Primeiro em Itália, depois em Espanha e agora na costa leste dos Estados Unidos — onde quer que a pandemia do novo coronavírus ataque mais intensamente, há uma imagem que, mais ou menos despercebidamente, se repete: a de pacientes internados nos hospitais, deitados de barriga para baixo. E não é por acaso, mas sim por opção médica.

A decisão pode salvar vidas, segundo explica Mangala Narasimhan, diretor regional de cuidados intensivos, responsável por 23 hospitais no estado de Nova Iorque, onde o último balanço diz que, na última terça-feira, morreram pelo menos 752 pessoas, vítimas da Covid-19.

“É uma coisa muito simples de fazer e temos visto melhorias significativas. Podemos vê-las em casa de um dos pacientes”, indica o médico especialista, entrevistado pelo CNN. A posição tem um nome técnico — em português, decúbito ventral — e consiste em deitar o paciente de barriga para baixo, o que ajuda a aumentar a quantidade de oxigénio que chega aos pulmões.

“Assim que percebemos que funciona, começamos a querer fazer em mais pacientes e vemos que resulta quase imediatamente”, reforça um outro especialista, Kathryn Hibbert, diretora da Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) do Massachusetts General Hospital.

No vídeo, um grupo de profissionais de saúde de um hospital nos Estados Unidos treina a melhor forma de deitar um paciente de barriga para baixo:

A maioria das vítimas da Covid-19 morre na sequência de graves complicações respiratórias, as mesmas verificadas em casos de pneumonia ou de gripes extremas. Neste contexto, em junho de 2013, um grupo de médicos franceses concluiu que colocar os doentes de barriga para baixo reduzia a mortalidade entre os pacientes com Síndrome de Dificuldade Respiratória Aguda (ARDS, na sigla em inglês) auxiliados por ventiladores.

Ao longo da experiência feita por esta equipa, cuja conclusão foi publicada no The New England Journal of Medicine, 237 pacientes foram colocados em decúbito ventral, enquanto outros 229 foram mantidos em decúbito dorsal, ou seja, deitados de barriga para cima. Ao fim de 28 dias, a taxa de mortalidade entre o primeiro grupo foi de 16%. Já a do segundo grupo foi sensivelmente o dobro, 32,8%.

A prática foi adotada por alguns profissionais de saúde, sempre que os pacientes precisam de suporte respiratório. Num processo observado pela cadeia de televisão norte-americana, no Hospital Judeu de Long Island, a saturação de oxigénio de um paciente passou de 85 para 98% após este ter sido virado de barriga para baixo. Ou seja, o paciente deixou de estar numa situação de hipoxemia, ou défice de oxigénio no sangue, para um valor próximo do de um indivíduo saudável (99%).

Normalmente, os pacientes que respiram com a ajuda de ventiladores permanecem de barriga para baixo durante cerca de 16 horas por dia e de costas no resto do tempo. “Ao colocá-los de bruços, estamos a abrir partes dos pulmões que não estavam abertas”, adicionou Kathryn Hibbert em declarações à CNN. A diferença parece estar no peso que o próprio corpo exerce sobre os pulmões e que, no caso da posição mais convencional, será maior.

Atualmente, os médicos estão a recorrer a esta posição, sobretudo nos doentes em estado mais grave. No Massachusetts General Hospital, por exemplo, cerca de um terço dos pacientes com coronavírus sujeitos a ventilação é colocado de bruços. Apesar dos benefícios, a posição pode prolongar a permanência dos doentes na Unidade de Cuidados Intensivos. Permanecer de barriga para baixo exige, normalmente, maiores níveis de sedação, já que é uma posição mais difícil e muito menos confortável de manter durante horas a fio.

Massachusetts General Hospital © David L. Ryan/The Boston Globe via Getty Images

No mesmo hospital, os enfermeiros já recomendam aos pacientes fora dos cuidados intensivos que permaneçam deitados em decúbito ventral, pelo menos, quatro horas por dia, dividindo o tempo em dois períodos. O estudo francês realizado há sete anos apenas analisou os efeitos da posição em doentes com ventiladores. Por isso, não estão confirmados os efeitos em pacientes em estado menos grave.

“A maioria está disposta a tentar. O tempo que permanecem nesta posição é que varia de pessoa para pessoa. Algumas estão confortáveis em adormecer assim, outras fartam-se e querem virar-se”, acrescentou Kathryn Hibbert, diretora da UCI do hospital.

Ainda assim, há já quem estudo os efeitos da posição em doentes que estejam num estado intermédio, nomeadamente os que precisam de receber oxigénio através de um tubo no nariz. O estudo está em curso no Centro Médico da Universidade de Rush, em Chicago, seguindo o mesmo método da experiência feita em França.