Em dezembro, o Zoom, o software de videochamadas sensação do momento criado por Eric S. Yuan, tinha dez milhões de utilizadores. Agora, tem 200 milhões. Também por causa disso, o empreendedor chino-americano tem estado debaixo de fogo, seja por assumir que a aplicação deveria ser melhor no que toca a privacidade, seja pelo dinheiro que ganhou graças à pandemia global do novo coronavírus. Tanto que, a 7 de abril, tornou-se o multimilionário mais recente da lista da Forbes.

Mas quem é Eric S. Yuan? O empreendedor tem 50 anos, é casado, tem três filhos e é um fã assumido de basquetebol. É cidadão norte-americano e vive em Santa Clara, na Califórnia. Como revela um pouco o apelido, Eric não nasceu, à semelhança de outros empresários americanos, nos EUA. Nasceu na cidade de Tai’an, na província de Shandong, na China. É também por esta ligação ao país asiático que tem recebido críticas e desconfiança. Contudo, nas últimas semanas, Yuan comprometeu-se a recuperar a confiança dos 200 milhões de utilizadores que angariou devido ao isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus. E deu um prazo para o conseguir fazer: 90 dias.

Usa o Zoom para videochamadas? Há preocupações em relação à privacidade

O espírito empreendedor de Yuan: desde queimar a casa dos vizinhos na China ao sonho de ir para os EUA

Como contava a Forbes em 2019, o espírito empreendedor de Eric começou cedo e já lhe valia problemas. O filho de engenheiros de minas recolhia restos de construções e reciclava o cobre para vender. Quando percebeu que o centro de recolha apenas precisava do metal, tentou queimar os restos debaixo da casa do vizinho, que ia ardendo no processo. Os bombeiros conseguiram apagar o fogo mas conta: “Os meus pais ficaram realmente chateados”.

Mais tarde, tirou o curso de matemática aplicada e informática na Universidade Shandong de Ciência e Tecnologia. Com 22 anos, ainda a fazer o mestrado, casou-se. Com ideias fixas, na altura dizia já estar convencido de que iria criar uma empresa. E tinha um ídolo: Bill Gates, o criador da Microsoft. Foi nessa altura que começou a tentar ir para os EUA, mas não teve a tarefa facilitada: teve o visto rejeitado oito vezes antes de ter autorização para poder trabalhar legalmente no país. No final, conseguiu e, em 1997, mudou-se para Silicon Valley.

O Zoom permite fazer videochamadas com inúmeros utilizadores ao mesmo tempo (até 100 na versão gratuita)

Foi no verão desse ano que Yuan começou a trabalhar na Webex, uma empresa de tecnologia de videoconferência que foi adquirida em 2007 pela gigante Cisco. Como muitos outros empreendedores informáticos, chegava a escrever linhas de código durante noites a fios. Depois de a Cisco ter adquirido a Webex por um total 3,2 mil milhões de dólares (algo como 2,8 mil milhões de euros, à altura), a empresa pôs Yuan a liderar a equipa de engenharia informática. No entanto, Yuan estava infeliz.

De acordo com o empreendedor, entretanto naturalizado americano, o serviço da Webex não era muito bom: tinha falhas, era lento e pouco amigo do utilizador. “Um dia alguém criará algo na nuvem e isso vai matar-me”, disse na altura ao investidor de capital de risco Bill Tai, que veio a ser dos primeiros “anjos” do Zoom. Ainda tentou convencer a Cisco a mudar. Como não conseguiu, saiu da empresa em 2011 para começar o que seria o Zoom.

Nasce o Zoom e, com toda a gente em casa, cresce

É em 2011 que nasce o Zoom, um serviço gratuito de videoconferência que permite que até 100 pessoas façam parte de uma videochamada até 40 minutos de duração. Para permitir mais, há um serviço pago (entretanto, com a pandemia, esta opção ficou gratuita). A aplicação é utilizada era direcionada mais para empresas em vez de consumidores e continua a ter clientes como o Facebook.

Em 2019, contou que o mais difícil para lançar a agora bem sucedida empresa foi convencer a mulher. “Disse-lhe: sei que é uma jornada longa e muito difícil, mas se não tentar, vou arrepender-me”, disse. Afinal, ao despedir-se da Cisco deixou de liderar uma equipa de 800 pessoas num emprego que já lhe era lucrativo.

Quando foi lançado o Zoom mostrou ser melhor do que a concorrência, como o Skype ou o Webex, oferecia. Em vez de tentar estar com investidores, Yuan insistia em fazer primeiro videochamadas pela aplicação para mostrar o seu valor. A aposta mostrou ser vencedora: em 2019, oito anos depois, o Zoom entrava na bolsa – no Nasdaq – e foi avaliada em 16 mil milhões de dólares. Pelo caminho, foi recebendo milhões de dólares em investimento.

Quando se cresce na tecnologia, há problemas de privacidade

Chegamos aos dias de hoje e ao boom que o Zoom teve. De um momento para o outro, ganhou 190 milhões utilizadores, mas também perdeu clientes: a SpaceX, empresa aeroespacial criada por Elon Musk, a baniu a app das ferramentas de trabalho da equipa. Mas não é a única. Na NASA, a agência espacial dos EUA, o Zoom também foi proibido. E, no mesmo país, o FBI tem andado a avisar as pessoas dos problemas que a app levanta. Na Europa, no Reino Unido, o Ministério da Defesa britânico baniu a utilização deste serviço. Ao mesmo tempo, vão juntando-se processos judiciais.

As origens chineses de Yuan têm sido muitas vezes utilizadas como arma contra o empreendedores. A desconfiança crescente com o país asiático pela forma como utiliza a tecnologia para invadir a privacidade das pessoas é o principal motivo. Contudo, não há nenhuma ligação provada entre Yuan o governo chinês.

Senado dos Estados Unidos diz para não se usar o Zoom

Depois de todas estas críticas que tem tido, Eric S. Yuan quis acalmar os utilizadores. Num comunicado a 2 de abril, o líder da empresa revelou um conjunto de medidas que quer pôr em prática nos próximos 90 dias para colmatar os problemas de privacidade que o serviço tem. Dois dias depois, assumiu ao Wall Street Journal: “Errei como presidente executivo”.

Nas últimas semanas, apoiar o fluxo de utilizadores tem sido uma tarefa tremenda e o nosso único foco (…) No entanto, reconhecemos que ficámos aquém das expectativas da comunidade – e da nossa – quanto privacidade e segurança”, assumiu Yuan.

À semelhança do que Mark Zuckerberg faz no Facebook (o presidente executivo e fundador dessa empresa), Yuan comprometeu-se ainda a, todas as quarta-feiras, fazer uma conferência online – pelo Zoom, obviamente – para discutir os problemas de privacidade e atualizações de segurança. Além disso, nos 90 dias seguintes o serviço não vai ter funcionalidades novas. O único objetivo agora é melhor as questões de privacidade. Para acautelar futuras críticas, Yuan garantiu ainda que vai ter auditorias de “empresas terceiras”.