Há mais de 150 anos que a cidade de Nova Iorque utiliza Hart Island como cemitério, isolado, para enterrar aqueles que não têm ninguém. No caso de um residente da cidade morrer e o seu corpo não ser identificado nem reclamado por nenhum familiar ou amigo, é naquela ilha, ao largo do Bronx, que será enterrado. Agora, o mesmo espaço está a ser usado para enterrar vítimas da Covid-19 que não tenham sido reclamadas para funerais privados. As vítimas estão a ser enterradas em valas comuns, que são depois cobertas.

A informação começou a circular depois de serem divulgadas imagens de equipas a trabalhar no local e a enterrarem caixões nas valas recém-cavadas, com todos os elementos vestidos com fatos de proteção pessoal. Um desses vídeos foi divulgado pelo jornal The Guardian (atenção: o vídeo pode ferir a sensibilidade de alguns leitores).

A secretária de imprensa da Câmara de Nova Iorque, Freddi Goldstein, confirmou entretanto à CNN que é “provável” que algumas vítimas de Covid-19 “sejam enterradas na ilha ao longo dos próximos dias”. Não é possível perceber se os enterros que estão agora a acontecer são referentes a casos antigos, que ainda estavam nas morgues públicas, ou se se tratam já de vítimas do novo coronavírus. Certo é que algumas funerárias consultadas pelo The New York Times confirmaram ao jornal ter recebido indicações de que qualquer vítima por Covid-19 que não seja reclamada pela família deverá ser enterrada em Hart Island, mesmo que temporariamente.

Embora não confirmando se essas vítimas estão já a ser enterradas ou não em Hart Island, Goldstein reforçou que estes são casos em que, “durante duas semanas, não se conseguiu encontrar ninguém que diga ‘eu conheço essa pessoa, eu amo-a, eu tratarei do funeral'”. “São pessoas que mantinham zero contacto com a família”, acrescentou a secretária de imprensa. A pressão nas morgues tem sido intensa desde que a pandemia atingiu Nova Iorque e isso reflete-se em Hart Island: de acordo com Goldstein, a média de enterros na ilha é de 25 pessoas por semana, mas, neste momento é de 25 pessoas por dia.

A ideia de enterrar vítimas de uma pandemia no cemitério isolado naquela ilha não é nova. Hart Island tem sido usada como cemitério para vítimas de várias epidemias, como relembra o New York Times, desde a gripe pneumónica até à SIDA — e também já foi usada como local para isolar pessoas infetadas com febre amarela ou tuberculose. Esse passado, aliado ao facto de ser última morada de muitos sem-abrigo e outros indigentes, criou um estigma em torno daquele cemitério. Ao todo, mais de 1 milhão de pessoas estão ali enterradas.

Na década passada, Hart Island passou a figurar formalmente num plano de contingência para uma eventual pandemia de gripe, criado pelas autoridades de saúde de Nova Iorque. Esse plano prevê que as valas comuns sejam cavadas pelos presos de Rikers Island, como foi noticiado no início do surto na cidade.

Nova Iorque põe presos de Rikers Island a cavar valas comuns

O plano foi, contudo, abandonado. Segundo o Times, o facto de haver um surto de Covid-19 na prisão de Rikers Island, com 275 presos a testarem positivo, fez com que a câmara optasse antes por contratar privados para tratar dos enterros em Hart Island.