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Coronavírus. Afinal, devemos ou não usar máscaras?

OMS e DGS dizem que o seu uso pode até aumentar o risco de contágio, mas, na cultura asiática, a máscara é central na responsabilidade coletiva. Será eficaz? Não há certezas.

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O uso de máscara cirúrgica já é muito frequente em Portugal desde o início da pandemia

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O uso de máscara cirúrgica já é muito frequente em Portugal desde o início da pandemia

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Apesar dos repetidos apelos em sentido contrário por parte das autoridades de saúde, a corrida às máscaras cirúrgicas já fez esgotar este produto em muitas farmácias portuguesas. Tanto a Direção-Geral da Saúde (DGS) como a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm insistido que apenas os doentes, os suspeitos de infeção e os prestadores de cuidados aos infetados devem munir-se de máscaras.

Da Ásia, porém, chega um exemplo radicalmente oposto. Com a epidemia da SARS do início do século ainda na memória, vários países e regiões na Ásia distribuíram máscaras a toda a população como medida de combate à propagação do coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, que já infetou mais de 200 mil pessoas em todo o mundo e provocou a morte a mais de 8 mil.

Perante diferentes abordagens à questão do uso de máscaras por parte da população em geral — e opiniões divergentes entre vários especialistas e governos —, resta a dúvida: afinal, devemos ou não usar máscara nas situações em que é necessário sair à rua?

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Especialistas consultados pelo Observador garantem que não há forma de dar uma resposta clara a esta questão, devido à falta de conhecimento científico completo sobre o assunto e ao grande número de variáveis em jogo. Para a mesma conclusão aponta a documentação científica existente até ao momento.

As autoridades de saúde no Ocidente têm-se multiplicado em esforços para passar uma mensagem: a utilização de uma máscara cirúrgica não protege quem a usa de ser infetado com o coronavírus. Na verdade, a proteção garantida pelas máscaras cirúrgicas é unidirecional, ou seja, apenas impede a projeção de partículas por parte de quem está a usar a máscara.

Como considera a DGS num plano nacional de resposta à pandemia divulgado recentemente, “a utilização de máscara facial por pessoas doentes durante surtos ou pandemias é útil para impedir a propagação do vírus a contactos próximos ou outras pessoas da comunidade“.

Os alertas das autoridades

No plano de resposta, a DGS explica que as máscaras cirúrgicas “formam uma barreira física que previne a transmissão de vírus de uma pessoa doente para uma pessoa saudável, ao bloquear as partículas respiratórias/aerossóis expelidas pela tosse ou espirro”.

Por isso, destaca a autoridade nacional de saúde, “o uso de máscara por indivíduos sintomáticos é fortemente recomendado em todas as fases da epidemia (se a condição clínica o permitir) e estes devem estar capacitados para o uso correto da mesma”.

Contudo, quem não tem sintomas não deve, no entender da DGS, utilizar máscara. Numa página de perguntas e respostas sobre o coronavírus, a DGS explica que, “de acordo com a situação atual em Portugal, não está indicado o uso de máscara para proteção individual”, abrindo apenas duas exceções: suspeitos de infeção por COVID-19; pessoas  que prestem cuidados a suspeitos de infeção por COVID-19.

“A Direção-Geral da Saúde não recomenda, até ao momento, o uso de máscara de proteção para pessoas que não apresentam sintomas (assintomáticas). O uso de máscara de forma incorreta pode aumentar o risco de infeção, por estar mal colocada ou devido ao contacto das mãos com a cara. A máscara contribui também para uma falsa sensação de segurança“, explica a mesma página.

No plano de resposta mais alargado, contudo, a DGS admite que, relativamente a “indivíduos assintomáticos com suscetibilidade acrescida, o uso da máscara pode ser reservado para uma fase de mitigação e em contexto de grandes aglomerados populacionais ou de frequência de serviços de saúde“.

As recomendações nacionais estão em linha com as internacionais. Numa página especificamente dedicada ao efeito, a Organização Mundial da Saúde destaca que uma pessoa saudável só precisa de utilizar uma máscara cirúrgica se estiver a cuidar de alguém que possa estar infetada com o vírus.

A OMS aconselha também todas as pessoas que tenham tosse ou espirros a utilizar máscara — uma vez que podem transmitir o vírus sem saber que estão infetadas —, mas alerta que “as máscaras só são eficazes quando usadas em combinação com uma lavagem frequente das mãos com uma solução à base de álcool ou com sabão e água”.

