Andrea nasceu no final dos anos 80 na antiga Jugoslávia. O pai é sérvio, a mãe é bósnia e a família mudou-se para a Alemanha quando Andrea tinha seis meses. A nacionalidade alemã foi uma inevitabilidade, o ténis também. O pai, Zoran, tinha sido tenista, chegou a fazer parte da equipa da Jugoslávia numa edição da Taça Davis e era treinador num clube alemão. Andrea Petkovic entrou pela primeira vez num court aos seis anos, tornou-se tenista, o pai Zoran tornou-se treinador e a alemã acabou por entrar no top 10 das melhores do mundo em 2011.

Nunca disputou uma final de um Grand Slam — ficou perto em 2014, quando chegou às meias-finais de Roland Garros — mas ganhou seis torneios do circuito WTA. Nos últimos anos, algo castigada por lesões consecutivas, acabou por dar vários trambolhões no ranking e tem tido dificuldades em regressar à alta roda do ténis internacional. Quando o mundo entrou em quarentena, estava a duas semanas de voltar aos treinos, depois de uma recuperação prolongada de uma lesão no joelho.

Em 2014, Andrea Petkovic chegou às meias-finais de Roland Garros: é o ponto alto da carreira da tenista alemã

Durante anos, Andrea Petkovic foi tida como a “intelectual do ténis”. Aparecia quase sempre com um livro na mão, tinha um discurso diferente do das restantes atletas, estudava Ciência Política na Universidade de Hagen e citava Goethe e Oscar Wilde como autores favoritos. Pelo meio, mantinha um blogue com versões em alemão e inglês, escrevia uma coluna semanal para o jornal Süddeutsche Zeitung e ainda um diário da vida no circuito internacional de ténis para o diário Frankfurter Allgemeine Zeitung. Mas Andrea recusava a ideia de ser uma “intelectual do ténis”.

“Vejo muita gente a ler no lounge dos jogadores. A Maria Sharapova tinha sempre um livro na mão, a Ana Ivanovic também lia muito. Acho que é uma questão geracional, ainda assim. Se olharmos para a geração mais nova, são mais ligados ao digital e têm maior probabilidade de estarem a olhar para o telemóvel. Eu nasci em 1987, por isso, faço parte da última geração que cresceu em analógico”, explicou a tenista de 32 anos ao Telegraph.

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Mesmo recusando a ideia de ser uma “intelectual do ténis”, Andrea Petkovic aproveitou a quarentena para criar um clube de leitura a partir do Instagram. Chama-se, de forma apropriada, Racquet Book Club, algo como Clube de Leitura da Raquete, e já leva 18 vídeos que Andrea filmou pessoalmente para apresentar, descrever e recomendar um livro. O primeiro foi “String Theory”, de David Foster Wallace, um livro sobre ténis que a atleta descreveu como “uma escolha muito pessoal” que seria “hipócrita” não tomar — ainda que tenha garantido desde logo que os livros seguintes seriam “inclusivos”. Por agora, está a resultar: já mais de 3 mil pessoas seguem o clube de leitura de Andrea Petkovic.

“Estava à espera de começar a bater bolas daqui a duas semanas. Mas o centro de recuperação — para o meu joelho, não para o meu alcoolismo — está fechado. Por isso estou só em casa. Tenho um monte de fitas de resistência e faço pesos leves e estou a tentar manter-me o mais em forma possível. Nunca fiz tanto ioga na minha vida”, contou a tenista ao Telegraph, numa declaração que deixa perceber o caráter algo único de Andrea Petkovic. Sobre a decisão de começar o clube de leitura, a tenista alemã explicou que já tinha pensado no assunto muitas vezes e que era um “objetivo grande, cabeludo e audaz”. “Depois, quando o vírus chegou, pensei: “Ok, se não for agora, nunca vai ser”, acrescentou.

“Digam à vossa família, aos vossos amores, a todos os vossos amigos. Eles precisam de saber que vocês são inteligentes e talvez um pouco estranhos. Porque quem é que se junta a um clube de leitura online?”, atira Andrea. A mesma Andrea que em 2014, logo depois de vencer Sara Errani e carimbar a presença nas meias-finais de Roland Garros, deu uma ótima demonstração daquilo que, talvez, é ser “inteligente e um pouco estranho”. “Gostaria de ligar ao Freud e perguntar-lhe o que pensa sobre mim e a minha alma distorcida”, disse, ainda no court de um dos quatro principais torneios de ténis.

E quais são as sugestões de Andrea Petkovic? Podemos destacar três. “H is for Hawk”, de Helen Macdonald, “Lincoln no Bardo”, de George Saunders e vencedor do Man Booker Prize de 2017, e ainda uma obra do alemão Frank Wirtzel, que venceu o prémio literário nacional na Alemanha em 2015 e que leva como título “The invention of the Red Army Faction by a manic-depressed teenager in the summer of 1969”, algo como A invenção da Fação do Exército Vermelho por um adolescente maníaco-depressivo no verão de 1969. “Comprei-o logo em 2015. Ganhou o prémio alemão nesse ano e normalmente compro sempre os livros que ganham. É um romance pós-moderno e tem 900 páginas. Nunca lhe toquei durante anos. Agora, finalmente, consegui mesmo começar”, explicou a tenista num dos vídeos do clube de leitura.