“Infelizmente, não é daqueles casos em que se possa dizer ‘hey, eu avisei-vos‘” mas Bill Gates, co-fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, confirma que a pandemia do novo coronavírus é, essencialmente, uma ameaça semelhante à que previu em 2015, numa Ted Talk que se tornou viral na Internet, nas últimas semanas, pela descrição detalhada que fez daquilo que poderia ser uma propagação rápida de uma infeção viral pelo mundo todo. Gates lamenta que, com avisos como o seu, o mundo não tenha feito mais para se preparar para um caso destes. E, por isso, volta a avisar: “no futuro pode surgir uma epidemia pior do que esta“, incluindo bio-terrorismo – mas aí, confia, o mundo já estará mais prevenido.

Em entrevista (por videoconferência) a Trevor Noah, anfitrião do Daily Show (programa da Comedy Central que herdou de Jon Stewart), Bill Gates referiu-se à Ted Talk que fez em 2015 – e, sobretudo, a um artigo que publicou nessa altura numa revista científica, a New England Journal of Medicine – e explicou que, na altura, sabia que poderia estar iminente uma ameaça mundial deste género mas “não sabia que seria um coronavírus e não sabia que surgiria no final de 2019″. “O que quis foi instar os governos a fazerem os investimentos necessários para que fosse possível reagir e limitar a propagação e o número de casos a níveis muito baixos”, explica o filantropo.

O que Bill Gates lamenta é que, por sinal, “não aproveitámos esse tempo, quando era bem claro que esta seria a maior ameaça capaz de matar milhões de pessoas“. “Aproveitar o tempo”, em concreto, significaria ter investido numa infraestrutura de testes mais ágil e ter uma “fábrica” pronta a criar uma vacina o mais rapidamente possível. Foram feitas “algumas coisas” mas as autoridades não se prepararam para uma crise destas como se prepararam normalmente, por exemplo, para cenários de guerra.

[A Ted Talk de Bill Gates, de 2015, que agora voltou a ter grande popularidade na Internet]

Bill Gates não quer que o endeusem pela previsão certeira, porque “havia muitas pessoas tão preocupadas quanto eu, como o Dr. [Anthony] Fauci”, que hoje é o principal responsável pela resposta científica dada a esta pandemia nos EUA. No passado, “tínhamos tido sorte em outros surtos como o zika e o ébola. Mas, em contraste com esses, este vírus que pode ser propagado muito rapidamente por pessoas sem sintomas a dezenas de outras pessoas”.

Bill Gates (e não só) previram esta pandemia há anos. E deixaram pistas para a resolver

Questionado por Trevor Noah sobre o que os países devem fazer para combater este surto, Bill Gates diz que “a grande ferramenta que temos neste momento é a alteração dos comportamentos, o distanciamento social, o que basicamente significa ficar em casa, na maior parte dos casos”. Mas “a outra ferramenta é a capacidade de testes, que tem de ser aumentada para garantir que se consegue isolar as pessoas que são portadoras, para que se limite a propagação”. A rapidez com que os testes apresentam resultado será um fator decisivo, diz Bill Gates.

Mais a prazo, Bill Gates diz que a prioridade dos esforços irá passar pela pesquisa científica em busca de terapias que mitiguem a doença e reduzam o número de mortes. “Esperamos que dentro de seis meses algumas dessas terapias já terão sido aprovadas” pelas autoridades de saúde, antecipa o co-fundador da Microsoft. Mas a solução última, “a única coisa que nos vai fazer voltar ao normal, que vai fazer com que nos voltemos a sentir bem, a sentir confortáveis em estar num espaço ou num estádio com muitas pessoas à volta, é a criação de uma vacina que não só ajude o nosso país como que possa ser levada para toda a população mundial”, sublinha.

“Vamos continuar a sentir que vivemos num mundo diferente até que surja uma vacina”

Bill Gates diz que, no caso dos EUA, há uma expectativa de que “o número de novos contágios possa aplanar no próximo mês e começar a descer no mês seguinte, e aí é quando se pode começar a tomar algumas medidas de reabertura de locais de trabalho, de escolas, mas, provavelmente, não eventos desportivos“, diz o filantropo, numa altura em que o Presidente Donald Trump se reúne com os principais ligas desportivas para tentar que regressem ou que, como no caso da liga de futebol americano, comecem em meados de setembro, como é habitual.

O co-fundador da Microsoft acredita que, com a reversão gradual do lockdown, os primeiros sinais de retoma poderão acontecer no início do verão. “As coisas vão reabrir, lentamente, e é possível que se obrigue à utilização de máscaras por parte de muitas pessoas. Vamos continuar a sentir que vivemos num mundo diferente até que surja uma vacina que possa ser distribuída pelo mundo”, adianta.

Outra coisa que vai mudar muito nos próximos anos, sobretudo enquanto não houver vacina, é que “os países mais ricos que conseguirem conter a epidemia não vão permitir que venham pessoas dos países em que as mesmas medidas de controlo não sejam tomadas”, disse Bill Gates, numa resposta a uma pergunta em que Trevor Noah dava como exemplo o Brasil. “Isto vai criar enormes limitações nas viagens transfronteiriças nos próximos anos“, acrescenta.

Até lá, Bill Gates, cuja fundação (Melinda & Bill Gates Foundation) já doou 100 milhões de dólares para pesquisa científica na área da Covid-19, diz que “se conseguirmos a capacidade de testes necessária para testar muitas pessoas, então vamos conseguir alterar o número final de infetados em muitos milhões”. “Os governos vão, eventualmente, empenhar muito dinheiro neste esforço” de combate ao novo coronavírus, acredita.

Mas mesmo que isso chegue para derrotar este novo coronavírus, não vai ser suficiente para responder a ameaças potencialmente ainda mais mortíferas e contagiosas, avisa o filantropo, que tem larga experiência com a área da epidemiologia por via dos projetos que a sua fundação tem vindo a financiar nos últimos anos.

“Este foi um vírus causado pela própria Natureza, e por muito mau que seja, desde que as pessoas tenham acesso a tratamento razoável, estamos a falar de uma taxa de mortalidade de 1% ou à volta disso“, diz Bill Gates. O risco é que “no futuro possam surgir epidemias que sejam piores do que esta, incluindo algumas que não tenham tido origem na Natureza, ou seja, bio-terrorismo“.

Bill Gates comenta, porém, que o lado positivo da Covid-19 é que “esta epidemia está a causar mudanças tão grandes no mundo que, desta vez, não será visto como foi o ébola – que era só um problema que se verificava em algumas partes de África. Desta vez, vamos certamente preparar-nos melhor para a próxima epidemia“.

O vídeo da entrevista de Trevor Noah a Bill Gates, que tem a duração de 22 minutos, pode ser visto nesta ligação (em inglês).