Nos Estados Unidos, o responsável federal pela saúde pública, Jerome Adams, chegou mesmo a apelar em letras maiúsculas, no Twitter: “A sério, pessoal — PAREM DE COMPRAR MÁSCARAS! Elas NÃO são eficientes para impedir o público em geral de apanhar o coronavírus, mas se os prestadores de cuidados não as conseguirem comprar para cuidar dos doentes, eles e as nossas comunidades ficam em risco”.

Máscaras diferentes, funções diferentes

Se as máscaras cirúrgicas servem essencialmente para evitar que um doente contamine outras pessoas através da tosse e espirros, existem outras máscaras — que são, na verdade, respiradores — que oferecem proteção bidirecional. É aqui que se incluem as famosas FFP2 e FFP3 (no padrão europeu) e N95 (no padrão norte-americano) de que tanto se tem falado nas últimas semanas.

Como explica o centro norte-americano para a prevenção e controlo de doenças, existem diferenças assinaláveis entre as máscaras cirúrgicas e os respiradores.

Enquanto a máscara cirúrgica fica larga na cara e não filtra qualquer tipo de partícula (apenas impede gotículas de saírem), estes respiradores, equipados com filtros específicos, são capazes de filtrar partículas minúsculas, impedindo-as de entrar, ao mesmo tempo que se ajustam à cara do utilizador de forma a praticamente evitar qualquer entrada ou saída de ar não filtrado.

Consoante as características do filtro, o respirador pode conseguir filtrar um número maior ou maior de partículas. Enquanto a máscara FFP2 consegue filtrar até cerca de 95% das partículas transportadas através do ar, a FFP3 filtra cerca de 99%, sendo considerada a mais eficaz.

Porém, devido às especificidades técnicas da máscara, estas são muito mais caras do que as simples máscaras de papel — e devem ser reservadas, essencialmente, para os profissionais de saúde.

“As máscaras cirúrgicas têm a função de impedir a projeção de gotículas por parte de quem usa. Outras máscaras diferentes têm funções diferentes, como as FFP2 ou outras. Mas essas são para quem presta cuidados aos doentes“, explicou ao Observador o epidemiologista e presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia.

Apesar de compreender que uma pessoa que tenha necessidade de se deslocar — usando os transportes públicos, por exemplo — tenha vontade de recorrer a uma máscara cirúrgica para se proteger de uma potencial infeção, Ricardo Mexia é perentório: “Uma máscara cirúrgica não é particularmente eficaz para essa função“.

“Na Europa, as instituições não preconizam que se use máscara, a não ser em casos de suspeita de infeção ou de contacto com pessoas suspeitas de estarem infetadas”, destaca Ricardo Mexia.

O infecciologista Jaime Nina, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, admite, contudo, que a máscara cirúrgica possa oferecer um certo nível de proteção em contextos muito específicos.

Na minha opinião, faz sentido uma pessoa usar uma máscara cirúrgica para se proteger durante um período limitado em que tenha de estar dentro de um ambiente fechado em que haja um risco mensurável de contaminação“, explica o especialista ao Observador, dando como exemplo de situações o uso de transportes públicos em zonas onde haja historial de transmissão comunitária do vírus ou uma reunião com pessoas que tenham alguma suspeita de estarem infetadas.

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Porém, adverte Jaime Nina, há uma série de fatores a ter em conta. Por exemplo, “as máscaras perdem eficácia rapidamente quando são humedecidas“. Por isso, uma máscara cirúrgica não pode ser usada duas vezes, nem durante um período de tempo muito grande, argumenta o infecciologista, sublinhando que “não faz sentido” dar um uso contínuo à mesma máscara.

Uma opinião semelhante tem Nuno Taveira, professor catedrático no Instituto Universitário Egas Moniz e investigador da Faculdade de Farmácia de Lisboa. Ao Observador, este especialista tinha dito em fevereiro que não faz sentido usar uma máscara cirúrgica para se proteger em situações em que esteja ao ar livre.

Porém, em espaços fechados junto a pessoas que possam, por alguma razão, estar infetadas, a situação é diferente: “Por exemplo, se o meu filho tivesse regressado de uma viagem a Itália, mantinha-o em casa, e o resto da família também. Ele punha máscara, e eu punha máscara, para tentar conter a transmissão do vírus que ele pudesse estar a incubar“.

Embora tenha admitido que a utilização de máscara pode causar alarmismo, Nuno Taveira sublinhava naquela altura, quando ainda não havia casos confirmados em Portugal: “Se eu andasse de metro, usava máscara. A partir do momento em que o primeiro caso estiver confirmado, fará todo o sentido usar em espaços fechados“.

