O Banco de Portugal prevê, no mínimo, uma recessão de 3,7% este ano, no boletim económico divulgado esta quinta-feira. Uma previsão que parte do pressuposto que o impacto económico da pandemia será “relativamente limitado”, confiando que as medidas adotadas (e já anunciadas em Portugal e na UE) “são bem-sucedidas na contenção dos danos sobre a economia”. Mas este é o cenário base. O Banco de Portugal não ficou por aí, avançando também com as contas a um cenário adverso, se o impacto se prolongar: a recessão pode chegar aos 5,7% — o que seria o pior registo desde 1970.

Em qualquer dos cenários, o Banco de Portugal deixa bem claro que o impacto desta crise “tem uma natureza muito persistente, associada à destruição de capacidade produtiva instalada”, prevendo que o choque atinja o pico no segundo trimestre do ano e uma normalização gradual a partir do segundo semestre, acompanhando os outros países do euro e do mundo. O supervisor avisa ainda que o choque da pandemia vai ter “efeitos muito significativos e potencialmente prolongados no tempo em termos do bem-estar dos cidadãos e da atividade das empresas”.

No cenário menos agressivo, em que a economia cai 3,7%, a recessão ficaria muito perto do pior registo durante a crise do euro, quando a economia encolheu 4% em 2012 — depois de várias revisões do INE aos números iniciais (-3,2%).

Mas ao contrário da crise anterior — em que a produção caiu durante três anos consecutivos, entre 2011 e 2013 —, a retoma, desta vez, é esperada logo de seguida, embora de forma progressiva: “um crescimento ainda fraco em 2021 (0,7%)” e recuperando mais notoriamente em 2022 (3,1%)”.

Já o desemprego deverá subir para os 10,1% este ano (ficou nos 6,5% em 2019), baixando no próximo ano (9,5%) e novamente em 2022 (8%). Mas o supervisor avisa que “depende crucialmente da configuração e magnitude das medidas de política que possam ser implementadas de imediato” pelo Governo.

Cenário mais adverso admite recessão histórica

Se o impacto da pandemia for maior, validando o cenário mais adverso do Banco de Portugal, a paralisação da atividade económica será mais prolongada em vários países, conduzindo a uma maior destruição de capital e perda de emprego. Esta versão pessimista das contas considera “uma maior incerteza e níveis de turbulência mais significativos nos mercados financeiros”, levando a economia portuguesa para uma recessão mais profunda, com o PIB a reduzir-se 5,7% em 2020.

Neste cenário, em que a taxa de desemprego subiria também para os 11,7%, a economia portuguesa teria a maior queda desde, pelo menos, 1970 (o último ano disponível do Instituto Nacional de Estatística — que, no entanto, só tem dados harmonizados desde 1996). Em 1975, foi registada a maior recessão até ao momento, com -5,1%.

Se a crise for assim severa, o Banco de Portugal acredita que nos anos seguintes  a atividade económica vai recuperar mais do que no cenário base, “prevendo-se um crescimento de 1,4% em 2021 e de 3,4% em 2022“.

Estas previsões, elaboradas com base em informação ainda muito preliminar e incerta quanto à evolução da economia, representam “revisões significativas em baixa face ao projetado no Boletim Económico de dezembro, onde se apontava para um aumento da atividade económica de 1,7% este ano e de 1,6% nos seguintes”.