa da pandemia de Covid-19, o autarca já foi obrigado a interromper várias atividades na zona, como a Universidade Senior e o Componente de Apoio à Família, um espaço destinado a assegurar o acompanhamento dos alunos do 1.º ciclo do ensino básico. E pode não ficar por aqui.
De uma coisa tem a certeza, o “apoio social aos idosos não vai diminuir”. E só não pára porque isso teria consequências “trágicas”. Só a junta freguesia é responsável por servir mais de sessenta refeições a famílias carenciadas e idosos com mobilidade reduzida e, por isso, não conseguem cozinhar. Também este serviço já teve de sofrer alterações. Com o isolamento social sugerido pelo Governo, seguindo as indicações do Plano de Contingência para a Doença por Coronavírus (Covid-19), as refeições vão deixar de estar disponíveis num espaço físico, o que permitia aos residentes recolhê-las e levá-las para casa, e agora passam a ser distribuídas porta a porta por funcionários capacitados para o efeito, com máscaras e luvas. “Dessa forma vamos continuar a vigiar os idosos sempre com devidos cuidados para não sermos portadores do coronavírus”.

Com a transição para a etapa de mitigação “proteger a população mais vulnerável passa a ser um dever de todos”. Quem o diz é Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas. Um discurso de quem quer mostrar confiança na resposta que o setor social vai dar nesta crise. Mas é a falta de recursos humanos que mais o preocupa porque é quase “inevitável” que algumas das pessoas que prestam apoio aos lares ou residências seniores venham a ser contaminadas. É antevendo este cenário que Manuel Lemos propõe a utilização dos recursos humanos das escolas, funcionários ou auxiliares disponíveis a partir de segunda-feira com o encerramento dos estabelecimentos de ensino.