Responsabilidade coletiva. Ciência ou cultura?

Paralelamente à discussão sobre a eficácia de diferentes tipo de máscara em diversas situações, é ainda possível colocar outra questão: tendo em conta que os sintomas demoram a manifestar-se e uma pessoa infetada pode infetar outras antes ainda de saber que está infetada, se a generalidade da população utilizasse máscara todos os dias, como acontece em vários países asiáticos, seria uma medida útil para conter a propagação do vírus?

Há muito pouca evidência científica. Baseia-se tudo em opiniões“, responde Jaime Nina, acrescentando: “Exceto em ambiente muito controlados, com doentes de alta infetividade, com tuberculose multi-resistente, por exemplo, é que foram feitos ensaios. Tudo o resto é opinião. Pura e simplesmente não há ensaios. Em situações em que a evidência é muito pequena, é natural que haja discordância”.

A verdade é que a decisão de utilizar uma máscara em público tem uma forte componente cultural. Na Ásia, a utilização de máscara em grandes cidades é comum. Tão comum que já se tornou num aspeto identitário associado a chineses e japoneses, frequentemente alvos de discriminação precisamente por causa da utilização de máscara em contexto ocidental.

Para a grande maioria dos asiáticos, utilizar máscaras não significa estar doente. Na Ásia, sobretudo depois do surto da SARS, provocado também por um coronavírus, o uso de máscara na rua tornou-se num hábito associado à ideia de responsabilidade coletiva. Em 2003, a SARS infetou um total de 8.098 pessoas, levando à morte de 774 doentes — o que representa uma taxa de mortalidade próxima dos 10%.

Mas o hábito de utilização coletiva de máscaras é anterior ao surto de 2003. Segundo explicou ao South China Morning Post Mitsutoshi Horii, um professor da universidade de Shumei que estudou precisamente o fenómeno da utilização de máscaras no Japão, naquele país as máscaras “tornaram-se uma prática muito comum contra a gripe e, nos anos 70 e 80, as pessoas começaram a usá-las para a rinite alérgica. Mais recentemente, houve um certo medo do ar poluído da China e as pessoas começaram a usá-las também para isso“.

“As pessoas no Japão usam as máscaras naturalmente para se sentirem mais seguras. Mas no Ocidente, por causa da forte resistência e crença na importância de mostrar a cara, as pessoas tendem a ter ideias negativas sobre as máscaras”, explicou o mesmo especialista.

Na cultura asiática, com uma forte componente coletivista, a utilização generalizada de máscaras como forma de contribuir para o corte das cadeias de transmissão de um vírus é encarada com naturalidade.

Por isso, durante este surto da covid-19, vários países asiáticos adotaram medidas nesse sentido. Na China, por exemplo, as autoridades de saúde de Pequim e de Xangai incluíram, no pacote de restrições impostas em fevereiro, a obrigatoriedade de utilizar máscara em locais públicos.

Na Coreia do Sul, o Governo anunciou que iria distribuir máscaras por toda a população como forma de conter a propagação do surto, cancelando inclusivamente a exportação daquele produto para assegurar a distribuição interna.

Nas grandes cidades da Ásia, o uso de máscaras no dia-a-dia é comum

SOPA Images/LightRocket via Gett

Já o Governo de Singapura decidiu em janeiro que todas as famílias do país teriam direito a quatro máscaras cirúrgicas, que podiam ser levantadas em centros comunitários e em centros de residentes por todo o território nacional. O Japão, por seu turno, distribuiu 4 milhões de máscaras por toda a população da região de Hokkaido, mais afetada pelo surto.

Questionados sobre a eficácia destas medidas para a saúde pública, os dois especialistas ouvidos pelo Observador concordaram que não existe evidência científica que permita comprovar os benefícios. “Não temos muitos estudos sobre isso. Acaba por ser uma questão cultural“, afirmou Ricardo Mexia.

Para Jaime Nina, “ninguém sabe atualmente responder a essa pergunta com dados empíricos“. “Há uma componente cultural. Por exemplo, fazer fronteiras internas como a Europa fez e como Portugal fez também, para um japonês, seria inconcebível”, acrescentou.

Sublinhando que, no caso do novo coronavírus, uma pessoa infetante só se torna infetante quando já tem alguns sintomas (ainda que ligeiros), os dois especialistas concordam que mais eficaz do que usar máscara em público é cumprir as recomendações de distanciamento social e de isolamento voluntário em casa.

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